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Lingüística

On-line version ISSN 2079-312X

Lingüística vol.35 no.1 Montevideo June 2019

http://dx.doi.org/10.5935/2079-312x.20190009 

ARTÍCULOS

CONSOANTE NASAL POS-VOCÁLICA NO LATUNDÊ E NO PORTUGUÊS DO BRASIL

POSTVOCALIC NASAL CONSONANTS IN LATUNDÊ AND IN BRAZILIAN PORTUGUESE

1Universidade Federal de Pernambuco, stellatelles@hotmail.com

Resumo:

Este trabalho trata do comportamento da consoante nasal pós-vocálica na língua indígena Latundê e no Português do Brasil, a partir de estudos disponíveis. Nas duas línguas, a consoante nasal em coda não tem ponto de articulação definido. Em Latundê, na posição do acento, a consoante nasal apresenta comportamento distinto a depender do status oral ou nasal da vogal precedente. Quando a coda nasal segue vogal nasal, a sua realização é nasal, mas quando segue vogal oral, observam-se realizações alofônicas que decorrem da blindagem da vogal oral, a fim de favorecer a preservação do contraste vocálico nasal/oral existente na língua. Na língua portuguesa, por sua vez, a existência de uma consoante pós-vocálica nasal, numa estrutura bifonêmica, deriva a nasalidade contrastiva superficial nas vogais e confirma a subjacência de uma consoante nasal na coda

.

Palavras-chave: Consoante nasal pós-vocálica; Latundê (Nambikwara); Português do Brasil

Abstract:

This paper addresses the behavior of postvocalic nasal consonants in the indigenous language Latundê and in Brazilian Portuguese, based on available studies. In both languages, nasal consonants in coda have no defined places of articulation. In Latundê, in stressed syllables, the nasal coda behaves differently depending on the oral or nasal status of preceding vowels. When the nasal consonant in coda follows a nasal vowel, it is realized as a nasal consonant, but when it follows an oral vowel, it is observed allophonic realizations that result from the environmental shielding of the oral vowel, in order to further the preservation of the nasal/oral vowel contrast which occurs in this language. On the other hand, in Brazilian Portuguese, the existence of a postvocalic nasal consonant, in a diphonemic structure, enables the contrastive nasality of vowels on the surface and confirms the underlying nasal consonant in coda position

.

Keywords: Postvocalic nasal consonant; Latundê (Nambikwara); Brazilian portuguese

1. Introdução

A nasalidade é uma propriedade complexa em muitas línguas naturais. Informações tipológicas ajudam a compreensão de como as línguas funcionam e em que condições elas podem operar. Ao examinar, em particular, duas línguas não relacionadas, este texto se inspira na tipologia fonológica que prioriza o olhar sobre propriedades particulares e não a tarefa de classificar línguas em tipos largos, por considerar que no cotejo das propriedades pode-se melhor apreciar a riqueza da variação encontrada nas línguas do mundo (Hyman 2014).

Seguindo esse viés, o presente trabalho terá como foco a natureza e o comportamento da consoante nasal pós-vocálica numa língua indígena pertencente a uma pequena família linguística situada no sul da Amazônia brasileira, o Latundê1, e no Português do Brasil (doravante PB). Em ambas as línguas se encontram consoantes nasais contrastivas em onset silábico.

Em Latundê, dentro da classe das consoantes nasais, o contraste é observado entre as consoantes /m, n/ e no PB entre /m, n, ɲ/. Além disto, as duas línguas fazem uso de um contraste entre consonates soantes e não-soantes: /p, b, m/ e /t, d, n/ no PB e entre /p, m/ e /t, n/ em Latundê. Nas duas línguas, as consoantes nasais têm os diferentes pontos de articulação neutralizados em posição de coda. O contraste nasal em vogais é presente no Latundê, que tem um inventário de seis vogais nasais fonológicas: /ĩ, ḭ̃, ã, ã̰, ũ, ṵ̃/. No PB supõe-se que o contraste seja derivado de uma regra categórica, não implicando a existência de vogais nasais subjacentes.

O contraste, como a transferência da nasalidade de consoantes para vogais, pode desencadear fenômenos mais ou menos variáveis, no interior das línguas, e estratégias mais ou menos comuns, interlinguisticamente, que buscam preservar as informações relevantes para o funcionamento das gramáticas particulares.

Com relação à consoante pós-vocálica da língua Latundê, este estudo apresenta suas realizações alofônicas em coda de sílaba e o efeito de sua contiguidade à vogal oral que ocupa o núcleo da sílaba. Nesse contexto, a blindagem emerge como um recurso importante para preservar o contraste entre as vogais orais/nasais da língua. Sobre a existência de uma consoante pós-vocálica nasal no PB, adota-se a interpretação da estrutura bifonêmica, originalmente proposta por Câmara Jr. (1970) e assumida por vários pesquisadores que utilizam uma abordagem fonológica para a explicação da nasalidade contrastiva da língua. No PB, embora haja um contraste entre consoantes não sonorantes orais e nasais e o contraste de superfície entre vogais orais e nasais, sendo estes requerimentos para a blindagem, o fenômeno não é operante, conforme pontuam Wetzels e Nevins (2018: 835).

O trabalho segue estruturado da seguinte forma: Na seção 2 serão apresentadas interpretações sobre a consoante nasal pós-vocálica no Latundê e como sua presença provoca a blindagem da vogal oral tautossilábica, a fim de garantir o contraste nasal entre as vogais; na seção 3 será visitada a consoante nasal em coda na língua PB, a partir de estudos que interpretam a fenômeno considerando a existência da subjacência VN, e na seção 4 serão sumarizados aspectos sobre a nasal pós-vocálica nas duas línguas.

2. A consoante nasal pós-vocálica em Latundê

Na língua Latundê (ramo Nambikwára do Norte, família linguística Nambikwára) a posição da coda silábica pode ser preenchida por uma consoante nasal, sem ponto previsível. A língua tem duas nasais contrastivas, a labial /m/ e a coronal /n/, que ocorrem no onset silábico. Outro contraste relevante para a organização da nasalidade na língua é aquele existente entre as consoantes homorgânicas entre si /p, m/ e /t, n/. Além desses constrastes observados entre consoantes nasais e entre consoantes nasais e orais, a língua Latundê também contrasta vogais orais e nasais, na posição do acento, em contexto de consoante nasal tautossilábica. Em sílaba átona, o contraste nasal em vogais é neutralizado.

A consoante nasal em Latundê, na posição de coda, em sílaba acentuada, não afeta a vogal precedente, a qual preserva sua subjacência contrastiva oral ou nasal. Abaixo pode-se observar o contraste vocálico em contexto de consoante nasal tautossilábico.

  • 01.a (ˈnã̰n.de) /nã̰N.te/ “folha”

  • 01.b (ˈna̰n.de) /nN.te/ “folha”

  • 02.a (ˈkũn.de) /kN.te/ “ timbó”

  • 02.b (ˈkṵn.de) /kN.te/ “algodão”

Num contexto muito específico, a consoante pós-vocálica participa de processo assimilatório. A nasal em coda de sílaba acentuada apresenta uma alofonia que depende da estrutura da rima e da qualidade vocálica. Se a vogal nuclear formar um ditongo decrescente com uma semivogal labial, a nasal na coda realiza-se preferencialmente (m), como em 03 e 04.

Com menor frequência, a consoante nasal pode não ser realizada, deixando o seu traço de nasalidade no glide que a precede, como a segunda variante em 04:

  • 03 (ˈiwm.de) /iuN.te/ “larva, espécie de”

  • 04 (taˈlawm.ˌdãna) ~ (toˈlaw̃.ˌnã.na) /talauN.tan.ta/ “está grosso”

  • Quando a vogal nuclear é nasal, a consoante nasal poderá sofrer coalescência com a fase labial do ditongo, resultando na realização (m):

  • 05 (ˈjãw̃m.de) ~ (ˈjãm.de) /iãuN.te/ “espécie de larva”

  • 06 (toʔ.kõw̃m.ˌdãn) ~ (toʔ.kõm.ˌdãn) /toʔ.kõuN.tan/ “ele misturou (algo)”

  • 07 (a̰wm.dãn) ~ (a̰m.dãn) /a̰uN.tan/ “assar nas cinzas da fogueira”

Se o ditongo decrescente finalizar com a qualidade palatal, a nasal em coda terá a realização coronal. Nesse contexto, a nasal pode se realizar plenamente ou, ao desaparecer, pode deixar sua nasalidade no glide palatal que a precede, assim como ocorre com o ditongo labial:

  • 08 (ˈnajn.de) ~ (ˈna.de) /naiN.te/ “pacu”

A consoante em onset da sílaba seguinte, quando for a oclusiva alveolar /t/, é categoricamente sonorizada, conforme pode-se verificar nos dados em 08.

Se a vogal nuclear não formar ditongo, a realização da consoante nasal será (n), independentemente da qualidade da vogal nuclear. A assimilação da nasal é oriunda do glide e não da qualidade da vogal núcleo da sílaba. Confirma-se essa predição frente ao comportamento da coda nasal seguindo as vogais labiais /o, u/ e /i, e/. Nesse contexto, a realização labial da nasal (*(m)) não ocorre, corroborando a interpretação do condicionamento da nasal labial à subjacência de ditongo labial:

  • 09 (ˈdun.de), *(ˈdum.de) /ˈtuN.te/ “cotia”

  • 10 (ˈlon.de), * (ˈlom.de) /loN.te/ “capivara”

Uma variação alofônica frequente da nasal é a oclusiva glotal ((ʔ)), a exemplo do dado em 11.

  • 11 (ˈaʔ.de) ~ (ˈan.de) /aN.te / “tatu galinha, espécie de tatu”

Com realização marginal, portanto menos frequente, observou-se o glide labial estritamente fonético ((w)), como se vê em 12. Nesse caso, não há ditongo fonológico, de forma que a consoante nasal em coda não se realiza labial.

  • 12 (ˈkow n.de) ~ (ˈkon.de) /koN.de/ “jabuti”

A oralização total da nasal foi registrada diante de vogais orais labiais e coronais, como se vê nos dados abaixo, de (13 a 15).

  • 13 (ˈkṵd.ˌdã.na) ~ (ˈkṵn.ˌdã.na) /kṵN.ˌta.na) / “ele está fumando”

  • 14 (ˈod ˈwḭ-ɾa-ɾa) ~ (on ˈwḭ-ɾa-ɾa) /oN wḭ-ta-ta/ “não tenho vontade de comer”

  • 15 (ˈlid.nu.ɾe) /liN.nu.te/ “beiju de mandioca”

Em 13 e 14 ocorre a oralização da nasal em coda como processo alofônico. Já em 15 ela decorre da dissimilação pela contiguidade da nasal na sílaba seguinte. Nesse caso, o processo também envolve condicionamento prosódico.

Além dos fenômenos apresentados acima, e ainda no contexto em que o núcleo é uma vogal oral, a nasal pós-vocálica é opcionalmente pré-oralizada, conforme os primeiros dados em 16 e 17.

  • 16 (ˈsi d n.dãn) ~ (ˈsid.dãn) ~ (ˈsi:n.dãn)

  • /siN.tan/ “está fumaçando”

  • 17 (ˈlawb m ˈda̰-ɾãna) ~ (ˈlawm ˈda̰-ɾãna) ~ (ˈlawb ˈda̰.ɾã.na)

  • /lawN ta̰-tana/ “está chovendo”

Em Latundê, a pré-oralização da coda varia com a realização nasal do segmento ou com sua total desnasalização (realização oral). O fenômeno é sobretudo encontrado na fala dos falantes adultos e apresenta baixíssima frequência na produção dos mais jovens.

Em Lakondê (Telles 2002), Mamaindê (Eberhard 2009) e Negarotê (Braga 2017), línguas irmãs do Latundê, a pré-oralização da coda nasal é mais frequente e apresenta mais larga distribuição. Nessas línguas, excetuando-se o Mamaindê (Eberhard 2009), a pré-oralização é restrita à sílaba acentuada, assim como ocorre no Latundê.

A pré-oralização em línguas Nambikwára é um fenômeno que ocorre na dependência da presença de uma coda subjacente nasal. Nesse sentido, a variante pré-oralizada da nasal não ocorre em contexto intervocálico.

Considerando também a restrição do fenômeno à posição de coda, Eberhard (2011: 04) chama atenção para o fato de que nessas línguas as consoantes nasais pós-oralizadas, como aquelas encontradas em outras línguas indígenas brasileiras, não existem:

In the Nambikwara languages, biphasic oral/nasal segments are the result of oralization, being output variants of simple nasals. These languages also limit the oralization of nasal stops to the coda position, and thus only the pre-oralized nasals are present. Post-oralized nasals, such as those found in Kaingang and Maxacali, are not a Nambikwara phenomenon, these being more characteristic of Macro-Je languages (See Wetzels 2009). (Eberhard 2011: 04).

Como se observa, a pré-oralização nas línguas Nambikwára ocorre em coda nasal de sílaba cujo núcleo vocálico é oral. A necessidade de otimizar a saliência oral da vogal diante de coda nasal, preservando o contraste entre vogal oral e nasal na língua, engatilha o processo de pré-oralização, especialmente no contexto do acento, no caso do Latundê, Lakondê e Negarotê.

A blindagem de um segmento é considerada como um tipo de “enhancement”, ou seja, um “aprimoramento”, em que ocorre um “recrutamento de um traço não contrastivo” (Keyser e Stevens 2006: 33, apud Wetzels e Nevins 2018: 01), motivado pela necessidade de se preservar um dado contraste na língua. Segmentos de contorno nasal podem advir exatamente de um “aprimoramento” por blindagem da vogal oral, em línguas que apresentam o contraste fonológico entre vogais orais e nasais.

Latundê e Lakondê (Telles 2002) apresentam o mesmo fenômeno exemplificado por Wetzels e Nevins (2018: 03-04) para línguas Nambikwara, em que o desencadeamento de blindagens é observado localmente para preservar o contraste relevante entre vogais orais e nasais:

Consider, moreover, the Northern Nambikwara language Negarotê (Braga 2017), where vocalic nasality is contrastive in stressed syllables only. In stressed syllables with an oral nucleus, preoralization of a nasal consonant in the coda is optional, but very frequent: ((C)Vbm) ~ ((C)Vm). When preoralization does not happen, the oral vowel is still not nasalized. Stressed vowels cannot be nasalized by following nasal consonants, rendering shielding in principle unnecessary. Vowels in un- stressed open syllables, however, are optionally nasalized when followed by a hetero- syllabic nasal onset, while those followed by a tautosyllabic nasal coda are always nasalized. This means that nasality is not contrastive in unsighboring vowel when potentially contrastive. Compare, furthermore, Mamaindê, which also belongs to the Northern Nambikwara dialect group and is different from Negarotê in a way that confirms that contrastivity is locally defined for the sake of predicting the occurrence of shielding consonants. Nasality in Mamaindê is contrastive in both stressed and unstressed syllables alike (Eberhard 2009: 97), and preoralized shielding consequently applies obligatorily not only in stressed but also in unstressed syllables (e.g. (ˈʔaiː.heɡŋ.soʔ) ‘to always go’; Eberhard 2009:233). (Wetzels e Nevins 2018: 03-04).

Um aspecto particular do Latundê diz respeito ao fato de a blindagem da vogal oral não ocorrer apenas por meio da pré-oralização, como em (18). Nessa língua, a preservação da vogal oral se dá também através da oralização plena da nasal (20), do apagamento da nasal mediante a realização da variante oclusiva glotal (ʔ) (primeiro dado em 19) e de um aparente alongamento da vogal nuclear oral seguida pela nasal em coda (segunda variante em 19 e 20).

  • 18 (ˈawbm.de) ~ (ˈawmdḛ) /auN.te/ “papagaio”

  • 19 (ˈa̰ʔ.de) ~ (ˈa̰:n.de) /a̰N.te / “maribondo”

  • 20 (ˈkṵd.ˌdã.na) ~ (ˈkṵ:n.ˌdã.na) /kṵN.ˌta.na) / “ele está fumando”

Dentre todas as possibilidades que favorecem a blindagem do núcleo vocálico oral, o aparente alongamento da vogal seguido de uma realização da nasal ( (ˈa̰:n.de) ), identificado de forma impressionista (Telles 2002), corresponde à produção mais frequente entre os falantes Latundê.

A verificação acústica dessa realização, entretanto, revela que não há efetivamente tempo maior na vogal oral. A comparação sistemática de palavras com sílabas acentuadas em que há vogal oral ou nasal ((C)VN e (C)ṼN)), por meio do programa PRAAT (praat6046_mac64.dmg), evidenciou que a diferença não reside no alongamento da vogal oral, conforme o interpretado inicialmente. O que se observou, porém, foi uma diminuição categórica da energia acústica na transição do núcleo silábico oral para a coda nasal. O tempo da transição é muito breve, 0.013ms em média, mas suficiente para evitar a contaminação da nasal e equivalente à fase oral em contornos nasais ((dn)). Quando a vogal do núcleo é nasal, não é necessária a blindagem da vogal. Nesse caso, o volume da energia da vogal nasal se junta sem interrupção à energia da soância da consoante nasal em coda, não havendo demarcação de fronteira ou fase oral audível entre o núcleo vocálico e a sua borda nasal. Nas figuras 1 e 2, abaixo, observam-se palavras com vogal oral e nasal, respectivamente.

Figura 1: Vogal oral seguida de consoante nasal tautossilábica 

Figura 2: Vogal nasal seguida de consoante nasal tautossilábica 

Na figura 1, a vogal (u) mede 0.082ms e, na figura 2, a vogal nasal (ĩ) tem o tempo de 0.106ms. Por se encontrarem em sílaba acentuada, as duas vogais são mais longas do que as demais vogais presentes nas palavras. Entretanto, se comparadas entre si, elas não apresentam diferença significativa quanto à duração. Em ambas as palavras, a nasal em coda ocorre com tempo compatível a de um segmento pleno e conta mora para a atribuição do acento na língua. Esse teste parece confirmar que apesar de não existir a produção pré-oralizada da nasal em coda, a blindagem é operante.

3. A nasal pós-vocálica no português do Brasil (PB)

No PB, a fonte dos fenômenos que envolvem nasalização vocálica tem como gatilho consoantes nasais adjacentes. De acordo com Câmara Jr. (1970), a língua não apresenta, em seu inventário vocálico, vogais nasais fonológicas. As vogais nasalizadas decorrem de assimilação da consoante nasal seguinte.

Moraes e Wetzels (1992: 154) consideram que a nasalização no PB envolve processos independentes, provenientes de diferentes regras, sendo uma alofônica e outra categórica.

A nasalidade alofônica decorre de regra variável, sensível ao acento e com diferença dialetal e não cria um contraste superficial. As vogais em sílabas abertas sofrem opcionalmente a assimilação de consoante nasal em onset de sílaba seguinte.

  • 21 c(ã)neta ~ caneta

  • 22 z(õ)na ~ zona

  • 23 g(ẽ)ma ~ gema

O segundo caso diz respeito à nasalização fonológica da vogal. A consoante que a segue é um arquifonema nasal, que não se realiza como segmento pleno e empresta sua nasalidade para a vogal precedente. Nesse caso, ocorre o contraste de superfície, caracterizando uma função distintiva da nasalidade, conforme o proposto por Câmara Jr. (1970) e considerado por Wetzels (1997), a partir de uma análise na perspectiva da fonologia autossegmental. A nasalidade contrastiva é um fenômeno categórico em todos os dialetos do português falado no Brasil (Abaurre e Pagotto, 2002).

Exemplos do contraste podem ser vistos a seguir:

  • 24 manta : mata

  • 25 vento : veto

  • 26 conta : cota

Em estudos sobre o PB, a nasalidade categórica, em perspectiva fonológica, vem seguindo em geral a interpretação bifonêmica de Câmara Jr., segunda a qual uma consoante nasal segue a vogal tautossilábica nasalizada (Wetzels 1997; Abaurre e Pagotto 2002; Bisol 1998).

Moraes e Wetzels (1992: 164), pautando-se na fonologia experimental, fornecem uma discussão robusta que captura a natureza complexa do fenômeno da nasalidade, avaliando a pertinência da subjacência VN.

Ao final, os autores adotam a escolha da hipótese bifonêmica, associando aos achados acústicos às seguintes evidências fonológicas:

“a) a impossibilidade de termos (r) brando após vogal nasal,

b) impossibilidade de termos proparoxítonas com a penúltima sílaba contendo vogal nasal, o que indica tratar-se de sílaba pesada”.

4. Considerações Finais

Este trabalho considerou a existência da nasal pós-vocálica com ponto não especificado, em duas línguas não relacionadas (Latundê e PB), enquanto propriedade tipológica, a fim de observar a realização da consoante e o seu papel em fenômenos que envolvem nasalidade nas duas línguas.

No Latundê, foram descritos os processos variáveis que ocorrem com a coda nasal e sua implicação no comportamento da vogal precedente. Com relação ao PB, considerou-se a hipótese bifonêmica para o contraste nasal, proposta por Câmara Jr. (1970) e corroborada por Moraes e Wetzels (1992).

Quanto às variações alofônicas da coda nasal, a língua indígena superficializa essa consoante como (m), (n), (d) e (ʔ). A nasal pós-vocálica não nasaliza a vogal oral do núcleo da sílaba da qual faz parte. Tanto em línguas irmãs do Latundê como em outras línguas sul-americanas não aparentadas, nas quais há o contraste vocálico (oral/nasal) e o contraste nasal entre não soantes, a preservação da vogal de uma potencial contaminação da nasal em coda, a fim de manter do contraste vocálico, se dá através do processo de blindagem da vogal oral. A estratégia conhecida para implementar a proteção vocálica é o contorno nasal, que nas línguas da família Nambikwara, em razão do contexto da consoante nasal, ocorre pela pré-oralização.

Em particular, o achado sobre o fenômeno na língua Latundê evidenciou outros processos que favorecem a blindagem da vogal, impedindo, assim, a contaminação nasal: as alofonias (d), (ʔ) para a consoante nasal pós-vocálica e, marcadamente, a realização da consoante nasal com diminuição da energia acústica entre a transição da vogal oral e da nasal plenamente realizada na coda da sílaba. Esse fenômeno não ocorre quando o núcleo silábico é nasal.

Sobre a materialização acústica desse fenômeno, ressalta-se que, em termos da percepção, poder-se-ia pensar na existência de uma vogal alongada neste contexto, a qual, efetivamente, não se comprova.

A diminuição da energia acústica, da qual não se percebe um desvozeamento ou um ponto supraglotal, é o que distancia a vogal oral da nasal seguinte. Esse fato põe em destaque o entendimento de que impressões perceptuais não são em si mesmas necessariamente suficientes para as interpretações fonológicas.

No PB, a coda nasal não é realizada per si, de forma que variações alofônicas da nasal na estrutura VN não são encontradas.

Por outro lado, diante da organização da nasalidade da língua, é exatamente através da existência da consoante nasal pós-vocálica, numa estrutura bifonêmica, que se dá o contraste fonológico como entre (ˈpõte)/(ˈpote).

Assim, considerando que o contraste entre vogais orais e nasais não existe no léxico do PB e que contraste é oriundo de regra derivada e categórica, na qual a vogal é nasalizada diante de consoante nasal em coda, seria contraditória a ocorrência de um processo cuja função fosse precisamente a de promover a blindagem da vogal oral diante de nasal tautossilábica.

No final das contas, a nasalidade contrastiva superficial realizada nas vogais é a manifestaçao fonética de um outro contraste que lexicalmente se faz entre a presença ou a ausência de uma consoante nasal na coda.

Referências Bibliográficas

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Nota: O artigo foi totalmente concebido e escrito pela autora

1O Latundê, ramo Nambikwara do Norte, é uma língua cuja comunidade de fala permaneceu sem contato com a sociedade ocidental até fins da década de 70 do século passado. No primeiro contato, em 1976, o grupo não chegava a 30 pessoas. Atualmente, o grupo remanescente permanece muito pequeno, com uma população de menos de trinta pessoas, sendo que os falantes fluentes da língua ancestral não alcançam o número de 15 indivíduos.

Recebido: 30 de Novembro de 2018; Aceito: 16 de Março de 2019

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