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Psicología, Conocimiento y Sociedad

On-line version ISSN 1688-7026

Psicol. Conoc. Soc. vol.15 no.1 Montevideo  2025  Epub Dec 01, 2025

https://doi.org/10.26864/pcs.v15.n1.10 

Artigo de Investigação

“Favelado ajuda favelado": Expressões de Resiliência Comunitária durante a pandemia de Covid-19

“Favelados helping favelados": Expressions of Community Resilience during the Covid-19 pandemic

“Favelados ayudando a favelados”: Expresiones de resiliencia comunitaria durante la pandemia de Covid-19

Aline Ribeiro da Silva1 
http://orcid.org/0000-0001-5503-9306

Maria Angela Mattar Yunes1 
http://orcid.org/0000-0002-4653-3895

Celia Regina Nonato da Silva Loureiro1 
http://orcid.org/0000-0002-5842-2076

Ana Maria Nunes El Achkar1 
http://orcid.org/0000-0003-1628-1006

1Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), Brasil Autora referente: anaelachkar@yahoo.com.br


Resumo:

O estudo teve como objetivo geral compreender os indicadores de resiliência comunitária, estratégias de enfrentamento e práticas de prevenção adotadas por moradores de uma favela da Zona Norte do Rio de Janeiro, com e sem representação de liderança na comunidade, durante a pandemia de COVID-19. Os objetivos específicos foram avaliar o impacto dessa situação na qualidade de vida e propor intervenções eficazes para futuras crises. A amostra foi composta por 7 participantes adultos, 3 mulheres e 4 homens, com idades entre 18 a 90 anos. Os dados foram coletados a partir da inserção ecológica com observações naturalísticas sistemáticas, diário de campo e entrevistas semiestruturadas. As analises seguiram os princípios da Grounded Theory. Os resultados evidenciaram dois eixos primordiais: a) Sentimentos e percepções dos moradores acerca da pandemia, a exemplo do medo das consequências advindas da doença e b) Estratégias comuns de enfrentamento durante a pandemia como: criatividade, redes de soluções, colaboração e solidariedade e a busca de suporte familiar. A solidariedade foi identificada como um dos elementos que mais contribuiu para que os moradores pudessem lidar com as consequências da COVID-19. Destaca-se a capacidade da comunidade de transformar a crise em oportunidade. Espera-se que as reflexões sobre resiliência comunitária em situação de pandemia suscitadas nesse estudo possam contribuir para o desenvolvimento de novas pesquisas em situações similares e auxiliar na criação de políticas públicas inclusivas, bem como questionamentos a visões estigmatizantes.

Palavras-chave: Resiliência comunitária; covid 19; pandemia; favela

Abstract:

The aim of the study was to understand the indicators of community resilience, coping strategies and prevention practices adopted by residents of a North Zone of Rio de Janeiro, with and without leadership representation in the community, during the COVID-19 pandemic.The specific objectives were to evaluate the impact of this situation on quality of life and propose effective interventions for future crises. The sample consisted of 7 adult participants, 3 women and 4 men, aged between 18 and 90 years. Data was collected through ecological engagement with systematic naturalistic observations, field diaries and semi-structured interviews. The analysis followed the principles of Grounded Theory. The results showed two main axes: a) Residents' feelings and perceptions about the pandemic, such as fear of the consequences of the disease and b) Common coping strategies during the pandemic, such as creativity, networks of solutions, collaboration and solidarity and the search for family support. Solidarity was identified as one of the elements that most helped residents cope with the consequences of COVID-19. The community's ability to turn crisis into opportunity stands out. It is expected that the reflections on community resilience in a pandemic situation contribute to the development of research in similar situations and offer support to the creation of inclusive public policies, as well as challenge stigmatizing views.

Keywords: Community resilience; covid 19; pandemic; favela

Resumen:

El objetivo general del estudio fue comprender los indicadores de resiliencia comunitaria, estrategias de afrontamiento y prácticas de prevención adoptadas por residentes de una favela de la Zona Norte de Río de Janeiro, con y sin representación de liderazgo en la comunidad, durante la pandemia de COVID-19. Los objetivos específicos fueron evaluar el impacto de esta situación en la calidad de vida y proponer intervenciones efectivas para futuras crisis. La muestra estuvo compuesta por 7 participantes adultos, 3 mujeres y 4 hombres, con edades comprendidas entre 18 y 90 años. Los datos fueron recolectados desde la inserción ecológica con observaciones naturalistas sistemáticas, diarios de campo y entrevistas semiestructuradas. Los análisis siguieron los principios de la Teoría Fundamentada. Los resultados resaltaron dos ejes principales: a) Sentimientos y percepciones de los residentes sobre la pandemia, como el miedo a las consecuencias derivadas de la enfermedad y b) Estrategias comunes de afrontamiento durante la pandemia como: creatividad, redes de solución, colaboración y solidaridad y la búsqueda de apoyo familiar. La solidaridad fue identificada como uno de los elementos que más contribuyó a que los residentes pudieran afrontar las consecuencias del COVID-19. Destaca la capacidad de la comunidad para transformar la crisis en oportunidad. Se espera que las reflexiones sobre la resiliencia comunitaria en situación de pandemia planteadas en este estudio puedan contribuir al desarrollo de nuevas investigaciones en situaciones similares y coadyuvar en la creación de políticas públicas inclusivas, así como cuestionar visiones estigmatizadoras.

Palabras clave: Resiliencia comunitária; covid 19; pandemia; favela

É consenso que a pandemia de COVID-19 marcou um ponto de virada significativo na história. Desde o seu anúncio oficial pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em março de 2020, os impactos dessa crise global têm sido profundamente sentidos em todos os aspectos da vida humana. Aspectos como saúde pública, economia, educação, relações sociais e políticas foram transformados de maneiras sem precedente. É importante reconhecer que as respostas à pandemia foram amplas, para além de ações governamentais. Há registros que processos muito menos ordenados refletiram a complexidade, incerteza, contingência e especificidade do contexto, exibindo iniciativas de equidade, diversidade, cuidado e políticas inclusivas (Leach, MacGregor, Scoones y Wilkinson, 2021).

Nesse cenário, pode-se verificar que as comunidades mais pobres e menos favorecidas vivenciaram situações desafiadoras impostas pela pandemia da COVID-19. Estudos e análises realizados no Brasil destacam que as comunidades que dependiam de empregos informais ou precários foram severamente afetadas pelas medidas de restrição para conter a propagação do vírus (Costa, 2020). Além disso, as desigualdades estruturais preexistentes, como acesso limitado a moradia adequada, saneamento básico e serviços de saúde de qualidade, tornaram essas comunidades ainda mais vulneráveis aos impactos da pandemia (Rodrigues, 2021). Segundo os últimos registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024), o Brasil possui mais de 10 mil favelas e comunidades urbanas, onde concentram um número importante da população brasileira. Esses números destacam a significativa presença das favelas e comunidades urbanas no Brasil. Mesmo diante da complexidade desses territórios, ainda é possível identificar ações potentes e comportamentos comunitários que exemplificam como algumas comunidades se organizam coletivamente para lidar com situações tão adversas (Braga, Romeiro Filho, Mendonça, de Oliveira y Pereira, 2020; Silva, Yunes y Ackhar, 2024).

O interesse em aspectos comportamentais positivos dos indivíduos em situação de vulnerabilidade social surgiu a partir dos estudos da Psicologia Positiva, que preconiza uma nova forma de investigação, cuja atenção se volta para as forças e virtudes de indivíduos, famílias e grupos (Yunes, 2015). Entretanto, os estudos relacionados ao fenômeno da resiliência, um dos construtos mais estudados pela psicologia, precede o movimento da Psicologia Positiva (Yunes, 2015). Inicialmente, os cientistas sociais se interessaram em entender as expressões de resiliência nos indivíduos e suas características e traços pessoais, como as habilidades de enfrentamento, redes de apoio e modos de lidar com as adversidades e estresses de maneira eficaz (Yunes, 2015). Com os desdobramentos dos estudos, a resiliência passou também a ser investigada em famílias, instituições e comunidades (Juliano y Yunes, 2018; Ojeda, 2005). Resiliência é definida por um conjunto de processos pelos quais pessoas, famílias e comunidades que enfrentam situações adversas, conseguem se adaptar, se recuperar e até mesmo se fortalecer diante dos riscos e desafios (Yunes, 2015). Esses processos envolvem uma variedade de estratégias e recursos que ajudam a mitigar os efeitos negativos das adversidades e promovem a capacidade de lidar com elas de maneira eficaz (Ojeda, 2005). Com essa mesma lógica conceitual, a resiliência comunitária emerge no cenário das investigações para tratar processos que permitem às comunidades enfrentar as dificuldades de modo coletivo e alcançar um bem comum para todos (Bonanno, Romero y Klein, 2015; Leykin, Lahad, Cohen, Goldberg y Aharonson-Daniel, 2013; Silva et al., 2024). Desta forma, resiliência comunitária busca explicar como as comunidades enfrentam e se adaptam positivamente e com colaboração coletiva às adversidades que atingem a comunidade (Achkar y Yunes, 2020; Norris, Stevens, Pfefferbaum, Wyche y Pfefferbaum, 2008; Oliveira y Morais, 2019; Silva et al., 2024).

Para explicar como acontece o fenômeno social, cultural e político nas comunidades vulneráveis, Néstor Ojeda aponta cinco pilares da resiliência comunitária. Fornece, assim, valiosos insights para o desenvolvimento de políticas e práticas que fortaleçam as comunidades em toda a América Latina. O conceito Solidariedade se refere às estratégias coletivas adotadas pelos membros da comunidade para alcançar resultados positivos em conjunto. Isso inclui o apoio mútuo, colaboração e trabalho em equipe para enfrentar desafios comuns. Autoestima coletiva é o sentimento de orgulho e valorização que os membros da comunidade têm em relação ao local onde vivem. Uma autoestima coletiva forte pode fortalecer o senso de pertencimento e motivação para enfrentar adversidades. Identidade cultural, por sua vez, envolve a expressão da identidade e valores culturais únicos da comunidade. Uma forte identidade cultural pode fornecer um senso de coesão e identidade compartilhada, que pode fortalecer a resiliência da comunidade. Já o Humor social diz respeito ao modo como o humor é usado e manifestado dentro da comunidade, especialmente em tempos de crise. O humor pode ser uma ferramenta poderosa para aliviar o estresse, promover o apoio social e manter uma perspectiva positiva, mesmo diante de desafios. A Honestidade estatal representa a confiança e integridade dos políticos e gestores que representam os interesses públicos e governamentais. A honestidade estatal é importante para garantir que as comunidades tenham acesso a recursos e serviços necessários de maneira justa e transparente, especialmente em tempos de crise (Ojeda, 2005).

Estudos anteriores identificaram diversas estratégias de enfrentamento da COVID-19 em comunidades periféricas do Rio de Janeiro (Braga et al., 2020; Fleury y Menezes, 2021). Esses mesmos autores destacaram a ampliação dos meios de comunicação para disseminar informações sobre a pandemia, a criação de equipes compostas por residentes e profissionais para apoiar a comunidade, e a organização de doações de alimentos e produtos de higiene. Adicionalmente, Braga et al. (2020) ressaltaram que o apoio mútuo emergiu como uma força significativa durante crises como a pandemia, evidenciando a importância da solidariedade em contextos adversos. Embora as favelas e comunidades vulneráveis enfrentem desafios significativos em situações adversas, como a pandemia de COVID-19, os estudos empíricos sobre resiliência comunitária nesses contextos ainda são escassos (Oliveira y Morais, 2019; Silva et al., 2024).

Diante dessa lacuna, o presente estudo teve como objetivo geral compreender os indicadores de resiliência comunitária, estratégias de enfrentamento e práticas de prevenção adotadas por moradores de uma favela da Zona Norte do Rio de Janeiro, com e sem representação de liderança na comunidade, durante a pandemia de COVID-19. Os objetivos específicos visaram avaliar o impacto dessas estratégias na qualidade de vida das pessoas envolvidas para propor intervenções eficazes para futuras crises. Para alcançar esses objetivos, a pesquisa buscou responder a três questões norteadoras: a) Quais foram os desafios mais significativos enfrentados pelos moradores dessas favelas durante a pandemia? b) De que maneira a comunidade reagiu a esses desafios? c) Quais foram as experiências vivenciadas pelos moradores? Essas questões a respeito das percepções, indicadores e elementos de resiliência comunitária em contextos de vulnerabilidade psicossocial, a exemplo das favelas cariocas, visam fornecer insights valiosos para a compreensão das dinâmicas sociais em tempos de crise, ampliando o conhecimento sobre como comunidades periféricas enfrentam situações extremas, bem como apontar intervenções mais eficazes. Esse estudo possui sua base teórico-metodológica alicerçada na Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano de Urie Bronfenbrenner (Bronfenbrenner y Morris, 1998) para analisar os contextos, fatores de risco e proteção, pois contempla o estudo do desenvolvimento integrando a compreensão dos aspectos da vida da pessoa, os ambientes dos quais participa e as relações que estabelece.

Método

A metodologia deste estudo foi projetada para capturar a complexidade e a singularidade vivida por uma comunidade de baixa renda da cidade do Rio de Janeiro, Brasil, durante um momento crítico da humanidade, que foi a pandemia da Covid-19 iniciada no ano de 2020. A escolha da população e o design do estudo foram guiados pela necessidade de entender como uma comunidade específica, com características peculiares responde a desafios em contexto de crise. O estudo foi conduzido por um modelo de estudo de caso qualitativo, descritivo e exploratório, focado em uma “favela” da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro durante as fases intermediárias da pandemia. Este desenho metodológico foi escolhido para possibilitar uma análise aprofundada das dinâmicas internas e das respostas da comunidade às emergências.

A seleção da favela foi fundamentada na sua representatividade como um exemplo intensivo de vulnerabilidade social e suas características específicas, como alta densidade populacional e restrições estruturais e econômicas. A familiaridade da pesquisadora com o território, adquirida ao longo de duas décadas de residência, permitiu um acesso privilegiado e uma compreensão mais profunda da realidade local. A coleta de dados foi realizada por meio da inserção ecológica e foi aplicada para garantir uma imersão e interação extensiva com a comunidade. A seleção dos participantes ocorreu por indicação aleatória de moradores da própria favela. Foram realizadas 10 visitas à comunidade e conduzidas 7 entrevistas com moradores e trabalhadores locais, selecionados aleatoriamente. Os dados foram complementados com registros em diário de campo, coletados entre janeiro e março de 2022. Essa abordagem proporcionou uma visão detalhada e situada das estratégias de enfrentamento e práticas de prevenção adotadas pelos moradores, permitindo uma análise crítica das respostas da comunidade ao impacto da pandemia.

Participantes

Participaram desse estudo 7 moradores de uma favela da Zona Norte do Rio de Janeiro, 4 homens e 3 mulheres. Foram utilizados os seguintes critérios de inclusão: Moradores e representantes de liderança na comunidade: trabalhadores de organizações governamentais e não governamentais (Morador líder - M/L), líder de bairro ou voluntário de projeto social na favela (Morador Agente social - M/AS) e moradores que não tinham trabalhos ligados à liderança (Morador residente - M/R); residentes há mais de 5 anos na favela; idades entre 18 e 90 anos. Critérios de exclusão: crianças e adolescentes de até 17 anos. Foram entrevistados 4 moradores com representatividade de liderança na favela: 2 eram trabalhadores de institutos/organizações não governamentais (M/L) e 2 eram agentes de saúde (M/AS). Todos alegaram exercer atividades no território há mais de 10 anos. Entre as participantes, 2 eram líderes comunitárias e tinham seu próprio instituto de promoção de saúde e educação. Um dos agentes trabalhava em um instituto voltado para comunicação, educação e luta de políticas públicas e a outra era agente de saúde do território. Os 3 demais participantes eram moradores sem trabalho ligado a liderança da favela, além de outros trabalhos que não eram voltados para ações sociais (M/R): 1 pedreiro, morador há mais de 50 anos; 1 auxiliar administrativo e morador há 34 anos; e outro, por fim, estava desempregado e morava no local há 33 anos. Informações sobre os participantes foram compiladas na tabela 1.

Tabela 1: Descrição dos participantes 

Instrumentos

Como instrumentos de coleta de dados foram utilizados: observações sistemáticas em ambiente natural, diário de campo e entrevistas semiestruturadas. As entrevistas foram individuais e feitas pela autora na favela pesquisada em local escolhido pelo entrevistado. As perguntas foram submetidas ao crivo da avaliação de seis juízes do grupo de pesquisa com formação na área temática e experiência em pesquisas qualitativas.

Procedimentos

Esse estudo foi submetido e aprovado pelo comitê de ética da Universidade Salgado de Oliveira através da Plataforma Brasil, número do parecer 5.176.120. Foi utilizado um gravador de áudio para armazenar os relatos e permitir transcrição e análise criteriosa. Antes de começar, foi pedido o consentimento do participante para a gravação. As entrevistas foram previamente agendadas por aplicativo de mensagens ou por alguma rede social e ocorreram de forma presencial, algumas realizadas no local de trabalho e outras nas residências dos participantes. No primeiro dia das entrevistas, foi entregue o Termo de Consentimento Livre Esclarecido para cada participante, e a pesquisadora permaneceu junto a cada participante para esclarecer todas as questões referentes à pesquisa. Observações e registros em diário de campo foram realizados nos dias das entrevistas e também em outros dias, preenchendo um total de 20 horas de inserção, cumprindo o rigor metodológico.

Análise dos dados

As entrevistas foram transcritas na íntegra, organizadas em uma planilha do Microsoft Office Excel ® e analisadas a partir de parâmetros de padrões de semelhanças e similitudes de sentidos e significados atribuídos pelos pesquisadores, sob a inspiração dos princípios metodológicos da Grounded Theory (Charmaz, 2009).

Resultados

A análise dos dados evidenciou dois eixos primordiais de análises: a) Sentimentos e percepções dos atores sociais acerca da pandemia: b) Estratégias comuns de enfrentamento durante a pandemia. A seguir serão explicitadas as categorias de análise que sustentam os referidos eixos.

Eixo temático I: Sentimentos e percepções dos atores sociais acerca da pandemia

O consenso nas percepções dos participantes convergiu para a seguinte categoria: Medo das consequências advindas da doença. Ou seja, todos apresentaram perspectiva acerca do medo da Covid 19.

O medo das consequências advindas da doença

Essa categoria reflete a angústia e a preocupação comum tanto dos moradores como dos líderes e agentes com relação ao vírus da Covid 19 e suas consequências. É fato documentado que a Covid era uma doença nova e desconhecida que gerou sofrimento psíquico em todas as populações do mundo devido às suas consequências e índices de fatalidades. Na favela pesquisada, essa sensação não foi diferente. Os entrevistados relataram que o medo estava diretamente associado aos riscos à saúde e precariedade ambiental do isolamento social, somadas às condições de despreparo da favela ao receber as primeiras notícias. Esse fato foi evidenciado nos comentários de atores sociais havendo alteração no tom de voz, nas expressões faciais de espanto e riqueza de informações sobre os medos relacionados à pandemia. Muitos moradores não tinham condições de comprar produtos de higiene e máscaras de proteção e alguns não podiam sequer pensar em fazer o isolamento social, pois tinham que trabalhar mesmo com as medidas decretadas pelo governo. Além disso, é importante destacar que, em grande parte da favela, os imóveis (casas e instituições) são construídos de forma aglomerada com pouca passagem de ar e com ruas e vielas estreitas para a circulação. Isso estava sistematicamente registrado no diário de campo sobre as dificuldades de mobilidade no cotidiano. Outra dificuldade enfrentada foi sobre o abastecimento de água, que não chegava até os moradores e exacerbava a sensação de desproteção e medo. As falas e as observações evidenciaram que a favela ficou refém da doença mesmo dentro de seus próprios lares, que deveriam ser refúgio de proteção. Entretanto, os líderes e agentes sociais foram os que mais argumentaram acerca das condições de infraestrutura para um isolamento social. As condições foram percebidas como precárias e temerosas, fora das normas de saúde recomendadas.

... Aí, tu tá aprendendo a lidar com a doença um pouco assustado, vendo maior número de contaminação e morte muito grande nos hospitais aqui no Brasil. A gente já não tem um atendimento muito bom, ainda mais nos hospitais públicos que tá sempre lotando... Da hora para outra, isso no momento causa um certo anseio, um certo medo, sabe? ... P4 M/AS,2022

A pandemia não deixa a pessoa, como eu vou dizer, assim à vontade demais. Porque a maioria das pessoas tem medo de pegar essa doença. Mas vamos levando do jeito que a gente pode... P2 M/R, 2022

Conscientização e sensibilidade acerca das necessidades da favela: expressa as divergências nos sentimentos e percepções dos participantes.

Os líderes/agentes revelaram conhecimento e atenção para com as necessidades da favela. Isso emergiu na ênfase dos relatos que sublinharam as dificuldades vividas e apresentaram críticas sociais sobre a ausência do Estado e a falta de recursos para a sobrevivência de todos.

A escassez e a precariedade da favela foram exemplificadas em aspectos macrossistêmicos tais como: falta de investimento em infraestrutura de moradia, sistema de saúde e educação. Os líderes/agentes sociais identificaram os riscos de contrair e lidar com as consequências da doença. Os mesmos apontaram que as dificuldades encontradas no território afloraram durante a pandemia e poderiam ter sido solucionadas. Porém, a favela não recebeu ações efetivas e necessárias de políticas públicas para reduzir ou minimizar os déficits. Conforme a fala das lideranças, até o momento das entrevistas, o Governo esteve ausente da comunidade. Esse dado também foi constatado e legitimado nas observações e registros no diário de campo, em todas as visitas durante as quais não se via a presença e apoio governamental com ações de prevenção da Covid-19.

Olha o desafio, muitos desafios. Eu acho que o maior deles foi a fome... A fome em muitos lares ela aumentou. Porque as pessoas não tinham onde buscar... As dívidas aumentou porque não tiveram como trabalhar buscar o teu sustento como ir para rua. Gente que ficou desempregada. Gente que perdeu a casa porque não teve como pagar o aluguel... P3 M/L,2022

Eu acho que desafio maior... foi com essa questão de manter a segurança alimentar, a questão do desemprego e a questão das pessoas entenderem que elas precisam usar máscaras... que elas precisam ter a questão do isolamento... P1 M/L, 2022

Eixo II: Estratégias comuns de enfrentamento à pandemia

Esse eixo apresenta manifestações de engajamento com estratégias coletivas e de solidariedade para lidar com as consequências da Covid 19. As Categorias desse eixo foram nomeadas como: Criando redes e soluções; Manifestações de colaboração e solidariedade entre os moradores; Exercícios de criatividade nos meios de comunicação; Buscando o suporte familiar e Aprendendo com as lições da pandemia.

Criando redes e soluções

Essa categoria apresenta as ações percebidas tanto pelos líderes/agentes sociais como por moradores para ajudar a favela. A dedicação das lideranças durante a pandemia foi importante para minimizar as consequências da crise sanitária. Todos relatam a colaboração e busca de diálogo com instituições de dentro e fora do território. Visou-se a união e fortalecimento das relações, para discutir e concretizar movimentos que pudessem garantir o básico e necessário para a população em situação de vulnerabilidade. A partir das observações e das anotações do diário de campo, foi possível identificar que os trabalhadores sociais expressaram sentimentos como felicidade ao destacar a colaboração e a movimentação das ONGs e Institutos em se associar num conjunto para auxiliar a favela.

Aí, eu acho que o povo foi guerreirão, a gente conseguiu construir junto encontros, se uniu com as instituições governamentais e não governamentais para dialogar. Foram solidários, criaram muitas estratégias para lidar com a questão do Covid. P1 M/L, 2022

Eu vi movimentação bastante de ONGs apenas, distribuição de cesta básica, auxilio gás. Algumas instituições estavam dando sim, mas sempre essas instituições não governamentais. Apoio desse lado. P7 M/R, 2022

Manifestações de colaboração e solidariedade entre os moradores

Essa categoria se refere à participação e união dos moradores em colaborar e ajudar reciprocamente, mesmo em situações de dificuldades. A fala de alguns participantes afirma que essa colaboração está enraizada na comunidade e vista como caraterística da favela. Ou seja, esse apoio de um para os outros, tal como divisão de alimentos, suporte para levar ao hospital e conselhos sobre a doença são recorrentes no cotidiano da vida em favela. Durante a pandemia, os moradores e as lideranças relatam comportamentos de engajamento e proatividade, como arrecadação de alimentos e auxílio para levar ao médico quando algum morador precisasse. A partir das observações, foi possível perceber a união entre os moradores como algo “natural” e comum no território. Os vizinhos são próximos uns dos outros e em alguns momentos eles circulam nos ambientes como se fossem da própria família. Isso não quer dizer que não haja respeito e preservação da privacidade de cada um. Esse fato não está apenas relacionado à estrutura física que favorece a proximidade, mas nos sentimentos e percepções acerca dos laços sociais e afetos que fazem parte da cultura e história da comunidade.

O favelado ajudando favelado é o que mais aconteceu. É gente se reunindo para poder levar uma cesta para um, levar comida para o outro ou levar uma ajuda para levar para o médico. O ponto é ajuda mútua entre nós mesmos, entendeu? P3 M/L, 2022

Ajudar, ajuda todo mundo aqui ajuda. Se uma pessoa adoece, todo mundo corre atrás para carregar a pessoa, para levar no médico. E liga para um, liga para outro. Espera na volta, também para pegar de novo a pessoa. Todo mundo, todos unidos aqui, graças a Deus. P2 M/R, 2022

Exercícios de criatividade nos meios de comunicação

Isso se refere às ações voltadas para a divulgação de informações verídicas e de amplo alcance para a favela. Apresentar conhecimentos sobre a doença, seus efeitos, estratégias de prevenção usando redes sociais, rádio comunitárias, carros de som e faixas foi visto como algo desenvolvido em conjunto. Diversos recursos foram adotados e disseminados pelas lideranças. Os líderes/agentes sociais e moradores permitiram arrecadar verbas para contratar carros de som e faixas durante o período da pandemia. Alerta sobre cuidados de higiene e isolamento sociais eram os principais temas dessas divulgações que percorriam todo o território para levar informação segura e eficaz para a comunidade.

Estratégia de informar com uso de carro de som. A instituição A. usou carro de som, alguns usou faixa. A instituição B. e a C. se reuniram com o grupo dele e alguns grupos para captação de doações e de distribuições, assim como a gente fez aqui... P4 M/AS, 2022

A associação de moradores passava um carro pedindo para ficar em casa, né... Tinha uma faixa, pedindo para ficar em casa e só sair em caso de muita extrema emergência. Pedindo para usar máscara... P5 M/AS, 2022

Eu vi movimentação bastante de ONGs apenas, distribuição de cesta básica, essas instituições, auxílio gás, algumas instituições estavam dando, sim, mas sempre dessas instituições não governamentais, apoio desse lado, buscando o suporte familiar... P7 M/R, 2022

Buscando o suporte familiar

“Buscando o suporte familiar” é uma categoria que demonstra a importância do apoio familiar que os líderes/agentes sociais e moradores receberam durante a pandemia. A partir das observações naturalísticas, constatou-se que os moradores e as lideranças moram próximos de seus familiares. Alguns vivem no mesmo quintal ou na parte superior de suas casas. A partir das falas, foi possível detectar o apoio instrumental de parentes no auxílio às despesas de casa como pagamento de aluguel, nos cuidados de saúde de um parente com Covid e nas tarefas domésticas do cotidiano. Isso demonstrou que as relações se estreitaram ainda mais por conta do isolamento social, evidenciando aqui também a dimensão da solidariedade entre as pessoas da favela.

.... Aí ficou só a renda para mim e minha mãe tendo que pagar o aluguel da minha irmã, comprar alimentação para casa dela. A gente recebeu algumas doações que passava para ela e para o meu sobrinho e às vezes tinha que fazer compra para três pessoas e acabou que meu dinheiro virou um só, praticamente... P4 M/AS, 2022

.... Eu tava com Covid, tava muito ruim né, só quem entrava, eu não sei como meu filho não pegou, porque ele foi o único que entrava que peitava e entrava no quarto né e como eu trabalhava na saúde eu falava fulano usa isso e isso para entrar no quarto. Então, fazia minha comida. Ele que levava minha água ficava me monitorando né... P5, M/AS, 2022

Aprendendo com as lições da pandemia

Tal categoria representa a percepção de alguns moradores e líderes sociais acerca das reflexões e lições que se tirou da pandemia. Como, por exemplo, a empatia, solidariedade e o comportamento altruísta diante do próximo ensinou que quando todos se unem se alcança um bem maior para todos. Mesmo diante de todos os desafios impostos e as consequências geradas pela Covid-19, os participantes apresentaram esperança e o aumento na sua vontade de aprender em situações de dificuldades. Isso foi identificado a partir das expressões e sentimentos de otimismo. Mais uma vez, a dimensão da solidariedade se revelou como elemento transversal da vivência da favela na pandemia.

Então a pandemia ela veio como lição para a gente aprender a ser mais humilde, ser mais solidário ter mais intenção um com outro e a solidariedade na favela foi Grande. P1 M/L, 2022

..., mas a pandemia trouxe esse novo advento, esse novo renovo de informação para a gente. Fez a maioria das pessoas se adaptarem inclusive as famílias de baixa renda, que talvez não tivesse acesso... P7 M/R, 2022

Discussão

O presente estudo teve como objetivo compreender os indicadores de resiliência comunitária, estratégias de enfrentamento e práticas de prevenção adotadas por moradores de uma favela carioca, durante a crise sanitária de COVID-19, além de avaliar o impacto dessas estratégias na qualidade de vida desses mesmos atores sociais. Os resultados evidenciaram processos que emergiram como um conjunto de capacidades adaptativas coletivas interligadas e vivenciadas por seus habitantes.

Os resultados encontrados acerca da experiência dos moradores durante a crise da Covid-19 destacaram características importantes de enfrentamento e colaboração solidária e positiva frente às adversidades que atingem a favela, aproximando-se assim das configurações apresentadas por estudiosos no campo da resiliência comunitária (Achkar y Yunes, 2020; Juliano y Yunes, 2018; Norris et al., 2008; Ojeda, 2005). Deve-se referir que este estudo tem como base o constructo de resiliência comunitária liderado pelos autores Ojeda (2005), da escola sul americana, e por Norris et al. (2008), o maior expoente da escola norte americana.

A princípio, apresentaram-se aspectos que caracterizam a favela para compreender o jogo de relações entre os atores sociais que podem favorecer ou limitar os processos de resiliência comunitária. Posteriormente, abordou-se reflexões mais aprofundadas sobre os eixos de análise gerados a partir das entrevistas e já apresentados nos resultados, a saber: a) Sentimentos e percepções dos atores sociais acerca da pandemia; b) Estratégias comuns de enfrentamento durante a pandemia.

As análises dos resultados do Eixo a) apontaram para a sensação de medo entre os moradores sobre as desconhecidas consequências da COVID-19. Tais sentimentos foram representados nas observações e nas narrativas dos atores sociais que apontaram: Medo do contágio, da gravidade da doença e do risco iminente de morte. A expressão de medo pode ser capturada nas falas que acusam a falta de condições em cumprir as determinações das autoridades sanitárias, as chamadas medidas protetivas. Como se proteger em um regime de tantas violências que machucam, limitam oportunidades de trabalho, reduzindo as chances de sobrevivência? Esses achados corroboram com pesquisas anteriores (Bustos, 2020; Lima et al., 2020; Kimhi, Marciano, Eshel y Adini, 2020), que também destacam o medo e a insegurança em contextos de crise sanitária. No entanto, esses e outros sintomas psíquicos ou físicos (Bustos, 2020) se evidenciaram no microssistema, onde as relações proximais acontecem, conforme comprovam os depoimentos dos atores sociais da favela pesquisada.

Ademais, a pandemia da Covid 19 evidenciou a desigualdade social e o descaso dos governantes no que tange às garantias de direitos básicos para a vida com dignidade da população das comunidades periféricas (Corrêa, Moura, de, Almeida y Zirbel, 2021). A favela se organizou como pôde para enfrentar o vírus com: a suspensão das atividades laborais, fechamento de escolas, academias, instituições de saúde e igrejas, mudanças nas rotinas e hábitos.

No Eixo b), as análises identificaram estratégias de enfrentamento que, conforme Ojeda (2005), ilustram a resiliência comunitária em ação durante a crise sanitária da Covid 19. Ao encontro do que diz Ojeda (2005), a solidariedade intracomunitária se destacou como um pilar crucial durante a pandemia. As categorias de análise das falas dos atores sociais demonstram um forte senso de coletividade expresso por: ajudar-se mutuamente com alimentos, suporte emocional e auxílio em questões de saúde. Essas práticas refletem a capacidade das comunidades de transformar adversidades em forças coletivas, alinhadas com a concepção de resiliência comunitária proposta por Ojeda (2005) e Achkar e Yunes (2020). As categorias criando redes e soluções e manifestações de colaboração e solidariedade entre os moradores ilustram a solidariedade presente durante a pandemia da Covid 19 e mostram o engajamento e proatividade dos atores sociais em alcançar estratégias. Além disso, os recursos identificados nos relatos dos participantes revelaram a intenção de atender a todos da favela, apontando como as ações das lideranças e dos agentes da comunidade local importam. Tais ações proporcionam a redução de riscos, mesmo em ambientes insalubres do território.

Os comportamentos de solidariedade, empatia e altruísmo, identificados a partir dos relatos dos participantes, transcritos em muitas fases das análises e das observações decorrentes da inserção ecológica, reiteram a condição de que ações comunitárias importam. Na perspectiva dos atores sociais, tais ações são compreendidas como fator de qualidade da própria comunidade.

Vale destacar a força da expressão utilizada por uma participante: “Favelado ajudando favelado”. A força dessa afirmativa explicita a tradição solidária da favela em ajudar reciprocamente. A convicção da participante reafirma os conceitos desenvolvidos por Ojeda (2005) e identifica o legado em manter a tradição do sentimento de solidariedade como um valor da comunidade que legitima a identidade coletiva. Segundo Ojeda (2005), a identidade coletiva refere-se a valores e costumes da cultura de uma comunidade. Tais ideias contribuem para que se possa enfrentar as adversidades utilizando recursos da própria cultura. Essas práticas se aproximam do conceito de capital social, um dos elementos significativos de resiliência comunitária.

De acordo com Norris et al. (2008), capital social refere-se as conexões e relacionamentos com a cultura e a comunidade, a comunicação e colaboração nas relações recíprocas e coletivas entres os membros da comunidade. A categoria Exercícios de criatividade nos meios de comunicação detalha o quanto a informação e comunicação segura são veículos fundamentais e necessários de orientação, esclarecimento e prevenção de novas consequências desastrosas. A criatividade nos meios de comunicação proporcionou a redução dos impactos causados pelo vírus na favela. Os alertas sobre a doença, higienização e pedido para que os moradores permanecessem em casa contribuíram para precaução e minimização dos impactos na saúde dos moradores da comunidade. Os resultados apresentados estão em consonância com os estudos de Norris et al. (2008) acerca da informação e comunicação como um dos elementos da resiliência comunitária. Esses achados dialogam com pesquisas em situações de epidemias, pandemias e da Covid 19 em comunidades de outros continentes (Alonge et al., 2019; Yip, Ge, Ho, Heng y Tan, 2021; Zhang, Zhao, Liu y Chen, 2021). O suporte familiar também emergiu como uma rede de segurança vital, destacando a coesão social como outro elemento essencial na resiliência comunitária (Norris et al., 2008).

Os resultados dessa pesquisa convergem com outras pesquisas em comunidades periféricas em situações de epidemia /pandemia. Na epidemia do vírus ebola, na África, as ações dos líderes locais foram significativas, pois contribuíram para que a comunidade enfrentasse a doença (Alonge et al., 2019). Já na China, as ações do governo em prol de fortalecimento das instituições não governamentais possibilitaram levar recursos às comunidades mais pobres (Zhang et al., 2021). O engajamento de lideranças pode auxiliar e apoiar as comunidades vulneráveis, pois a relação que eles estabelecem com a comunidade é fluída, devido o conhecimento que têm acerca do território e das necessidades dos moradores. Tais elementos proporcionam ações efetivas, reduzindo os riscos vivenciados no contexto de pandemias ou de desastres.

A ausência de políticas públicas eficazes e o insuficiente apoio governamental foram apontados pelos participantes, evidenciando deficiências que destacam a falha do Estado em garantir direitos básicos e refletem uma visão crítica sobre a relação entre desigualdades estruturais e respostas comunitárias (Corrêa et al., 2021).

Para além das questões atuais, as favelas e comunidades periféricas convivem com surtos epidêmicos, devido à precariedade sanitária e a falta de água nesses territórios (Rodrigues, 2021). Tais condições são propícias à proliferação de mosquitos da espécie Aedes, vetor de doenças como a dengue, febre amarela, chinkungunya e zika vírus, fator de risco para a população (Rodrigues, 2021). Decerto que o investimento em políticas públicas pode constituir ciclos de feedback positivo que facilitam processos de resiliência no âmbito da comunidade ou ciclos negativos que podem restringir os resultados emergentes (Bento y Couto, 2021).

A resiliência comunitária, tal como observada nesta favela, vai além da mera adaptação e inclui aspectos de resistência e transformação, que desafiam a narrativa dominante que muitas vezes estigmatiza essas comunidades (Ojeda, 2005). Reconhecer e questionar essa visão marginalizada é essencial para promover uma compreensão mais justa das favelas e das comunidades que nelas vivem.

Considerações finais

É interessante ver como os achados do estudo corroboram com as manifestações de solidariedade identificadas por Nestor Ojeda em estudos anteriores e destacam a importância da resiliência comunitária e do engajamento dos atores sociais na busca por soluções positivas em momentos de crise.

Este estudo oferece uma contribuição significativa para a compreensão da resiliência comunitária em contextos de vulnerabilidade, como nas favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia de COVID-19. Ao questionar a visão tradicional de resiliência como adaptação passiva, a pesquisa destaca a agência das comunidades marginalizadas na criação de novas formas de ação coletiva que desafiam estruturas opressivas e promovem mudanças sociais. Essa abordagem crítica aprofunda a análise das relações de poder e das estratégias comunitárias para enfrentar a ausência do Estado e as violações de direitos.

A originalidade deste estudo reside na articulação das experiências locais de resistência com as teorias de resiliência comunitária, enfatizando sua dimensão transformadora. Essa perspectiva contribui para um debate teórico mais amplo, desafiando visões adaptacionistas que desconsideram as dinâmicas complexas em contextos de vulnerabilidade. Em resposta às adversidades, a pesquisa revela como as comunidades fortalecem redes de apoio e solidariedade, promovendo coesão social e organização coletiva.

Dessa forma, os resultados mostraram que, apesar das adversidades extremas, a favela conseguiu transformar a crise em uma oportunidade ao fortalecer laços sociais e promover ações coletivas. O estudo destaca a necessidade de políticas públicas mais eficazes e inclusivas para apoiar comunidades periféricas e fomentar ciclos positivos de resiliência e desenvolvimento.

Por fim, é essencial reconhecer e questionar visões estigmatizantes, valorizar saberes locais e compreender melhor as dinâmicas comunitárias para enfrentar desigualdades e promover justiça social. Em última análise, este estudo reafirma a importância de uma abordagem crítica e transformadora, que reconheça e valorize as dinâmicas presentes nas comunidades marginalizadas.

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Declaração do contributo dos autores AL e MA contribuíram no desenho, implementação da investigação e coleta de dados; análise de dados, resultados e discussão: AL, MA, CR; escrita do manuscrito com o apoio dos demais autores: AL, MA, CR e contribuíram para a versão final: AL, MA, CR, AM.

Disponibilidade de dados As autoras informam que o conjunto de dados que suporta os resultados deste estudo não está disponível.

Editor/a de sección El editor de sección de este artículo fue Pablo Piquinela. ORCID ID: 0000-0002-4260-3980

Recebido: 03 de Maio de 2024; Aceito: 15 de Janeiro de 2025

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