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Psicología, Conocimiento y Sociedad

On-line version ISSN 1688-7026

Psicol. Conoc. Soc. vol.15 no.1 Montevideo  2025  Epub Dec 01, 2025

https://doi.org/10.26864/pcs.v15.n1.7 

Artigo de Investigação

Laços familiares e sociais: a construção da representação social religiosa para ateus, espíritas e candomblecistas a partir do estudo da Memória Social

Family and social ties: the construction of religious social representation for atheists, Spiritists and Candomblé practitioners based on the study of Social Memory

Vínculos familiares y sociales: la construcción de representaciones sociales religiosas para ateos, espiritistas y practicantes del candomblé a partir del estudio de la Memoria Social

Gabrielle Braga Chaves Ferreira1 
http://orcid.org/0009-0007-3724-3689

Rafael Moura Coelho Pecly Wolter1 
http://orcid.org/0000-0003-1633-2141

Antonio Marcos Tosoli Gomes2 
http://orcid.org/0000-0003-4235-9647

1Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil

2Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Autora referente: gabrielle.chaves04@gmail.com


Resumo:

O presente artigo objetiva compreender como a memória social influencia na construção da representação religiosa de grupos religiosos não hegemônicos (ateus, espíritas e candomblecistas). Para tal, utiliza a Teoria das Representações Sociais como aporte teórico do estudo e perpassa pela memória social. A pesquisa consistiu em entrevistas individuais com roteiro semiestruturado e perguntas sociodemográficas, com 12 participantes de cada um dos grupos: espíritas, candomblecistas e ateus, de diferentes cidades do Brasil. A coleta de dados realizou-se de junho de 2023 a novembro do mesmo ano. Os resultados foram submetidos à análise de conteúdo de Bardin. Os resultados apontam as conclusões que há influência da família na construção da identidade social religiosa e na formação de representações sociais da religião. Entretanto, a família não é a única fonte de influência para tal identidade e representações, pois a própria instituição religiosa, o pensamento social hegemônico e questões político- sociais também reverberam nas representações dos grupos.

Palavras-chave: Religião; memória social; representações sociais

Abstract:

This article aims to understand how social memory influences the construction of religious representation of non-hegemonic religious groups. To this end, it employs Social Representation Theory as its theoretical framework, also delving into social memory. The research consisted of individual interviews with a semi-structured script and sociodemographic questions, involving 12 participants from each of the following groups: Spiritists, Candomblé practitioners and atheists, from different cities in Brazil. Data collection took place from June 2023 to November of the same year. The results were subjected to Bardin's content analysis. The findings indicate the conclusions that family influences the formation of social religious identity and social representations of religion. However, the family is not the sole source of influence for such identity and representations; the religious institution itself, the hegemonic social thought, and socio- political issues also resonate in the representations of these groups.

Keywords: Religion; social memory; social representations

Resumen:

Este artículo tiene como objetivo comprender cómo la memoria social influye, participa, y se relaciona en la construcción de la representación social religiosa de los grupos religiosos no hegemónicos. Para ello utiliza la Teoría de las Representaciones Sociales como marco teórico del estudio y aborda la memoria social. La investigación consistió en entrevistas individuales con un guión semiestructurado y preguntas sociodemográficas, con 12 participantes de cada uno de los grupos: espiritistas, practicantes del candomblé y ateos de diferentes ciudades de Brasil. La recopilación de datos se llevó a cabo desde junio de 2023 hasta noviembre del mismo año. Los resultados fueron sometidos al análisis de contenido de Bardin. Los resultados indicaron las conclusiones que hay una influencia de la familia en la construcción de la identidad social religiosa y en la formación de representaciones sociales de la religión. Sin embargo, la familia no es la única fuente de influencia para tal identidad y representaciones, ya que la propia institución religiosa, el pensamiento social hegemónico y cuestiones político sociales también repercuten en las representaciones de los grupos.

Palabras clave: Religión; memoria social; representaciones sociales

A pesar do crescente pluralismo religioso no Brasil (Montero, Nicácio & Vaggione, 2021), a hegemonia cristã de católicos e evangélicos se faz presente. Assim, o espiritismo e o candomblé são grupos religiosos minoritários e apresentam uma visão teológica alternativa, tornando-se mais suscetíveis à intolerância religiosa. Além disso, por ser um país em sua maioria religioso, o ateísmo também é um grupo não hegemônico.

A relação entre ancestralidade e representação social religiosa é um campo intrigante e significativo no estudo da psicologia social. A ancestralidade, no contexto desta pesquisa, é entendida não apenas como uma linhagem biológica (Kimura, Lemes & Nunes, 2022), mas também como um legado do pensamento social hegemônico, com o significado de antepassados.

Situando-se no contexto sociocultural brasileiro, uma nação caracterizada por sua rica variedade de crenças e comportamentos religiosas, este artigo utiliza a teoria das Representações Sociais de Serge Moscovici (1984, 2007), além de incorporar o conceito de Memória Social para compreender como esses constructos teóricos explicam e identificam pontos característicos dos grupos religiosos.

Serge Moscovici propôs uma teoria baseada no modelo triádico da psicologia social, que entende a interação e a comunicação como fatores indispensáveis na elaboração de crenças e representações, contrária à ideia de que sujeitos isolados as elaboram (Vala & Castro, 2013). Este modelo triádico consiste na relação do indivíduo ou grupo com os objetos sociais sendo mediada por um alter, que é um outro indivíduo ou grupo (Moscovici, 1984, p.34).

Na tentativa de tornar o não familiar em familiar, as representações sociais vão surgindo e a realidade vai sendo construída (Moscovici, 2007). A representação social "é uma forma de conhecimento, socialmente elaborado e compartilhado, que tem um objetivo prático e concorre para a construção de uma realidade comum a um conjunto social" (Jodelet, 2001, p. 36). Esse conhecimento é do senso comum, portanto ingênuo. É sempre uma representação "de" ou "sobre" um objeto, que pode ser real ou não, uma pessoa, ideia, coisa etc. que será constituído simbolicamente (Jodelet, 2001). Assim, as representações não são apenas um reflexo da realidade, mas são as suas organizadoras (Abric, 1994).

De acordo com Abric (2000), as representações sociais estão ligadas com o processo de comparação social. Em suma, "os grupos sociais têm representações deles mesmos, assim como têm representações da posição que ocupam em relação a outros grupos" (Deschamps & Moliner, 2009, p. 135).

Entendendo o que são representações sociais e sua construção, Jodelet (2017) apresenta um vínculo entre elas e a religião. Em seu trabalho, a autora explica que as crenças, compondo as religiões, são teorias ingênuas, "representações do senso comum" (p. 499). Assim, representação social religiosa é o universo consensual do objeto social religião.

Para que se forme uma representação religiosa, não basta existir uma crença individual, mas aderida por todos em um coletivo, podendo variar em cada religião. Jodelet (2017), partindo da contribuição de Simmel, explica que as formas de vida, fatos da sociedade ou questões relativas à humanidade participam de objetos sociais levados à transcendência, explicando a aderência a crenças religiosas e doutrinas. Portanto, as crenças religiosas coletivas associam-se às representações.

Nos processos para a formação de novas representações sociais, há influência de ideias do passado, continuamente ativas no presente. As representações já existem antes de nós e continuarão a existir após a sociedade vigente. Muito do que se é percebido está pautado em relação a ideias prévias, passadas. A memória social, entendida como as representações passadas que perpassam gerações, está solidificada e traz segurança para que não ocorram mudanças súbitas ou bruscas nos grupos sociais. É dessa memória que a sociedade empresta as imagens para tornar o não familiar em algo conhecido (Moscovici, 2007).

Barros (1989) explica que, a partir das conclusões de Durkheim sobre o ser humano como resultado do meio, Halbwachs (1980) inicia seus estudos sobre a memória como fenômeno social, percebendo o importante papel dos grupos na evocação das lembranças. É um conjunto de pensamentos do passado que o grupo ainda mantém consciente no presente (Halbwachs, 1980). Sá (2007) complementa essa definição afirmando que não se trata de reproduzir o que se experienciou no passado, mas, a partir da realidade presente, do pensamento social hegemônico e da sociedade vigente, a memória é uma construção que vem do passado e tem o apoio do agora. Uma lembrança não tem como ser construída de maneira neutra. Ela existe porque o indivíduo possui um repertório social (Halbwachs, 1980).

O grupo religioso procura manter aquilo do passado que o fundou, mas sem deixar de lado as especificações do tempo histórico em que vive no presente, adaptando e preservando as características fundamentais. Nesse processo, os valores do grupo são comunicados (Moraes & Santos, 2018).

Halbwachs (1980) compreende que o contínuo pertencimento ao grupo (identidade social) em que ocorreu um evento facilita a fixação da lembrança na mente. Portanto, as gerações mais atuais recebem influência das décadas passadas, mesmo que de forma inconsciente ou mesmo que fora do convívio direto com pessoas de sua linhagem, devido às várias representações do passado no presente.

Barros (1989) explica que, para ocorrer a ligação entre as gerações, há os mediadores, prosseguindo com a identidade do seu grupo. Assim, uma geração passa para seus descendentes, no convívio familiar, as vivências do passado. Dessa forma, a família possui um papel fundamental na reconstrução de tempos anteriores e recordações. No tempo presente o passado é percebido com lentes atuais, influenciado pela sociedade atual, construindo representações atuais (Barros, 1989).

A relação entre memória social, ancestralidade e religião pode ser vista no estudo de Zaro (2016) que mostrou a transmissão da religião através da família em quatro culturas diferentes, mas que convivem na mesma cidade, de Padua. Observou-se que a família tem um papel importante na transmissão das crenças e comportamentos religiosos às gerações seguintes. O mesmo autor, Zaro (2016), explica que a memória social religiosa liga os costumes e crenças passados com a modernidade, processo que é explicado por Barros (1989) em que o passado é percebido com lentes atuais, reconstruindo os tempos anteriores.

Se tratando de um estudo brasileiro sobre a relação da religião com a memória social familiar, Moraes e Santos (2018) mostram que a identidade pentecostal do Brasil utiliza-se de elementos que constroem a memória coletiva, com o objetivo de perpetuar-se para as gerações seguintes e, ao mesmo tempo, essa é uma prática da cultura bíblica, já implicada na memória social atual. Ainda abordando estudos da religião no Brasil, encontra-se o de Lara (2016), em que apresenta a memória social religiosa através da criação da principal igreja de um município do Mato Grasso do Sul relacionada com processos identitários na formação e desenvolvimento do local onde está localizada. Salienta que a história da igreja e da cidade se mesclam, estando ligadas à memória.

No Brasil, o carnaval é uma festa típica e popular. Dessa forma, a Bahia apresenta essa festividade de maneira marcante. Silva e Farias (2019) realizaram um estudo nessa região do país mostrando a memória religiosa como importante aspecto na construção da identidade de movimentos negros no Brasil relacionados a representações culturais, como o carnaval, uma vez que os grupos carnavalescos ligam-se às religiões de matriz africana.

A partir das teorias expostas, por conta da significativa parcela da população brasileira que se identifica com alguma religião e por se tratar de um tema que está presente no cotidiano, seja de forma direta ou indireta, o objetivo geral deste artigo é compreender como a memória social influencia na construção da representação religiosa de grupos religiosos não hegemônicos.

Método

Essa pesquisa conta com uma amostra composta por 36 indivíduos, maiores de idade que se identificam como adeptos do espiritismo ou do candomblé ou ateus. A análise de conteúdo se deu com 12 participantes por grupo. Estes foram divididos em três grupos: espíritas (8 mulheres e 4 homens), candomblecistas (8 mulheres, 3 homens e 1 pessoa que desejou não se identificar) e ateístas (2 mulheres e 10 homens). Os espíritas apresentam idade média de 49,25 (DP= 10.11), os candomblecistas 37,58 (DP= 10.81) e ateístas 35,16 (DP= 7.60).

A coleta de dados estendeu-se de junho de 2023 a novembro do mesmo ano. Como foi realizada de forma online e pelo método bola de neve, os participantes foram de diferentes cidades do Brasil, contemplando o norte, nordeste, centro-oeste, sul e sudeste. Em relação a autoidentificação racial, a amostra foi composta por: Espíritas - 2 pardos e 10 brancos; católicos - 4 pardos, 1 preto, 4 brancos, 1 amarelo; candomblecistas - 4 pardos, 3 pretos, 5 brancos; ateus - 1 pardo, 3 pretos, 8 brancos.

Aplicou-se um questionário sociodemográfico e religioso, visando caracterizar os participantes da pesquisa considerando: gênero, religião, idade, cidade onde vive, ideologia política e identificação racial. Para a coleta de dados elaborou-se uma entrevista de caráter semiestruturado focalizada.

Uma vez que concordou em participar, a entrevista era agendada, sempre de maneira remota, através do aplicativo Zoom, sendo feita por chamada de vídeo.

No final de cada entrevista, o participante era convidado a indicar uma nova pessoa para participação, até que o número de participantes se completasse seguindo a técnica de bola de neve, ou seja, uma técnica não probabilística.

As perguntas da entrevista abordaram aspectos da religiosidade da família de origem enquanto presente ou fora de casa; perguntas sobre as próprias experiências e motivos da mudança ou permanência na religião; além de perguntas sobre as características e aspectos da religião que pertence e do conceito de religião. O objetivo dessa entrevista foi identificar, além do questionário sociodemográfico, as representações religiosas dos indivíduos participantes e a relação do grupo com a religiosidade de seus ancestrais: pais e avós.

No final de cada entrevista, o participante era convidado a indicar uma nova pessoa para participação, até que o número de participantes se completasse. Posteriormente, transcreveu-se integralmente o áudio gravado das entrevistas.

O envolvimento ocorreu a partir do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Além da coleta da entrevista, já apresentada, aplicou-se um questionário sociodemográfico e religioso, visando caracterizar os participantes da pesquisa considerando: gênero, religião e idade.

Os dados dessa transcrição foram analisados com base na análise de conteúdo temática de Bardin (1977). Realizou-se a codificação, dividindo os discursos em Unidades de Conteúdo (UCs): partes da fala que trazem significado. As UCs foram organizadas em temas, agrupados em metatemas e, por último, esses foram reunidos em categorias, para otimizar a leitura e elaboração dos resultados, seguindo uma lógica de classificação (Bardin, 1977).

Resultados

O material foi dividido em 3.389 Unidades de Conteúdo (UCs), agrupadas em temas, subsequentes metatemas e, por fim, categorias (Tabela 1).

Tabela 1: Frequências absolutas de categorias da análise de conteúdo das entrevistas de espíritas (N=12), candomblecistas (N=12) e ateus (N=12). 

O grupo 1, os espíritas, totalizou 1046 UCs, que foram agrupadas em 8 categorias: percepções da religiosidade, do espiritismo e da igreja, influências ao grupo do pensamento social hegemônico, crenças e experiências místicas, influências familiares e intergeracionais ao grupo, religião direcionando o comportamento, mudanças de perspectiva relacionadas à religião, representações como orientação, cautela com a identidade religiosa.

Os candomblecistas totalizaram 858 UCs, agrupadas em 9 categorias: percepções relacionadas ao candomblé, percepções relacionadas à outras religiões, percepções relacionadas à religiosidade, influências familiares e intergeracionais ao grupo, mudanças de perspectiva relacionadas à religião, influências ao grupo do pensamento social hegemônico, valores do grupo, religião direcionando o comportamento, crenças e experiências místicas.

Por fim, o terceiro e último grupo, representado pelos ateus, totalizou 805 UCs, agrupados em 8 categorias: influências familiares e intergeracionais ao grupo, percepções à religiosidade, influências ao grupo do pensamento social hegemônico, mudanças de perspectiva relacionadas à religião, valores do grupo, percepções ao endogrupo, experiências religiosas, influência político-social.

Seguindo uma lógica de comparação da diferenciação, na tabela 1 apresentam-se as categorias da Análise de Conteúdo das entrevistas de espíritas, candomblecistas e ateus, para facilitar a compreensão de suas similaridades e discrepâncias.

Observa-se que há influência familiar na formação religiosa dos dois grupos religiosos e ateus, porém em frequências variadas, apesar de se mostrarem quase sempre da mesma maneira com comportamentos, símbolos e envolvimento na religião. Isso é demonstrado nas categorias de cada grupo: “influências familiares e intergeracionais ao grupo”. Para os espíritas e candomblecistas, o metatema que mais apareceu foi "influência religiosa familiar positiva", com 83 e 58 UCs, respectivamente.

Observa-se que o maior motivo aparente para a mudança religiosa dos espíritas foi a experiência negativa com a religião anterior (26 UCs), enquanto para os candomblecistas foram os questionamentos de crenças e comportamentos da religião anterior (12 UCs), demonstrando avaliações negativas ao seu grupo de pertença precedente, como visto na categoria “mudanças de perspectiva relacionadas à religião”. Assim, a família tem um importante papel religioso, entretanto o fator determinante para a escolha da religião é a experiência pessoal e individual com o próprio grupo, visto que boa parte dos espíritas e candomblecistas (10 de 24, ou 42% dos entrevistados) se consideravam católicos anteriormente. Os demais estão distribuídos em outros grupos religiosos. É importante considerar também que o metatema “influência familiar religiosa negativa”, na categoria “influências familiares e intergeracionais ao grupo”, apresentou baixa frequência para os dois grupos, com 6 UCs para espíritas e 7 UCs para candomblecistas. Sendo assim, a percepção causada pela própria religião parece ter um peso maior na decisão religiosa do que a experiência familiar.

Quando os objetos sociais religiosos, como deus, religião, pecado, comportamentos, entre outros, fazem parte do modo de viver do grupo, a tendência é que os significados que os envolvem, a partir das representações, sirvam para preservar a imagem positiva do endogrupo (Bonomo, 2010). A imagem que os espíritas e candomblecistas expressam do próprio grupo é positiva, como visto nas categorias “percepções da religiosidade, do espiritismo e igreja” (213 UCs) e “percepções relacionadas ao candomblé” (89 UCs). Entretanto, ao introduzir o objeto “religião anterior”, essa imagem, que é do grupo de pertença anterior, é negativa para esses dois grupos, demonstrada por questionamentos às crenças e comportamentos e gerando uma experiência negativa. Isso pode ser visto na categoria “mudanças de perspectivas relacionadas à religião” (80 UCs) para os espíritas e “percepções relacionadas a outras religiões” (31 UCs).

No que diz respeito à mobilidade social dos grupos, os espíritas apresentam maior quantidade de UCs relacionadas à mudança de perspectiva, seguida pelos candomblecistas. Já para os ateus, destacam-se os questionamentos, a não identificação com grupo religioso anterior e a falta de sentido na religião, como observado na categoria “mudanças de perspectiva relacionadas à religião”.

Paralelamente, destaca-se e diferencia-se no grupo ateísta a influência religiosa familiar negativa e o sincretismo religioso, ambos mostrando efeito apenas no grupo ateísta, com suas altas frequências, como visto na categoria “influências familiares e intergeracionais ao grupo”. Neste artigo, o sincretismo religioso manifesta se por: diferentes religiões na família; trocas de religião que ocorreram no período da infância e adolescência dos participantes, proporcionando o contato com diferentes denominações; ou por membro da família envolver-se em mais de uma religião, paralelamente.

No caso dos ateístas, a família teve influência principal para a construção de uma imagem negativa do grupo de pertença, resultando na mobilidade social, evidenciando que a ancestralidade participa da construção da representação da religião dos sujeitos. Entretanto, alguns participantes ateus apontam não terem se sentido pertencentes à religião anterior, processo que somente ocorre com uma identificação a partir das relações que se estabelecem (Bonomo, 2010). Inclusive a não identificação durante a experiência religiosa foi um dos motivos apontados pelo grupo para o afastamento do grupo que integravam anteriormente.

Em relação à percepção que os grupos têm da religião como conceito, observadas a partir das categorias “percepção relacionadas à religiosidade” e “percepções da religiosidade, do espiritismo e igreja”, os grupos religiosos avaliaram positivamente a religião, superando as percepções negativas, com exceção dos ateus. O grupo ateísta apresenta, majoritariamente, uma percepção negativa da religião como conceito, apesar de admitir a importância social que ela representa. Os espíritas avaliam a religião como dispensável, a partir da categoria “cautela com a identidade religiosa” e valorizam o aspecto racional dela, em detrimento do emocional. O grupo indica que uma “boa religião” precisa levar ao raciocínio, através de conhecimento, estudo e entendimento, sendo isso mais importante que os ritos. Pode ser constatado pelas falas: “(a religião) precisa ser raciocinada, uma fé raciocinada” (Participante 79) e “(Se não for raciocinada) você pode entrar num embuste” (Participante 79).

O exclusivismo religioso não se destaca no espiritismo e no candomblé, pois se consideram como mais relevantes, mas não como únicos caminhos possíveis, como visto no tema “todas as religiões levando para o mesmo lugar”. Sobre a percepção do endogrupo, os participantes dos três grupos fazem uma boa avaliação do seu grupo de pertença.

Quanto às influências do pensamento social hegemônico na religião, nota-se essa expressão em todos os grupos. Observa-se que o pensamento social hegemônico, além da família, influencia na construção da identidade religiosa, com destaque dos grupos à influência do pensamento católico. Há baixa influência da região de nascimento familiar na construção da identidade social religiosa. A influência dos povos ascendentes também é baixa em todos os grupos. Referente às questões sociais, a análise aponta que os grupos religiosos e ateus enfrentaram experiências de preconceito, com destaque em frequência de UCs para os candomblecistas.

Como visto a partir dos relatos, as representações de um ser superior, das doutrinas que se diferenciam, do que representa o bem e o mal e representações da liberdade são exemplos de conteúdos de significados para os grupos, somados à própria categorização, aparentando explicar as experiências de preconceito vividas.

O grupo ateísta apresenta uma fonte de influência exclusiva, diferenciando-o dos demais grupos. Fatores políticos, sociais e envolvidos no campo acadêmico são observados como cruciais ao desenvolvimento da identidade social ateísta. Isso não quer dizer que nos demais grupos não haja essa influência. Entretanto, a partir das falas dos entrevistados isso se tornou evidente apenas para os ateus. Isso pode ser exemplificado com: “Ateísmo, ele veio numa perspectiva política” (Participante 17) e “(...) fui meio migrando para uma convicção de que tinha uma construção política” (Participante 18).

Quando convidados a refletirem sobre as atitudes e comportamentos religiosos, os participantes destacam que as respectivas religiões direcionam os comportamentos do grupo e também dos seus familiares. Porém, os candomblecistas são pouco expressivos em relação aos comportamentos, possivelmente por serem segredos da religião, dando destaque para os símbolos religiosos e ao envolvimento nos terreiros. Há pouca referência da transmissão desses ensinamentos para a geração seguinte aos entrevistados. Da mesma forma, a identidade social ateísta também influencia os comportamentos do grupo, ganhando destaque a cautela ao expressar a própria identidade e o religioso, para entender o que não se é, visto na categoria “experiências religiosas” (48 UCs).

Além das condutas, os valores do grupo de pertença também são internalizados, como visto nas categorias “representações como orientação” e “valores do grupo”. Para os espíritas, há destaque para os valores aprendidos através da religião, principalmente relacionados à valorização do próximo. Para os candomblecistas, também são abordados com maior frequência os valores envolvendo o próximo e aqueles aprendidos na religião. Mais uma vez, os valores relacionados ao próximo são prioritários para os ateus, porém com destaque aos aprendizados familiares.

Os espíritas abordam grandes manifestações sobrenaturais e o contato com espíritos. A vida após a morte também é um ponto importante. Para os candomblecistas, a conexão e submissão ao ser superior, sobrenatural, tem relevância, estando mais presentes no discurso do grupo as entidades e os orixás. Por fim, os ateus abordam o assunto apenas ao expressarem percepção negativa do ser superior pregado pelas religiões.

Discussão

A influência familiar positiva sustenta uma continuidade de uma vida religiosa, porém não a escolha da mesma religião dos antecessores, para espíritas e candomblecistas, mesmo a família se mostrando resistente para novas religiões, superando a frequência de liberdade religiosa por parte da família nos dois grupos religiosos. Já no estudo de Zaro (2016) observa-se o oposto. A influência da religião da ancestralidade, a partir da memória social familiar, é presente mesmo no convívio com grupos religiosos distintos. Isso também mostra os processos identitários formando e desenvolvendo o ambiente em que se vive, como no estudo de Lara (2016).

A partir dos estudos de Doise (1969), percebe-se que os conteúdos significantes aos membros do grupo resultam em discriminação. A representação que se tem do exogrupo justifica a posição desse grupo e o comportamento hostil direcionado a ele. Isso é explicado pela função de justificação das representações nas interações grupais (Doise, 1969).

De acordo com Moscovici (2007), as representações sociais são formadas por crenças e por conhecimento. O pensamento social hegemônico compartilhado e o convívio social geram experiências comuns e similares entre indivíduos que tornam os padrões de interpretação do mundo também similares. A partir desses dois convívios, os indivíduos do grupo ateísta construíram as suas representações da religião e de outros objetos sociais envolvidos, adquirindo a identidade social.

Isso corrobora com a ideia de que a identidade social norteia não apenas as crenças e atitudes dos indivíduos, mas também as suas ações, para que contribuam com o grupo (Reynolds, Branscombe, Subasic & Willis, 2020). Além disso, como apresentado no estudo de Moraes e Santos (2018), a identidade religiosa se utiliza de elementos da memória social, para que seja perpetuada.

Os grupos formam-se por valores e crenças que os tornam distintos dos demais. A partir do momento que os indivíduos se percebem pertencentes ao grupo, internalizam essas normas. Entretanto, desde o nascimento se pertence a mais de um grupo ao mesmo tempo. Isso indica que os valores podem ser aprendidos a partir de diferentes identidades sociais que se sobrepõem de maior ou menor maneira (Roccas & Brewer, 2002). A construção de diferentes identidades sociais é claramente percebida no estudo de Silva e Farias (2019), em que a identidade social racial é construída a partir da memória social religiosa, por conta das religiões de matriz africana e refletindo-se em movimentos negros no Brasil.

Dentro do campo religioso encontram-se diversos objetos sociais (França et al., 2020) e cada grupo religioso representa as experiências místicas valorizando um ponto específico que o diferencia, visto que cada grupo constrói a religiosidade de maneira singular (Machado et al., 2020). Gomes e colaboradores (2023) explicam que o transcendente torna-se uma realidade e, por isso, influencia nas atitudes dos grupos no cotidiano.

Percebe-se a função identitária das representações sociais, interligadas ao processo de comparação social (Deschamps & Moliner, 2009).

Conclusão

Esta pesquisa ofereceu uma análise da influência da história familiar na construção da representação religiosa de grupos religiosos não hegemônicos. Os resultados demonstraram que a família desempenha um papel importante, mas não exclusivo, na formação dos grupos. Além da família, fatores como instituições religiosas, o pensamento social hegemônico e questões político-sociais emergiram como influências significativas, apesar de variarem em frequência e significância entre os grupos. Este achado desafia a noção simplista de que a é meramente o ambiente familiar que influencia na forma como a religião e outros objetos sociais religiosos são representados, destacando a complexidade e multifatorialidade religiosa no contexto brasileiro.

A análise de conteúdo demonstrou também como as representações sociais da religião e de outros objetos sociais que a envolvem estão diretamente relacionadas com a identidade dos grupos, moldadas não apenas pelas crenças familiares, como por outros fatores sociais. Isso sugere que a identidade religiosa é um fenômeno fluido, influenciado por uma constelação de forças sociais. Essa descoberta tem implicações significativas para a compreensão da religiosidade no Brasil, onde a religião desempenha papel central na vida social e em uma cultura em que, muitas vezes, se considera apenas como função dos pais a educação religiosa.

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Declaração do contributo dos autores GB, RM e TR contribuíram no desenho, implementação da investigação e análise dos resultados, AM na análise dos resultados e na escrita do manuscrito junto com o apoio do resto dos autores. Todos os autores discutiram os resultados e contribuíram para a versão final do manuscrito.

Disponibilidade de dados O conjunto de dados que suporta os resultados deste estudo não está disponível.

Editor/a de sección La editora de sección de este artículo fue Pilar Bacci. ORCID ID: 0000-0002-6611-1905

Recebido: 21 de Março de 2024; Aceito: 04 de Outubro de 2024

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