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Lingüística

On-line version ISSN 2079-312X

Lingüística vol.35 no.1 Montevideo June 2019  Epub June 01, 2019

https://doi.org/10.5935/2079-312x.20190005 

ARTÍCULOS

O PORTUGUÊS DOS SÉCULOS XV E XVI E O ESPANHOL ATUAL: SEMELHANÇAS ENVOLVENDO AS VOGAIS MÉDIAS DA SÍLABA ACENTUADA

PORTUGUESE FROM 15th AND 16th CENTURIES AND CURRENT SPANISH: SIMILARITIES INVOLVING MID VOWELS OF THE STRESSED SYLLAB

Juliana Simões Fonte1 
http://orcid.org/0000-0002-8054-0992

1Universidade Estadual Paulista. jujufonte@yahoo.com.br


Resumo:

Este artigo analisa rimas (mapeadas por Fonte 2014) do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende e de Os Lusíadas de Camões que fornecem pistas sobre a pronúncia das vogais médias tônicas em Portugal dos séculos XV e XVI e sugerem semelhanças entre o sistema vocálico do português de antanho e o do espanhol atual. Ao interpretar rimas dos séculos referidos entre vogais médias (acentuadas) que, no português atual, apresentam timbres vocálicos diferentes, este artigo aventa a hipótese de não haver, no português do passado, assim como não há no espanhol atual, distinção fonológica entre vogais médias abertas e fechadas. De acordo com a interpretação fornecida por este artigo, eram recorrentes, no português dos séculos XV e XVI, variações na pronúncia das vogais médias tônicas das palavras. Com o passar dos séculos, algumas dessas variações teriam resultado em mudança, dando origem a pronúncias (não-etimológicas) vigentes no português atual.

Palavras-chave: Vogais médias; Timbre vocálico; Variação; História da língua portuguesa

Abstract:

This article analyzes rhymes (mapped by Fonte 2014) from Garcia de Resende’s Cancioneiro Geral and from Camões’ Os Lusíadas, which provide clues about the pronunciation of the stressed mid vowels in Portugal of the 15th and 16th centuries and suggest similarities between the old Portuguese vowel system and the current Spanish vowel system. In interpreting the rhymes of the mentioned centuries between (stressed) mid vowels that in current Portuguese present different timbres, this article offers the hypothesis of there is no, in old Portuguese, as there is no incurrent Spanish, phonological distinction between open and closed mid vowels. According to the interpretation provided by this article, variations in the pronunciation of the stressed mid vowels were usual in Portuguese of the 15th and 16th centuries. Over the centuries, some of these variations resulted in change, giving rise to some of the (non-etymological) pronunciations of current Portuguese.

Keywords: Mid Vowels; Timbre differences; Variation; History of Portuguese

1. Introdução

O objetivo deste trabalho é apresentar e discutir dados dos séculos XV e XVI que sugerem semelhanças entre o português antigo e o espanhol atual, no que diz respeito, especificamente, às vogais médias da sílaba tônica.

Fonte (2010a, b, 2014), por meio da análise da grafia e das rimas empregadas em textos poéticos remanescentes dos séculos XIII (Cantigas de Santa Maria de Afonso X), XV (Cancioneiro Geral de Garcia de Resende) e XVI (Os Lusíadas de Camões), obteve pistas significativas a respeito do sistema vocálico (vogais tônicas, pretônicas e postônicas) desses momentos passados da língua, que não deixaram registros orais.

No que tange às vogais tônicas, alguns dos dados apresentados pela autora, no referido estudo, indicam que, no sistema vocálico do galego-português (século XIII), a distinção de timbre entre as vogais médias era, muito provavelmente, fonológica (como é, ainda hoje, no português), ao passo que, no português médio (século XV) e no português moderno (século XVI), em virtude de uma intensa variação entre vogais médias abertas e fechadas, na posição tônica, a oposição distintiva não ocorreria.1 Para Fonte (2014), esses dados podem estar revelando que a língua portuguesa, no passado, esteve a um passo de adquirir uma fonologia semelhante à do espanhol, em que a distinção de timbre, entre as vogais médias, não é fonológica:

Não se pode desprezar, nesse caso, o fato de que os falantes de português tinham um contato frequente com a língua castelhana, na época. O próprio CG (Cancioneiro Geral) traz composições castelhanas em meio às portuguesas, que representam a grande maioria, na obra. (Fonte 2014: 158)

É importante observar que a escolha de um corpus integralmente poético foi fundamental para que a autora chegasse a essa constatação referente à possível pronúncia das vogais médias desses séculos passados que, conforme já mencionado, não deixaram qualquer registro oral.

Isso porque, como o sistema de escrita do português antigo (como o atual) dispunha de apenas dois símbolos (<e,o>) para representar os fonemas referentes às vogais médias da língua, ou seja, como a escrita não atribui símbolos distintos para representar vogais médias abertas (/ε,ɔ/) e fechadas (/e,o/), torna-se indispensável, na pesquisa dedicada às vogais médias (tônicas) de períodos remotos da língua, a consulta às rimas empregadas na poesia de então, já que as possibilidades e impossibilidades de rima entre vogais médias (da sílaba acentuada) representadas por grafemas idênticos podem revelar informações sobre a diferença de timbre (aberto e fechado) entre os fonemas do passado.

A possibilidade de rima entre terminações idênticas, por exemplo, sugere a ocorrência de fonemas também idênticos nessas terminações (ex.: maior e amor rimam entre si, na poesia antiga, sugerindo que o grafema <o> representava, nesses vocábulos, um mesmo fonema: /o/, ao que tudo indica).

Já a impossibilidade de rima entre vogais representadas por grafemas idênticos evidencia uma diferença na pronúncia das terminações (ex.: eu e morreu jamais rimam entre si, na poesia medieval, sugerindo que o grafema <e>, no português de então, representava fonemas diferentes em cada um desses vocábulos: /ɛ/ e /e/, em /ɛ/u e morr/e/u, muito provavelmente).

Com relação às obras poéticas adotadas para compor o corpus da pesquisa, pode-se dizer que são representativas de diferentes fases da história da língua portuguesa (cf. Castro 2008). As Cantigas de Santa Maria (CSM), de Afonso X, o rei Sábio de Leão e Castela, foram escritas em galego-português, na segunda metade do século XIII, e constituem um testemunho importante da primeira fase (a trovadoresca) do português arcaico (PA).

Já o Cancioneiro Geral (CG), de Garcia de Resende, que foi publicado pela primeira vez em 1516, reúne poemas escritos ao longo do século XV e início do XVI, por cerca de 300 poetas (cf. Pimpão 1942), e representa, no corpus de Fonte (2014), a segunda fase do PA (também conhecida como português médio), período em que teria ocorrido a separação entre o falar galego, particular ao extremo norte da Península Ibérica (Galícia), e o falar português propriamente dito.

Por fim, a obra épica de Camões, Os Lusíadas (1572), composta por 10 cantos e 1102 estrofes, pode ser considerada uma representante genuína do português moderno, não apenas por figurar como o ícone do Renascentismo em Portugal, mas também (e sobretudo!) pelo seu papel decisivo na história da língua portuguesa, exercendo influência significativa na caracterização do português padrão, inclusive no que diz respeito à criação de nossa ortografia (cf. Souza 2009).

Nas seções a seguir, estão apresentados os dados coletados por Fonte (2010a, b, 2014) a partir da observação das rimas empregadas nessas três obras poéticas.2 Cabe observar que algumas das interpretações propostas pela autora, nesses estudos precedentes, foram revistas e aprofundadas, nas discussões deste trabalho.

2. As vogais médias nas rimas das Cantigas de Santa Maria

Para as vogais médias do século XIII, Fonte (2010a, b) mostra que as rimas das CSM atestam a ocorrência de quatro fonemas (/e, ɛ, o, ɔ/), em posição tônica, no sistema vocálico do galego-português. Ao investigar as possibilidades e impossibilidades de rima, nas cantigas medievais religiosas, entre vogais médias representadas por grafemas idênticos, a autora verificou que algumas das terminações mapeadas podiam, claramente, ser divididas em dois grupos rimantes (ex.: verbos de segunda conjugação no infinitivo, tais como viver, morrer, vencer etc., rimam entre si, nas cantigas afonsinas, mas jamais aparecem rimando com formas verbais irregulares como quiser e disser, por exemplo).

Sabendo que as rimas das CSM são todas soantes,3 Fonte (2010a, b) interpretou esses dados como um indício de que havia, em cada terminação, grafemas idênticos representando fonemas distintos (ex.: /e/, em morrer, e /ɛ/, em quiser - exatamente como no português atual). Dito de outro modo, para a autora, esses resultados evidenciam a distinção de timbre entre as vogais médias do galego-português, na sílaba acentuada, e insinuam uma semelhança entre o sistema vocálico do século XIII e o quadro fonológico atual, pelo menos no que diz respeito às vogais médias (tônicas) da língua.

Por outro lado, os dados de Fonte (2010a, b) também sugerem uma pronúncia diferente da atual para a vogal média de alguns vocábulos do galego-português (ex.: inveja, ela, aquela, essa, promessa, fogo, jogo, gloriosa, maior , melhor etc.). Ao consultar a origem histórica da vogal média de cada um desses itens lexicais, Fonte (2010a, b) constatou que o timbre da vogal tônica, na pronúncia atual, não corresponde, nesses casos específicos, à quantidade do étimo latino.

Em outras palavras, sabendo que as vogais médias breves do latim clássico originaram, no português, vogais médias abertas (ex.: pĕtra->p/ɛ/dra, lŏcu->l/ɔ/go), na sílaba tônica, e que vogais médias longas e altas breves do latim clássico deram origem a vogais médias fechadas (ex.: bēstia->b/e/sta, vĭride>verde, tōtu->t/o/do, tŭrre>torre),4 a autora concluiu, a partir de rimas como enveja/seja/deseja (CSM 241), prende-la/ela (CSM 369), daquela/vence-la/move-la (CSM 305), essa/abadessa/condessa/promessa (CSM 195), logo/jogo (CSM 422), groriosa/esposa/preciosa (CSM 340), mayor/mellor/Sennor (CSM 70), entre outras, que, no século XIII, a pronúncia da vogal tônica (pelo menos no caso desses vocábulos) ainda correspondia ao timbre herdado da vogal etimológica (ex.: invĭdia>env/e/ja, ĭlla>/e/la, eccu ĭlla>aqu/e/la, ĭpsa>/e/ssa, promĭssa>prom/e/ssa, jŏcu>j/ɔ/go, gloriōsa>glorio/o/sa, maiōre>mai/o/r etc.).5

É importante observar, a propósito, que estudos anteriores já haviam considerado a hipótese de a vogal tônica de alguns desses vocábulos ter apresentado um timbre diferente do atual, no português antigo (cf. Williams (1938) 1975; Silva Neto 1952; Nunes 1960; Coutinho 1974; Ramos 1985; Cunha 1985, 1991). Os dados de Fonte (2010a, b) confirmam, pois, essa proposição dos estudos precedentes e propõem que, no decorrer da história da língua, houve uma mudança linguística que originou o timbre vocálico atual.

De acordo com Fonte (2014), essa mudança linguística teve origem, muito provavelmente, em variações fonéticas vigentes nos séculos XV e XVI, entre vogais médias abertas e fechadas. A autora chegou a essa conclusão ao identificar, nos versos do CG e de Os Lusíadas, um número considerável de rimas entre vogais médias abertas e fechadas (segundo os padrões atuais) que, ao contrário do que fora observado para os dados do século XIII, não podem ser justificadas a partir da origem histórica da vogal tônica envolvida. Vejamos, nos itens a seguir, as rimas entre vogais médias abertas e fechadas identificadas por Fonte (2014) nos corpora referentes ao português médio e ao português moderno, respectivamente.

3. As vogais médias nas rimas do Cancioneiro Geral

Após um século e meio de lírica trovadoresca, a poesia desapareceu dos registros portugueses até o século XVI, quando Garcia de Resende decidiu reunir, em seu Cancioneiro Geral, publicado pela primeira vez em 1516, os textos poéticos produzidos ao longo do século XV e início do século XVI.

Com o propósito de acompanhar o percurso das vogais médias do português, ao longo dos séculos, e de investigar se a vogal tônica das palavras citadas na seção anterior ainda era pronunciada com um timbre diferente do atual, na segunda fase do período arcaico - momento em que já teria ocorrido a separação entre os falares galego e português -, Fonte (2014) fez um levantamento de todas as rimas do Cancioneiro Geral envolvendo vogal média na sílaba tônica. Como não há rimário da coletânea de Resende, foi preciso que a autora mapeasse as rimas diretamente da obra poética, a partir da edição de Dias (1990-1993), publicada em quatro volumes.

Ao analisar os dados levantados, Fonte (2014) constatou que ocorrem, no Cancioneiro de Resende, muitos outros casos (para além daqueles que suscitaram a hipótese de mudança, na seção anterior) de rima entre vogais médias abertas e fechadas, segundo o parâmetro atual - inclusive entre aqueles vocábulos que, nas CSM, constituíram grupos rimantes distintos, conforme mostram os exemplos a seguir:

  • 01.Vogais médias anteriores nas rimas do CG

  • vier/morrer (nº: 134)

  • molher/escrever (nº: 142)

  • quiser/querer (nº: 238)

  • tevera/atrevera/conhecera (nº: 280)

  • vivera/tevera (nº: 333)

  • falecesse/soubesse/quisesse (nº: 281)

  • interesse/quisesse (nº: 561)

  • quisestes/perdestes (nº: 1)

  • fizestes/prendestes/perdestes/soubestes (nº: 167)

  • fizestes/perdestes (nº: 232)

  • perdestes/fizestes (nº: 817)

  • fe/mercê (nº: 394)

  • quê/fe/é (nº: 566)

  • peça/esqueça/empeça (nº: 597)

  • peço/mereço (nº: 501)

  • mereço/empeço/peço (nº: 566)

  • queda/seda (nº: 32, 504, 619)

  • arreda/leda (nº: 57, 82)

  • Raboreda/moeda/azeda/queda/vereda (nº: 71)

  • leda/queeda (nº: 104)

  • seda/moeda/queda (nº: 618)

  • leda/queda (nº: 668)

  • leda/moeda (nº: 869)

  • moedas/azedas (nº: 57)

  • entrega/chega (nº: 57)

  • negra/regra (nº 142)

  • enveja/sobeja (nº: 394)

  • deseja/enveja (nº: 574)

  • inveja/veja (nº: 618)

  • dela/sofrê-la (nº: 22)

  • querela/dizê-la (nº: 119)

  • vê-la/ela (nº: 251)

  • perdê-la/ela (nº: 251)

  • ela/dela/esquecê-la (nº: 308)

  • perdê-la/nela (nº: 333)

  • naquela/vê-la/nela (nº: 360)

  • dela/perdê-la/ela (nº: 376)

  • entendê-la/nela (nº: 453)

  • perdê-la/nela (nº: 571)

  • ela/perdê-la (nº: 579)

  • ela/conhecê-la/vê-la (nº: 582)

  • sofrê-la/ela (nº: 608)

  • perdê-la/querela (nº: 608)

  • perdê-la/ela (nº: 608)

  • dela/ela/vê-la (nº: 611)

  • vencê-la/ela (nº: 711)

  • ela/mazela/conhecê-la (nº: 725)

  • perdê-la/nela (nº: 814)

  • perdê-la/dela (nº: 816)

  • dizê-las/querelas (nº: 345)

  • delas/estrelas (nº: 361)

  • elas/conhecê-las (nº: 519)

  • estrelas/elas/querelas (nº: 832)

  • ele/pele (nº: 183)

  • pele/querele/ele (nº: 611)

  • velhas/ovelhas (nº: 623)

  • velho/conselho (nº: 595)

  • conselho/velho (nº: 615, 711, 803, 836, 880)

  • Arelho/conselho/coelho/vermelho/velho (nº: 802)

  • velho/artelho (nº: 838)

  • velho/coelho (nº: 865)

  • elo/perdê-lo (nº: 35)

  • capelo/selo/amarelo (nº: 480)

  • espero/desespero/quero (nº: 728)

  • desconcerto/descuberto (nº: 264)

  • certo/perto/concerto/incerto (nº: 333)

  • portugues/reves (nº: 169)

  • pesa/despesa (nº: 87, 519)

  • mesa/pesa (nº: 88)

  • Princesa/pesa (nº: 216)

  • defesa/pesa (nº: 249)

  • pesa/mesa/defesa/acesa (nº: 280)

  • pesa/empresa (nº: 613)

  • defesa/pesa/despesa (nº: 626)

  • pesa/defesa (nº: 803, 814)

  • Quaresma/mesma (nº: 805)

  • pressa/avessa (nº: 1)

  • processo/avesso (nº: 1)

  • Valdevesso/atravesso/avesso (nº: 618)

  • fresta/besta (nº: 611)

  • festa/besta (nº: 611)

  • poetas/netas/planetas/profetas (nº: 367)

  • reto/prometo/carreto (nº: 535)

  • deve/teve (nº: 20, 86, 561, 611)

  • teve/deve (nº: 62, 569)

  • reteve/deve (nº: 62)

  • fez/Fez (nº: 618)

  • vez/Fez (nº: 836)

  • tristeza/despreza (nº: 333)

  • Alteza/tristeza/largueza/reza (nº: 367)

  • vileza/lindeza/preza/fortaleza (nº: 445)

  • natureza/nobreza/graveza/despreza/rudeza (nº: 475)

  • preza/firmeza/gentileza (nº: 574)

  • gentileza/despreza (nº: 583)

  • despreza/Alteza (nº: 598)

  • preza/Alteza (nº: 598)

  • 02.Vogais médias posteriores nas rimas do CG

  • toca/boca (nº: 453)

  • modo/todo (nº: 588)

  • modos/todos (nº: 615)

  • fogo/logo (nº: 1)

  • logo/fogo (nº: 57, 102)

  • logo/rogo/fogo (nº: 87)

  • logo/jogo/fogo (nº: 183)

  • autor/maior/amador (nº: 1)

  • derredor/honor/emperador (nº: 1)

  • melhor/maior/Senhor (nº: 86)

  • dor/pior (nº: 103)

  • servidor/milhor (nº: 169)

  • cor/derredor/valor (nº: 457)

  • favor/pior (nº: 535)

  • redor/Senhor (nº: 711)

  • derredor/temor/Senhor (nº: 861)

  • maiores/valores/vencedores (nº: 1)

  • melhores/amores (nº: 31)

  • maiores/amores (nº: 119)

  • esforça/força (nº: 753)

  • socorre/torre (nº: 437)

  • mortos/tortos/portos/abortos (nº: 439)

  • renovo/novo (nº: 1)

Os exemplos apresentados em (01) e (02) mostram a ocorrência, na coletânea de Resende, dos diversos casos de rima entre palavras que, no português atual, apresentam fonemas vocálicos diferentes, na sílaba tônica. Poderíamos pensar, a partir desses dados, que as rimas do CG, assim como as rimas das CSM, estão indicando casos de mudança de timbre vocálico ao longo da história da língua portuguesa. O problema dessa conjetura, contudo, é que, ao contrário do que observou Fonte (2010a, b), em seus dados do século XIII, a etimologia não explica todas essas possibilidades de rima registradas na obra de Resende.

Entre os dados arrolados em (01) e (02), merece destaque o caso da rima Arelho/conselho/coelho/vermelho/velho. A vogal tônica do substantivo velho (lat. vĕtulus) é proveniente de ĕ do latim clássico, que originou, no português, vogais médias abertas (/ε/). Em contrapartida, a vogal tônica dos demais termos que compõem o grupo rimante - conselho (lat. consĭlium), coelho (lat. cunīculus) e vermelho (lat. vermĭculus) - provém de uma vogal alta (breve ou longa) do latim clássico, que originou, no português, vogais médias fechadas (/e/), na posição acentuada. Outra rima do CG que não pode ser justificada a partir da origem da vogal média tônica, no latim clássico, é aquela constituída dos vocábulos modo (lat. mŏdus) e todo (lat. tōtus).

Dados como esses podem conduzir, de imediato, à interpretação de que o CG, ao contrário da coletânea afonsina, dispõe de rimas imperfeitas. Cunha (1985, 1991), por exemplo, afirma que era comum, na poesia portuguesa do século XV (após Gil Vicente, na verdade), rima entre vogal média aberta e fechada.

Fonte (2014), todavia, considera precipitada essa interpretação e propõe uma nova abordagem dos dados. Fundamentada não apenas na etimologia, mas também em pronúncias atuais de outras línguas de origem românica (ex.: galego, espanhol, italiano, francês), a estudiosa traz argumentos para defender a tese de que as rimas do Cancioneiro de Resende são todas perfeitas (exatamente como as rimas das CSM). Para a autora, dizer, com base apenas em pronúncias atuais do português, que as rimas do CG são imperfeitas reduz demasiadamente o valor desse material como testemunho linguístico.

O primeiro ponto a ser considerado, de acordo com Fonte (2014), é que, embora nem todas as possibilidades de rima registradas no CG possam ser explicadas a partir da origem da vogal tônica, no latim clássico, grande parte dos casos pode ser justificada por meio da etimologia (e da hipótese de mudança).

Entre as supostas mudanças envolvendo formas nominais, por exemplo, estão, além dos vocábulos terminados em -eja, -ela, -ogo e -or, também registrados nas rimas das CSM, os dados referentes às terminações -edas, -egra, -ele, -elo, -es, -essa, -esso, -esta, -etas, -eto, -ortos e -ovo, no CG.

O fato de a vogal média tônica das palavras moeda (lat. monēta), regra (lat. rēgula), pele (lat.: pēllis), elo (lat. annēllo), revés (lat. revērsus), pressa (lat. prēssa), processo (lat. procēssus), festa (lat. fēsta), fresta (lat. fenēstra), neta (lat. nēptis), poeta (lat. poēta), profetas (lat. prophētas), reto (lat. rēctus), mortos (lat. mōrtuus), tortos (lat. tōrtus) e portos (lat. pōrtus), de acordo com as etimologias propostas por Saraiva (2006),6 resultar de uma vogal média longa do latim clássico sustenta a hipótese de esses vocábulos terem sido pronunciados, no passado, com uma vogal média fechada, na sílaba tônica, e, por conseguinte, justifica rimas como mo(e)das/az(e)das, n(e)gra/r(e)gra, (e)le/p(e)le, (e)lo/perd(e)-lo, portugu(e)s/rev(e)s, pr(e)ssa/av(e)ssa, proc(e)sso/av(e)sso, fr(e)sta/b(e)sta, f(e)sta/b(e)sta, po(e)tas/n(e)tas/plan(e)tas/prof(e)tas, r(e)to/prom(e)to/carr(e)to e m(o)rtos/t(o)rtos/ p(o)rtos/ab(o)rtos, na coletânea de Resende.

Da mesma forma, como a vogal média do substantivo novo (nŏvus) é proveniente de uma vogal breve latina, é possível explicar a rima renovo/novo considerando a hipótese de, no português antigo, esse substantivo ter apresentado uma vogal média aberta (n(ɔ)vo), na sílaba tônica.

Para esses casos, portanto, pode-se dizer que as rimas do CG indicam, como indicaram as rimas das CSM, uma mudança de timbre vocálico, na diacronia do português. Corrobora essa hipótese a informação de que alguns dos vocábulos citados nos parágrafos anteriores (moeda, poeta, profeta, novo) ainda preservam, no galego atual, o timbre correspondente à origem latina: mo(e)da, po(e)ta, prof(e)ta e n(ɔ)vo. Dados do espanhol em curso, tais como nuevo (novo), anillo (anel) e amarillo (amarelo), por exemplo, também ratificam a hipótese de as pronúncias atuais do português, para esses vocábulos, serem resultado de mudança.

No que diz respeito aos exemplos envolvendo formas verbais, a etimologia é capaz de justificar as rimas do CG terminadas em -eça, -esa, -esso, -eve, -orça e -orre. Sabemos que, no português atual, o timbre da vogal tônica de determinadas formas verbais é definido por regras fonológicas de harmonização7 e abaixamento vocálicos.

Segundo Mateus (1975, 2003), na primeira pessoa do singular do presente do indicativo e nas formas rizotônicas do presente do subjuntivo, ocorre harmonização entre a vogal média tônica e a vogal temática dos verbos, nas três conjugações (-ar, -er, -ir). De acordo com a autora, a vogal temática, antes de ser suprimida, deixa o seu traço de altura flutuante, que se liga à vogal subespecificada (o que ocorre antes da colocação do acento). Assim, na primeira conjugação, a vogal média fica aberta (l(ɛ)vo, l(ɛ)ve, m(ɔ)ro, m(ɔ)re), por influência da vogal temática a; na segunda conjugação, a vogal média é fechada ( d(e)vo, d(e)va, m(o)vo, m(o)va ), por influência da vogal temática e; e na terceira conjugação, a vogal tônica torna-se alta ( f(i)ro, f(i)ra, d(u)rmo, d(u)rma ), por influência da vogal temática i. Há, entretanto, algumas exceções a essa regra: ch(e)go, qu(ɛ)ro, p(ɛ)co e imp(ɛ)ço, por exemplo.

No que diz respeito ao abaixamento da vogal média, nas formas rizotônicas do presente do indicativo e do imperativo, Mateus (1975, 2003) explica que, nos casos em que a vogal temática não é suprimida, após a colocação do acento, a vogal média recebe o traço (+baixo) (ex.: l(ɛ)vas, m(ɔ)ras, d(ɛ)ves, m(ɔ)ves, f(ɛ)res, d(ɔ)rmes). Cabe observar que tal regra só se aplica a vogais que não apresentem o traço (+alto) (i, u). Há, contudo, exceções envolvendo a vogal posterior: f(ɔ)ge (verbo fugir ) e s(ɔ)be (verbo subir ), por exemplo.

Voltando ao caso das rimas anteriormente mencionadas, envolvendo formas verbais terminadas em -esa, -esso, -eve, -eça, -orça e -orre, os exemplos arrolados em (01) e (02) mostram que, no CG: i. a forma verbal pesa, pronunciada, no português atual, com vogal média aberta (em virtude da regra de abaixamento), rima com formas nominais que apresentam uma vogal média fechada, nos falares brasileiros e portugueses em curso: defesa (lat. defēnsa), despesa (lat. dispēnsa), empresa (it. impresa < lat. imprehēnsus), mesa (lat. mēnsa); ii. a forma verbal atravesso, cuja vogal média tônica é aberta, no português atual, em função da regra de harmonização com a vogal temática da primeira conjugação, rima com avesso (do lat. advērsus, para Saraiva 2006, mas do lat. advĕrsus, para Cunha 2010) e Valdevesso, ambos pronunciados, no português em curso, com vogal média fechada, na sílaba tônica; iii. a forma verbal deve, também pronunciada com vogal média aberta, no português de hoje (também devido à regra de abaixamento), rima com os verbos (irregulares) ter e reter, flexionados na terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo (teve e reteve), cujas pronúncias, no português atual, manifestam uma vogal média fechada, na sílaba tônica; iv. a forma verbal esqueça, cujo timbre da vogal média tônica é fechado, no português atual (em virtude da harmonização com a vogal temática da segunda conjugação), rima com peça e impeça, formas verbais irregulares que representam uma exceção à regra de harmonização mencionada e são pronunciadas, no português atual, com vogal média aberta, na sílaba tônica; v. o substantivo força, pronunciado com vogal média fechada, no português atual, rima com a forma verbal esforça, cuja vogal média tônica, no português em curso, apresenta um timbre aberto (resultante da atuação da regra de abaixamento); vi. a forma verbal socorre, cuja vogal tônica emite um timbre aberto (também resultante da aplicação da regra de abaixamento), no português atual, rima com o substantivo torre (lat. tŭrris), pronunciado com vogal média fechada, na sílaba tônica.

Se considerarmos a possibilidade de, em períodos passados da língua portuguesa, o timbre da vogal tônica das formas verbais do presente ter sido determinado não pelas regras fonológicas de harmonização e abaixamento, que condicionam as pronúncias atuais do português, mas pela natureza da vogal latina, poderíamos dizer que, no momento em que foram compostos os poemas do Cancioneiro de Resende, a vogal tônica das formas verbais pesa (lat. pēnsat), atravesso (lat. travērsus), deve (lat. dēbet), esforça (lat. fōrtia)8 e socorre (lat. succŭrrit) era fechada (p(e)sa, d(e)ve, esf(o)rça, soc(o)rre), por ser proveniente de um ē ou ŭ latino, e a vogal tônica da forma verbal esqueça (lat. excadĕre> *excadescĕre>escaecer>esqueecer) era aberta, por resultar de uma crase (histórica) de vogais iguais.

Sob essa perspectiva, portanto, podem-se considerar perfeitas (entre fonemas vocálicos idênticos) as rimas do CG constituídas dessas formas verbais: p(e)sa/desp(e)sa, m(e)sa/p(e)sa, princ(e)sa/p(e)sa, def(e)sa/p(e)sa, p(e)sa/m(e)sa/def(e)sa/ac(e)sa, p(e)sa/empr(e)sa, Valdev(e)sso/atrav(e)sso/av(e)sso, d(e)ve/t(e)ve, ret(e)ve/d(e)ve, p(ε)ça/esqu(ε)ça/emp(ε)ça, esf(o)rça/f(o)rça e soc(o)rre/t(o)rre.

Essa hipótese também pode ser estendida para a rima do CG entre o substantivo boca (lat. bucca) e a forma verbal toca (lat. vulg. *toccare). Como o dicionário latino-português, de Saraiva (2006), registra apenas formas do latim clássico, não foi possível recuperar a informação acerca do timbre das vogais da forma toccare, no latim vulgar. É possível, todavia, deduzir o timbre da vogal (tônica) etimológica a partir de sua manifestação atual nas línguas românicas: o espanhol e o italiano, por exemplo, ao contrário do português, empregam a vogal média fechada, na pronúncia de formas verbais como t(o)co, t(o)ca, t(o)cas etc. Se tomarmos esse dado como um indício de que a vogal do latim vulgar era fechada e de que essa vogal também teria sido empregada nas antigas pronúncias do português, seremos levados a reconhecer como perfeita a rima do CG envolvendo a forma verbal toca (t(o)ca/b(o)ca).

Todos esses dados levam-nos a considerar a hipótese de a atuação das regras fonológicas de harmonização e abaixamento serem relativamente recentes, na história dos verbos do português. Afiança essa hipótese a informação de que a vogal tônica do galego atual, mais uma vez, é diferente da vogal tônica do português, em algumas das formas verbais anteriormente referidas: p(e)sa, d(e)be e esqu(ɛ)za (em variação com esqu(e)ça, que é menos comum na língua).

Os dados analisados até aqui correspondem, pois, aos possíveis casos de mudança de timbre vocálico ao longo da história da língua portuguesa, uma vez que apresentam, no português atual, uma vogal média tônica que não condiz com a vogal do étimo latino.

A concepção de mudança, por sua vez, traz consigo a ideia de variação. Chegamos, aqui, a outro ponto importante desta pesquisa. Se “toda mudança implica variabilidade e heterogeneidade” (Weinreich et al. 2006: 126), é preciso reconhecer que as mudanças de timbre vocálico suscitadas pelos dados deste trabalho, antes de serem concretizadas, passaram por um período de variação.

Para Fonte (2014), essa variação, embora possa ter ocorrido (esporadicamente) no século XIII, só começa a ganhar força, no sentido de abranger um maior número de palavras da língua, a partir do português médio.

Fundamentada no princípio de que nem toda variação resulta em mudança, Fonte (2014) defende que os processos fonético-fonológicos (de natureza assimilatória) supostamente responsáveis pelas mudanças de timbre vocálico, no decorrer da história do português, suscitadas não apenas pelas rimas das CSM, mas também pelas rimas do CG analisadas ao longo desta seção, atuaram em muitas outras palavras da língua (para além daquelas que tiveram seu timbre vocálico alterado), gerando uma variação entre vogais médias abertas e fechadas que, em alguns casos, resultou em mudança; em outros, não.

Partindo dessa hipótese, Fonte (2014) busca justificar as seguintes rimas do CG: modo (lat. mŏdus) / todo (lat. tōtus), Arelho / conselho (lat. consĭlium) / coelho (lat. cunīculus) / vermelho (lat. vermĭculus) / velho (lat. vĕtulus). Para a estudiosa, se as Gramáticas Históricas e Manuais de Filologia do Português reconhecem a atuação do chamado processo de metafonia na alteração do timbre vocálico de muitas das palavras do português,9 não parece impróprio admitir que esse processo também tenha condicionado, em momentos passados da língua, uma pronúncia diferente da atual (e etimológica) em vocábulos como velho (v(e)lho) e modo (m(o)do), ambos terminados em -o, vogal que foi, tradicionalmente, apontada como gatilho em processos de metafonia. Dessa forma, estaria legitimada a homofonia perfeita das rimas do CG anteriormente referidas.

Particularmente em relação às rimas, no CG, entre os substantivos terminados em -elho, Fonte (2014) lança mão de dados do português atual para corroborar a hipótese de variação no português médio. A autora lembra que, segundo Mateus e d’Andrade (2000), na variedade padrão de Lisboa, (ɐ) sempre substitui (e) tônico e, por vezes, (ε), diante de consoante palatal na sílaba seguinte (ex.: telha ('tɐʎɐ), abelha (ɐ'bɐʎɐ), velha ('vɐʎɐ), fecho ('fɐʃu), cereja (sɨ'ɾɐʒɐ), senha ('sɐɲɐ), venho ('vɐɲu)).

Para Fonte (2014), isso quer dizer que, enquanto, no Brasil, há uma clara distinção entre as terminações de vocábulos como velho e vermelho, por exemplo, porque apresentam vogais médias distintas, do ponto de vista fonológico (v/ε/lho e verm/e/lho), em Portugal, por vezes, essa diferença não é assim tão evidente, em virtude da influência da consoante palatal (/ʎ/) da sílaba seguinte.

Se admitirmos a hipótese de essa diferença também ter sido sutil (ou nula) no português dos séculos XV e XVI, seremos levados a reconhecer como perfeita a homofonia das rimas do CG entre velho, conselho, coelho e vermelho.

Cabe acrescentar que, de acordo com o Portal da Língua Portuguesa, o substantivo velho, no português de Maputo, também é pronunciado com vogal média fechada (v(e)lho), na sílaba acentuada. Esse dado pode ser interpretado de duas maneiras: i. ou essa pronúncia é recente, no português de Maputo, em virtude do processo de metafonia, que parece ter atuado com mais força nessa variedade da língua, a julgar por outras pronúncias indicadas pelo Portal da Língua Portuguesa e apresentadas nesta seção; ii. ou essa variante fonética ocorre desde o século XV, pelo menos, mas, no decorrer da história da língua, perdeu-se em algumas variedades do português (nas brasileiras, por exemplo).

Além da pronúncia (não-etimológica) v(e)lho, o Portal da Língua Portuguesa aponta muitos outros exemplos em que o timbre da vogal média tônica, no português moçambicano, teria sido ocasionado, muito provavelmente, pelo processo de metafonia. Um desses exemplos envolve a terminação -eza, pronunciada com vogal média fechada, na maior parte das variedades do português, mas com vogal média aberta, nas variedades de Maputo, segundo o Portal consultado: alt(ε)za e trist(ε)za, por exemplo.

Esses dados do português moçambicano afiançam a hipótese de o português do passado também ter adotado pronúncias como essas (em variação, muito provavelmente, com as pronúncias etimológicas). Se as variantes fonéticas presentes, hoje, na variedade de Maputo, também ocorressem nas demais variedades da língua portuguesa, não estranharíamos esta rima do CG: Alt(ε)za/trist(ε)za/largu(ε)za/r(ε)za.

Os dados analisados até aqui sustentam a hipótese de variação proposta por Fonte (2014). Cabe acrescentar que, embora muitas dessas variações possam ser atribuídas à atuação de processos assimilatórios (como a metafonia e a harmonia vocálica, por exemplo), não se pode desconsiderar a possibilidade de a variação entre as vogais médias tônicas de antanho ter sido livre, ou seja, independente de condicionamentos linguísticos.

4. As vogais médias nas rimas de Os Lusíadas

Com o objetivo de investigar se a poesia do português dito clássico ou moderno adotava rimas semelhantes àquelas registradas na obra de Resende, Fonte (2014) mapeou e analisou todas as rimas de Os Lusíadas contendo vogal média na sílaba acentuada. Esta seção está dedicada à apresentação e à discussão dos resultados obtidos por Fonte (2014), a partir da pesquisa referida.

Para fazer o levantamento das rimas de Os Lusíadas, Fonte (2014) partiu do rimário da obra épica de Camões. As eventuais dúvidas surgidas durante o processo foram sanadas por meio da consulta direta aos versos do autor, em uma das edições de 1572, em versão digitalizada e disponível na web.

Ao analisar as possibilidades de rima em Os Lusíadas, Fonte (2014) constatou uma equivalência entre o esquema rímico adotado por Camões e aquele identificado para o CG. De acordo com a estudiosa, ocorrem, em Os Lusíadas, como na coletânea de Resende, diversos casos de rima entre palavras que, no português atual, apresentam fonemas vocálicos diferentes, na sílaba tônica.

Grande parte desses casos de rima envolve, inclusive, exatamente os mesmos termos registrados nas rimas do Cancioneiro de Resende apresentadas na seção anterior, como mostram os exemplos (03) e (04) a seguir, correspondentes às terminações com vogal média (tônica) anterior e posterior, respectivamente.

  • 03.Vogais médias anteriores nas rimas de Os Lusíadas

  • disser/dizer/saber (III-5)

  • tivêra/recebêra (II-69)

  • escondêra/rendêra/fera (III-59)

  • viera/fera/acontecèra (III-88)

  • fizerão/tiverão/obedecerão (I-3)

  • fizerão/viverão/merecerão (II-103)

  • erão/receberão/vierão (V-62)

  • erão/conhecerão/gerão (VI-17)

  • poderão/vierão/crescerão (VI-79)

  • tivesse/sometesse/desse (I-75)

  • desse/interesse/quisesse (VII-84)

  • vivesse/viesse/interesse (VIII-67)

  • recebesse/detivesse/podesse (VIII-95)

  • podessem/revolvessem (VI-79)

  • viessem/trouxessem/convertessem (VII-33)

  • tiverdes/quiserdes/moverdes (IV-18)

  • perdes/verdes/quiserdes (IX-59)

  • poderem/correrem (II-84)

  • receberes/poderes/quiseres (VI-15)

  • pareceres/poderes/quiseres (VIII-60)

  • celeste/este (III-73)

  • celeste/deste/defendeste (VI-81)

  • celeste/deste/defendeste (VI-81)

  • deste/naceste/fizeste (X-44)

  • fè/crè/dè (I-63)

  • cabeça/começa/floreça (III-20)

  • faleça/começa/peça (VIII-78)

  • começa/cabeça/conheça (X-123)

  • começão/adereção/conheção (V-25)

  • peças/favoreças (X-118)

  • leda/seda/arremeda (II-93)

  • seda/veda/leda (II-96)

  • queda/leda (IX-67)

  • cega/nega/achega (II-98)

  • chega/nega/rega (V-7)

  • chegão/navegão (I-32)

  • navegão/chegão/regão (IV-62)

  • sosego/Mondego/cego (III-80)

  • sosego/cego/Mondego (III-120)

  • cego/Mondego/navego (VII-78)

  • enveja/deseja (I-39)

  • veja/Beja/deseja (III-76)

  • pelleja/deseja/enveja (V-93)

  • enveja/seja (VI-55)

  • enveja/seja/veja (X-113)

  • veja/enveja (X-156)

  • bella/nella/estrella (I-33)

  • Palmella/estrella/della (III-65)

  • Castella/socorrella (III-99)

  • donzella/vencella/della (III-127)

  • estrella/della/bella (V-14)

  • Castella/estrella/nella (VI-47)

  • perdella/della (VI-83)

  • Castella/nella/estrella (VIII-25)

  • Estrella/Castella/bella (VIII-29)

  • della/estrella/doncella (IX-81)

  • dellas/vellas/estrellas (V-23)

  • bellas/estrellas (VI-87)

  • Caravellas/cometellas (X-18)

  • aquelle/elle/pelle (V-28)

  • aquelle/Hele/impelle (VI-63)

  • aquelle/pelle/nelle (IX-23)

  • velha/aparelha/ovelha (III-131)

  • aparelha/velha/aconselha (IX-50)

  • velho/conselho/aparelho (I-82)

  • velho/aparelho/vermelho (III-75)

  • conselho/velho/aparelho (IV-76)

  • velho/espelho (VIII-13)

  • zelo/amarelo (X-62)

  • regelos/Vasconcelos (IV-24)

  • cabellos/amarellos (V-39)

  • bellos/cabellos (V-55)

  • bellos/cabellos/amarellos (IX-56)

  • perde/verde (III-52, V-7)

  • enxerga/verga/erga (X-78)

  • eterno/governo/Inverno (I-28)

  • eterno/governo/moderno (VI-52)

  • ferro/erro/desterro (III-128, X-53)

  • ferro/desterro (VII-24)

  • temerte/converte (VI-89)

  • desconcerto/aperto/perto (III-138)

  • Portuguesa/defesa/pesa (I-90)

  • Teresa/pesa/defesa (III-34)

  • Portuguesa/empresa/pesa (III-41)

  • Inglesa/acesa/pesa (VI-44)

  • presa/pesa (IX-80)

  • Princesas/desprezas/estranhezas (III-122)

  • Meneses/Portugueses/reveses (X-104)

  • bestas/florestas/sestas (IX-67)

  • Planeta/Meta/secreta (II-1)

  • inquieta/Mahometa/Planeta (III-19)

  • meta/secreta/preta (V-27)

  • penetras/letras (III-13)

  • treva/leva/atreva (V-30)

  • leva/escreva/treva (IX-15)

  • teve/atreve/leve (III-22)

  • teve/deve/breve (III-26)

  • leve/teve/neve (VI-43)

  • teve/leve/breve (VI-52)

  • atreve/deve/teve (VIII-32)

  • nobreza/preza/pureza (II-75)

  • Veneza/preza (II-97)

  • certeza/despreza/grandeza (III-29)

  • despreza/fortaleza/destreza (III-112)

  • certeza/pureza/preza (X-121)

  • Princesas/desprezas/estranhezas (III-122)

  • 04.Vogais médias posteriores nas rimas de Os Lusíadas

  • toda/roda/noda (III-17)

  • roda/noda/toda (VII-60)

  • todas/vodas/rodas (X-74)

  • todo/modo (II-58)

  • todo/modo (VII-59)

  • modos/todos (VI-12, VI-15, 50)

  • fogo/jogo/logo (IV-39)

  • logo/fogo (VI-34, 63)

  • logo/Diogo/rogo (VIII-94)

  • fogo/logo/jogo (X-19)

  • valor/milhor (III-18)

  • amor/maior (III-31)

  • senhores/milhores (II-46)

  • milhores/amores (VI-40)

  • temores/mayores/antecessores (VI-95)

  • pescadores/moradores/milhores (VII-16)

  • menores/corruptores (VIII-40)

  • milhores/regedores (VIII-52)

  • mercadores/milhores/trabalhadores (IX-10)

  • sabores/milhores/amores (IX-58)

  • moradores/cores/milhores (X-97)

  • senhores/mayores (X-114)

  • habitadores/peccadores/milhores (X-121)

  • Aurora/vencedora/chora (I-14)

  • guardadora/fora (I-102)

  • senhora/vencedora/adora (II-51)

  • fora/fora/senhora (III-95)

  • fora/mora/vencedora (VII-1)

  • agora/adora/fora (VII-32)

  • fora/Aurora/Flora (IX-61)

  • caçadora/fora/mora (IX-73)

  • fora/vencedora (X-31)

  • horas/roubadoras/moradoras (I-78)

  • pastoras/senhoras/horas (IX-35)

  • desacordo/bordo/acordo (VI-72)

  • choro/sonoro/coro (V-60)

  • morre/corre/torre (IV-5)

  • torre/morre (VIII-97)

  • sorte/morte/corte (IV-86)

  • corte/sorte (VI-7)

  • corte/sorte/forte (VI-60)

  • vos/avôs/pos (IV-17)

  • esposa/fermosa/preciosa (VI-21)

  • temerosas/esposas/belicosas (IV-26)

  • esposas/desditosas (IV-44)

  • fermosas/deleitosas/esposas (IX-84)

  • fosse/posse (III-25)

  • posso/vosso/grosso (I-15)

  • posso/Colosso/grosso (V-40)

  • posta/Lagosta (VI-17)

  • postos/sottopostos/desgostos (V-58)

  • nova/prova/mova (X-14)

  • mova/prova/nova (X-112)

Para Fonte (2014), as rimas de Os Lusíadas são, como as rimas do CG, perfeitas e, também como aquelas, podem ser interpretadas a partir da hipótese de variação e mudança, na diacronia do português.

Conforme se pode notar, muitas das terminações arroladas em (03) e (04) também constituíram as rimas do CG estudadas na seção anterior.

Na maioria dos casos, não apenas as terminações são equivalentes (com variações apenas na flexão de número, em alguns dados), mas também os próprios vocábulos rimantes. Houve, contudo, um acréscimo tanto de terminações, quanto de palavras, dentro de determinados grupos rimantes - o que indica um aumento de casos em relação à obra analisada na seção anterior, mesmo sendo Os Lusíadas um trabalho menos extenso do que o CG. Esse aumento de dados pode estar sugerindo que, no português moderno, a variação entre as vogais médias tônicas teria ganhado ainda mais força.

Com relação às terminações que, no CG, não haviam constituído rimas estranhas aos padrões atuais, verifica-se um acréscimo significativo entre os exemplos referentes à vogal média posterior, mas também há novas terminações entre os casos envolvendo a vogal média (tônica) anterior. Esses novos casos de rima podem ser justificados, em sua maioria, a partir da origem da vogal tônica, no latim, ou das pronúncias atuais em outras línguas românicas.

No caso das novas rimas envolvendo vogal média anterior (na sílaba tônica), por exemplo, de acordo com o Dicionario de pronuncia da lingua galega, substantivos como sossego, governo, erro e desterro são pronunciados, no galego atual, com uma vogal média aberta, na sílaba acentuada: sos(ε)go, gob(ε)rno, (ε)rro e dest(ε)rro. Nos falares correntes do português, esses nomes, pronunciados com vogal média fechada, na sílaba tônica, formam pares mínimos com as formas verbais homógrafas, correspondentes às flexões dos verbos sossegar (lat. sesĭcāre), governar (lat. gŭbĕrnāre), errar (lat. ērrāre) e desterrar (lat. tĕrra), na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, e pronunciadas com vogal média aberta, na sílaba acentuada. Se o português atual, como o galego, não fizesse essa distinção entre os fonemas das formas nominais e verbais referidas (e se o nome próprio Mondego fosse pronunciado com vogal média aberta, na sílaba tônica), não causariam qualquer estranhamento estas rimas de Os Lusíadas: sos(ε)go/Mond(ε)go/c(ε)go, sos(ε)go/c(ε)go/Mond(ε)go, c(ε)go/Mond(ε)go/nav(ε)go, et(ε)rno/gov(ε)rno/Inv(ε)rno, et(ε)rno/gov(ε)rno/mod(ε)rno, f(ε)rro/(ε)rro/dest(ε)rroe f(ε)rro/dest(ε)rro.

No que diz respeito às terminações contendo uma vogal média posterior, na sílaba acentuada, o recurso à origem da vogal tônica ou às pronúncias atuais de outras línguas românicas contribui para a interpretação das seguintes rimas de Os Lusíadas: -ora(s), -ordo, -oro, -orte, -osa(s), -osse e -osso, por exemplo.

Vimos, na primeira seção deste artigo, dedicada às vogais médias do século XIII, que a vogal tônica de adjetivos terminados em -osa, tais como formosa (lat. formōsa), preciosa (lat. pretiōsa), gloriosa (gloriōsa) etc., não apresenta, no português atual, um timbre equivalente ao etimológico. Esses adjetivos, que foram dispostos em rima com o substantivo esposa, nas CSM, sugerindo que, no galego-português, eram pronunciados com uma vogal tônica diferente da atual, voltam a constituir rimas notáveis, em Os Lusíadas. Além desses adjetivos, há, entre os dados do século XVI, muitas outras palavras cuja vogal tônica teria passado por mudanças de timbre, na diacronia do português.

Ao consultar a etimologia de palavras como aurora (lat. aurōra), senhora (lat. senhōris), flora (lat. Flōra), hora (lat. hōra), agora (lat. hāchōra), sonoro (lat. sonōrus), forte (lat. fōrtis), morte (lat. mōrs, mōrtis), sorte (lat. sōrtis), posse (lat. pōsse) e vosso (lat. vestrum>*vōstrum, análogo a nōstrum), constata-se que a pronúncia atual da vogal tônica desses vocábulos, no português, não corresponde ao timbre herdado do latim clássico. A comprovar algumas das etimologias propostas estão as manifestações dessas vogais no galego em curso: senh(o)ra, ag(o)ra, fl(o)ra, son(o)ro ~ son(ɔ)ro, h(o)ra ~ h(ɔ)ra, Aur(o)ra ~ Aur(ɔ)ra (nome próprio).

Particularmente em relação aos verbos, a pronúncia atual da vogal média tônica em formas como adora (lat. adōrare), chora (lat. plōrare) e posso (lat. pōssum), por exemplo, segundo a etimologia indicada por Saraiva (2006), também não corresponde ao timbre supostamente herdado do latim clássico.

A partir desses dados, é possível considerar a hipótese de o português do passado ter empregado, nas pronúncias de então, uma vogal média tônica diferente da atual - e com um timbre correspondente à quantidade herdada do latim clássico. Se admitirmos essa hipótese, seremos, pois, levados a reconhecer como perfeitas as seguintes rimas de Os Lusíadas: esp(o)sa/ferm(o)sa/preci(o)sa, temer(o)sas/esp(o)sas/bellic(o)sas, esp(o)sas/desdit(o)sas, ferm(o)sas/deleit(o)sas/esp(o)sas, Aur(o)ra/venced(o)ra/ch(o)ra, senh(o)ra/venced(o)ra/ad(o)ra, ag(o)ra/ad(o)ra/f(o)ra, f(o)ra/Aur(o)ra/Fl(o)ra, f(o)ra/venced(o)ra, h(o)ras/roubad(o)ras/morad(o)ras, past(o)ras/senh(o)ras/h(o)ras, ch(o)ro/son(o)ro/c(o)ro, f(o)sse/p(o)sse, s(o)rte/m(o)rte/c(o)rte, c(o)rte/s(o)rte, c(o)rte/s(o)rte/f(o)rte, p(o)sso/v(o)sso/gr(o)sso, p(o)sso/Col(o)sso/gr(o)sso.

Essa proposta de interpretação das rimas de Os Lusíadas considera, pois, a hipótese de o português ter adotado, até o século XVI, pelo menos, pronúncias, para as vogais médias tônicas de então, condizentes com a forma original. De acordo com essa interpretação, muitas das pronúncias etimológicas foram alteradas, ao longo da história do português - o que estaria impedindo a aceitação (imediata) das rimas estudadas.

Não está descartada, todavia, a hipótese de a variação responsável pelas mudanças referidas já ter começado a atuar no período em foco. Diríamos, nesse caso, que eram comuns, na época de Camões, as duas pronúncias, com vogal média aberta e com vogal média fechada, não apenas entre os vocábulos que concretizaram a mudança, mas entre todos os vocábulos, de um modo geral.

Essa interpretação abarca, pois, as pronúncias atuais não-etimológicas (ex.: form(ɔ)sa, preci(ɔ)sa, senh(ɔ)ra, ag(ɔ)ra, h(ɔ)ra, ad(ɔ)ra, ch(ɔ)ra, son(ɔ)ro, p(ɔ)sse, p(ɔ)sso, m(o)va etc.). Por outro lado, também reconhece pronúncias não-etimológicas que não teriam vingado, na diacronia do português, tais como esp(ɔ)sa(s), venced(ɔ)ra, roubad(ɔ)ra, morad(ɔ)ra, past(ɔ)ra, b(o)rdo, c(ɔ)ro, f(ɔ)sse, col(ɔ)sso, n(o)va, pr(o)va. Em outras palavras, essa proposta de interpretação sugere que a variação (livre ou condicionada pelo processo de metafonia) atingia, no século XVI, senão todas, grande parte das palavras da língua que continham vogal média na sílaba acentuada. Apenas em alguns casos, contudo, essa variação teria resultado em mudança.

Alguns argumentos podem ser considerados a favor dessa hipótese de variação. O primeiro deles, apontado por Fonte (2014), diz respeito às rimas de Os Lusíadas terminadas em -osa(s). De acordo com a autora, os adjetivos com essa terminação, além de rimarem com o substantivo esposa (lat. spōnsa), nos versos de Camões, também rimam com rosa (lat. rŏsa): amorosas/rosas (VI-86), rosas/fermosas/amorosas (IX-41), rosas/fermosas (IX-68). Para a estudiosa, se a vogal tônica de rosa for, de fato, proveniente de ŏ latino (que não originou ditongo no espanhol: rosa, e não *ruesa), essas rimas de Os Lusíadas devem ser interpretadas como um indício de variação, no português do passado, envolvendo a pronúncia dos adjetivos terminados em -osa. Cabe ressaltar que a rima entre esses adjetivos e o substantivo rosa já havia ocorrido no CG. Esse dado sugere que a variação, que, posteriormente, resultaria na mudança da vogal tônica desses adjetivos, já teria começado a atuar no português médio, embora o Cancioneiro de Resende não tenha registrado uma rima que representasse a variante com vogal média fechada (uma rima entre esses adjetivos e o substantivo esposa, por exemplo). Não é desprezível, contudo, a hipótese de o substantivo rosa ter sido pronunciado, no português antigo, com uma vogal média fechada (talvez etimológica), na sílaba acentuada.

O outro argumento a ser considerado (a favor da hipótese de variação) envolve as rimas de Os Lusíadas terminadas em -ora. Nos exemplos apontados em (04), há rimas contendo vocábulos cuja vogal tônica é proveniente de ue (fuerat> f(o)ra) ou de ō latino (ex.: senhora, pastora, hora, agora etc.), ou seja, em todos esses casos, a pronúncia com vogal média fechada, na sílaba acentuada, pode ser atribuída à etimologia das palavras. Há rimas, no entanto, na obra épica de Camões, entre esses vocábulos e o advérbio fora, cuja vogal tônica é proveniente de ŏ latino (fŏras, no latim, e fuera, no espanhol).

Pode-se dizer que essas rimas, por trazerem um representante legítimo da vogal média aberta (etimológica), corroboram a hipótese de, no português moderno, a variação entre vogais médias abertas e fechadas, que resultou em mudança, no caso dos vocábulos senhora, hora e agora, por exemplo, também ter atingido a pronúncia das palavras que mantêm, ainda hoje, o timbre correspondente à quantidade da vogal etimológica (ex.: pastora, matadora, roubadora etc.). É importante acrescentar que, no português de Maputo (variedades padrão e não-padrão, segundo o Portal da Língua Portuguesa), esses substantivos femininos terminados em -ora são pronunciados com vogal média aberta, na sílaba acentuada: past(ɔ)ra, matad(ɔ)ra, pesquisad(ɔ)ra etc.

Todas as reflexões expostas até aqui trazem argumentos suficientes para atestar tanto as pronúncias com vogal média aberta quanto as pronúncias com vogal média fechada, sejam elas etimológicas ou fonéticas. Esses argumentos corroboram, por conseguinte, a tese defendida por Fonte (2014) de que as rimas dos textos poéticos abordados neste estudo são todas perfeitas. Para a autora, “fossem as vogais abertas ou fechadas, se as rimas foram empregadas, na poesia de então, é porque havia, entre as pronúncias possíveis na época, uma perfeita correspondência entre os sons vocálicos envolvidos - eis a proposta deste estudo” (Fonte 2014: 179).

5. Considerações Finais

Os dados de Fonte (2010a, b, 2014) apresentados e discutidos ao longo deste artigo sugerem que, no século XIII, havia, muito provavelmente, distinção fonológica, na sílaba acentuada, entre as vogais médias abertas e fechadas do português - e essas vogais médias eram pronunciadas, ao que tudo indica, de acordo com o timbre herdado do étimo latino (ex.: (e)ssa, prom(e)ssa, env(e)ja,ferm(o)sa, glori(o)sa, f(ɔ)go, j(ɔ)go etc.).

Nos séculos XV e XVI, entretanto, processos assimilatórios como a metafonia e a harmonização vocálica teriam passado a atuar (com maior frequência, talvez), na língua, acarretando variação na pronúncia dessas vogais.

Para além da atuação dos referidos processos de natureza assimilatória, os dados de Fonte (2014) autorizam-nos a afirmar que essa variação, embora possa ter sido condicionada, a princípio, por determinados contextos fonético-fonológicos, acabou, muito provavelmente, sendo difundida a itens lexicais da língua que não apresentavam qualquer condicionamento linguístico para a atuação da metafonia ou da harmonia vocálica, por exemplo, configurando-se, assim, como uma legítima variação livre.

Nos séculos XV e XVI, portanto, a julgar pelas rimas do CG e de Os Lusíadas analisadas ao longo deste artigo, não havia, muito provavelmente, oposição fonológica entre vogais médias abertas e fechadas, na sílaba acentuada - o que tornava o português de então, nesse aspecto, semelhante ao espanhol (atual).

O presente artigo também mostra que, em alguns casos, as variações (do passado) entre vogais médias abertas e fechadas resultaram em mudança, de modo que a variante fixada na pronúncia atual não corresponde à forma etimológica (ex.: (ε)ssa, prom(ε)ssa,env(ε)ja, av(e)sso, form(ɔ)sa, glori(ɔ)sa, f(o)go, j(o)go, n(o)vo). Em outros casos, no entanto, fixou-se a pronúncia mais antiga da língua (ex.: b(e)sta, trist(e)za, r(ε)to, v(ε)lho,l(ɔ)go, m(ɔ)do).

Um dos argumentos adotados por Fonte (2014) para ratificar a hipótese de variação de vogal média tônica, no português do passado, baseia-se no fato de muitas das palavras que tiveram o seu timbre vocálico alterado, ao longo da história de nossa língua, constituírem variações fonéticas, no galego atual: quer(e)la ~ quer(ε)la, aqu(e)la ~ aqu(ε)la, (e)la ~ (ε)la, cap(ε)lo ~ cap(e)lo, av(ε)sa ~ av(e)sa, av(ε)so ~ av(e)so, proc(ε)so ~ proc(e)so, (e)u ~ (ε)u, m(e)u ~ m(ε)u, s(e)u ~ s(ε)u, t(e)u ~ t(ε)u, f(ɔ)go ~ f(o)go, x(ɔ)go ~ x(o)go (jogo), n(ɔ)vo ~ n(o)vo (cf. Dicionario de pronuncia da lingua galega). Para a autora, essas variações que o galego, ainda hoje, preserva também ocorreram, muito provavelmente, no português do passado, mas resultaram em mudança, no decorrer dos séculos. Este artigo, portanto, aponta semelhanças do português do passado não apenas com o espanhol atual, mas também com o galego atual.

Por último, cabe observar que, embora essas variações entre vogais médias tônicas já não sejam muitos frequentes, nos falares atuais da língua (como eram, ao que tudo indica, no português médio e moderno), ainda podem ser observadas em alguns casos, envolvendo vocábulos que não apresentam um único timbre estabelecido, a saber: sap(ε) ~ sap(e), bl(ε)fe ~ bl(e)fe, retr(ε)te ~ retr(e)te, f(ε)cha~ f(e)cha, pel(ε)ja~ pel(e)ja, c(ε)dro ~ c(e)dro, esm(ε)ro ~ esm(e)ro, top(ε)te ~ top(e)te, bof(ε)te ~ bof(e)te, T(ε)jo~ T(e)jo, p(ɔ)ça~ p(o)ça, d(ɔ)lo ~ d(o)lo etc.10

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Nota:A autora deste artigo é a único responsável por seu conteúdo e redação

1O galego-português ou português trovadoresco corresponde à primeira fase do período tradicionalmente conhecido como arcaico, compreendida entre o final do século XII e meados do século XIV (cf. Michaëlis de Vasconcelos 1946). O português médio corresponde à segunda fase do período arcaico, caracterizada, segundo Michaëlis de Vasconcelos (1946), pela separação entre o galego e o português: de 1350 ao início do século XVI. Já o português moderno corresponde ao último período postulado pelos estudiosos da língua e teve início, segundo a proposta de Vasconcellos (1959), em meados do século XVI.

2O foco deste artigo, conforme explicitado no objetivo do estudo, está nos dados dos séculos XV e XVI (CG e Os Lusíadas), pois é nesse período que estaria concentrada a intensa variação fonética que teria fragilizado a distinção fonológica entre as vogais médias (tônicas) do português. São esses dados, portanto, que sugerem que o nosso sistema vocálico de então era semelhante àquele que se verifica, hoje, no espanhol. Contudo, também dedicamos uma breve seção do artigo para apresentar alguns resultados da pesquisa de Fonte (2010a, b) para o século XIII, porque tais dados são relevantes para que se compreenda, de forma mais ampla, a trajetória por que teriam passado as vogais do português até chegarem ao suposto quadro fonético-fonológico verificado para o período subsequente (séculos XV e XVI).

3Segundo Goldstein (1985: 44), nas rimas soantes, a partir da vogal tônica, todas as vogais e consoantes possuem a mesma qualidade, ao passo que, nas rimas toantes, apenas as vogais tônicas são semelhantes (ex.: pinno/amigo e ramo/amado, nas cantigas de amigo). O trabalho de Fonte (2010a, b) mostra que, nas CSM, não há rimas toantes.

4O timbre (aberto ou fechado) da vogal média tônica, nas demais línguas românicas, segue, em geral, esse mesmo esquema de substituição das vogais breves e longas do latim clássico, uma vez que essa substituição, de acordo com os estudos históricos referidos, teria se efetivado já no latim vulgar. Merece destaque, contudo, uma peculiaridade do espanhol, que não se verifica nas demais línguas descendentes do latim vulgar: a ocorrência dos ditongos ie e ue, na sílaba tônica de palavras que continham, no latim clássico, vogais médias breves anteriores (ex.: pĕtra > piedra) e posteriores (ex.: nŏvus > nuevo), respectivamente.

5Todas as informações sobre a origem histórica das palavras, neste texto, estão baseadas nos dicionários de Cunha (2010) e Saraiva (2006).

6Essas etimologias propostas por Saraiva (2006) divergem das etimologias apontadas por Cunha (2010), nos seguintes casos: regra, pele, festa, fresta, neta, reto, morto, torto e porto. Enquanto, para Saraiva (2006), a vogal média tônica desses substantivos provém de uma vogal média longa do latim, para Cunha (2010), no latim clássico, a vogal média tônica de todos esses nomes era breve: rĕgula, pĕllis, fĕsta, fenĕstra, nĕptis, rĕctus, mŏrtuus, tŏrtus e pŏrtus. Se, por um lado, as propostas de Cunha (2010) têm respaldo na manifestação atual dessas vogais, na maior parte das línguas românicas, por outro lado, as rimas do português do passado sustentam as propostas de Saraiva (2006). Uma boa maneira para resolver esse impasse, já que os dicionários etimológicos costumam fundar suas hipóteses, acerca da quantidade da vogal latina, nos resultados gerados nas diferentes línguas românicas, seria investigar, a partir de um trabalho como este (que analisa as rimas do passado), por exemplo, se o timbre atual das demais línguas românicas (ou se o ditongo, no caso do espanhol), para esses dados específicos, não é resultado de mudanças linguísticas, ao longo da história.

7De acordo com Xavier e Mateus (1990: 200), a harmonia vocálica corresponde “ao modo como a articulação de uma vogal é influenciada pelas propriedades de outra(s) vogal(ais) na mesma palavra ou no mesmo grupo de palavras”.

8Os dicionários de Saraiva (2006) e de Cunha (2010) também divergem com relação à quantidade da vogal média do substantivo força, no latim: fōrtia, para Saraiva (2006), e fŏrtia, para Cunha (2010). A proposta de Saraiva (2006) condiz com a pronúncia atual tanto do português (f(o)rça), quanto do galego (f(o)rza e esf(o)rza). Já a proposta de Cunha (2010) tem respaldo no espanhol fuerza.

9Os estudiosos classificam a metafonia como o processo assimilatório responsável pela mudança de timbre da vogal tônica por influência de uma vogal átona, geralmente, final (cf. Xavier e Mateus 1990: 245).

10A maior parte dessas variações (blefe, bofete, esmero, retrete, sapê/sapé, topete, poça) está registrada no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (edição de Ferreira, 2004).

Recebido: 30 de Novembro de 2018; Aceito: 18 de Março de 2019

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