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Psicología, Conocimiento y Sociedad

versión On-line ISSN 1688-7026

Psicol. Conoc. Soc. vol.9 no.2 Montevideo dic. 2019  Epub 01-Dic-2019

http://dx.doi.org/10.26864/pcs.v9.n2.6 

Trabajos originales

A questão do sigilo em pesquisa e a construção dos nomes fictícios

La cuestión del secreto en investigación y la construcción de nombres ficticios

The secrecy matter in researches and the manufacturing of fictional names

Ana Claudia Lima Monteiro1 
http://orcid.org/0000-0001-5430-8068

Maria Paula Borsoi Raimundo1 
http://orcid.org/0000-0003-2072-2513

Bárbara Gerard Martins1 
http://orcid.org/0000-0003-0513-3139

1Universidade Federal Fluminense, Brasil Autor referente: anaclmonteiro@yahoo.com.br

Resumo:

Neste texto buscamos discutir a questão do sigilo em pesquisa a partir da maneira como citamos as pessoas que participaram de nossas oficinas de sensibilização corporal nos nossos relatórios de pesquisa. Para isso, partimos do problema do sigilo em pesquisa apresentado por Vinciane Despret (2011a) e da possibilidade de construir uma pesquisa encarnada, tendo como metodologia a proposta de PesquisarCom de Marcia Moraes (2011). A partir destes referenciais teórico-metodológicos, apresentamos nossa proposta de criar nomes fictícios que eram construídos nas oficinas pelos próprios participantes. Na elaboração das mesmas, optamos por esta estratégia por compreender que os nomes, ao mesmo tempo que carregam a historicidade dos sujeitos, também dificultam a produção de novos sentidos para os corpos e afetos inseridos em nosso dispositivo. Além disso, compreendemos que a escrita dos nomes num texto acadêmico ou relatório de pesquisa possui um sentido de verdade ao qual gostaríamos de escapar. Percebemos que a escolha dos nomes fictícios performou novas possibilidades de nomeação que não poderiam emergir em qualquer outro dispositivo, pois diz respeito à maneira como aqueles nomes foram construídos naquele grupo. Partilhar a feitura dos nomes gerou um efeito interessante de partilha e afeto, uma vez que todas as pessoas que participam das oficinas tiveram a oportunidade de construir novos sentidos acerca de seus corpos e afetos também a partir dos nomes criados coletivamente.

Palavras-chave: Corpo; afetos; sigilo; nomes fictícios

Resumen:

En este texto buscamos discutir la cuestión del secreto en investigación a partir de la manera como citamos a las personas que participaron de nuestros talleres de sensibilización corporal en nuestros informes de investigación. Para ello, partimos del problema del sigilo en investigación presentado por Vinciane Despret (2011a) y de la posibilidad de construir una investigación encarnada, teniendo como metodología la propuesta de PesquisarCom de Marcia Moraes (2011). A partir de estas referencias teórico-metodológicas, presentamos nuestra propuesta de crear nombres ficticios que eran construidos en los talleres por los propios participantes. En la elaboración de las mismas, optamos por esta estrategia por comprender que los nombres, al mismo tiempo que cargan la historicidad de los sujetos, también dificultan la producción de nuevos sentidos para los cuerpos y afectos insertados en nuestro dispositivo. Además, comprendemos que la escritura de los nombres en un texto académico o informe de investigación tiene un sentido de verdad al que nos gustaría escapar. Se percibió que la elección de los nombres ficticios desempeñó nuevas posibilidades de nombramiento que no podrían emerger en ningún otro dispositivo, pues se refiere a la manera como esos nombres fueron construidos en aquel grupo. Compartir la creación de los nombres generó un efecto interesante de compartir afecto, ya que todas las personas que participaron en los talleres tuvieron la oportunidad de construir nuevos sentidos acerca de sus cuerpos y afectos también a partir de los nombres creados colectivamente.

Palabras clave: Cuerpo; afectos; secreto; nombres ficticios

Abstract:

In this article, we will discuss the secrecy matter in researches by addressing the way we quoted people that participated in our workshops of body sensibilization in our research reports. To do so, we work with the issue of secrecy in researches as it’s presented by Vinciane Despret (2011a) and also with the possibility of building an embodied research, having as method Marcia Moraes (2011) PesquisarCom. Starting with these theoretical-methodological referential, we present our proposition of creating fictional names which were crafted in the workshops by the participants themselves. As we planned the workshops, we chose this strategy for understanding that the names, at the same time that carry the subjects’ historicity, interfere with the production of new meanings for the bodies and affections in our research device. Besides, we also understand that subjects’ identification in an academic text or research report carry a truth sense which we’d like to avoid. We perceived those names’ choices performed new possibilities of designation which could not emerge in any other device, because it says about the way those names were crafted in that group specifically. Sharing the names’ crafting produced an interesting effect of sharing and affection, for all the workshops’ participants had the opportunity of fabricating new meanings about their bodies and affections from the collective creation of the fictional names.

Key words: Body; affection; secrecy; fictional names

O nosso trabalho de pesquisa consiste em produzir oficinas de sensibilização corporal que possam problematizar as fronteiras (Haraway, 1995; 2000) entre subjetividade e corpo. Nossa aposta busca compreender o corpo como esta região fronteiriça que está constantemente negociando, pelas afetações, o que está dentro e o que está fora. Desta maneira, são fundamentais as experiências de constituição destas fronteiras a partir do agenciamento (Despret, 2010) de diversos atores que participam na negociação destes espaços.

Nossas oficinas são realizadas semestralmente, desde 2016, em nossa Universidade, numa sala do Departamento de Psicologia e consistem em encontros semanais de duas horas de duração durante um período de aproximadamente três meses, o que nos possibilita, em média, realizar de 08 a 12 encontros. Geralmente são realizadas duas oficinas por semestre tendo dois ou três coordenadores em cada uma delas, os quais são alunos vinculados à pesquisa, com ou sem bolsa de Iniciação Científica. Os participantes são quaisquer pessoas que se interessam em participar de uma oficina de sensibilização corporal e mobilização dos sentidos (Monteiro & Souza, 2017).

Construímos nosso dispositivo de pesquisa de forma a tomar nossos sujeitos como capazes de produzir agência e de participar ativamente na composição da pesquisa (Despret, 2011b). Portanto, ao invés de acreditar no pacto de dupla ignorância - no qual os pesquisadores fingem enganar os sujeitos acerca do que será pesquisado e, por outro lado, o pesquisado finge acreditar no que o pesquisador diz ser sua pesquisa apostamos na capacidade dos pesquisados de criarem uma relação mais interessante com o dispositivo de pesquisa (Despret, 2011b), levando em conta sua própria produção no mesmo.

Tendo em vista esta proposta, nossa pesquisa se apresenta no campo metodológico denominado de PesquisarCom (Moraes, 2011), no qual a construção de narrativas conjuntas requer uma participação ativa daqueles que frequentam as oficinas. Neste sentido, os materiais e técnicas utilizados foram também discutidos com os participantes, para que pudéssemos pensar juntos o que efetivamente produz efeito e como este efeito é produzido (Moraes, 2011). Tanto a escrita quanto as vivências realizadas nas oficinas requerem de nós um trabalho conjunto na elaboração do que produz efeitos no grupo, ou seja, daquilo que possibilita um agenciamento (Despret, 2010) no qual os atores em jogo modificam e são modificados pelas relações que ali se apresentam.

Porém, há um problema em nossa metodologia que será posto a seguir: se levamos em consideração o que os sujeitos produzem em nossa pesquisa, então, como trazer para a escrita de nossa prática os nomes daqueles que compõem conosco as oficinas? Como foi visto acima, as pessoas que assinam o trabalho são o professor responsável pela pesquisa e alguns alunos que dela participam. Caberia, ainda, os nomes dos participantes? Como incluí-los? Nos deparamos com o problema do sigilo em pesquisa e, além dele, com a questão da autoria dos escritos científicos. Portanto, nosso texto versará sobre tal impasse e sobre os desdobramentos que este teve (e ainda tem) em nosso trabalho.

O Anonimato em Pesquisa e as Oficinas de Sensibilização

Em nosso texto, nos aprofundaremos na questão do sigilo na pesquisa tendo como proposta problematizar a importância do anonimato na construção do conhecimento (Despret, 2011a). Questionar o anonimato em pesquisa é apostar numa maneira de pesquisar que tenha o sujeito como parte significativa na mesma. Não se trata de pesquisar “qualquer pessoa”, sem marca e sem história, mas de acreditar que os sujeitos têm importância fundamental na construção do conhecimento. Sabemos que tal problema não pode ser resolvido de maneira simples e muito menos sem uma negociação que leve em consideração o que os próprios sujeitos pensam e sentem a respeito da exposição de seus nomes.

Tal questão não é simples e sustenta impasses metodológicos dentre os quais gostaríamos de destacar alguns deles. O anonimato em pesquisa (Despret, 2011a) carrega uma marca ambígua e deve ser posto em questão aqui. Num dispositivo experimental, no qual os sujeitos são, de alguma maneira, apagados para dar lugar aos fenômenos que emergem “independentes” daqueles que se submeteram ao dispositivo, o que conta na pesquisa são as frequências deste fenômeno. Os dados são computados estatisticamente e o que importa são as variáveis que põem em jogo as relações de causa e efeito. Os sujeitos seriam uma espécie de “suporte” descartável. Neste sentido, os nomes não teriam nenhum valor, a não ser negativo, por “pessoalizar” algo que seria de ordem impessoal. Em outras palavras, o nome não teria valor algum para o experimento porque não importa quem esteve lá, os fenômenos são lidos como algo desconectado daqueles que o produzem e são legitimados justamente porque são passíveis de generalização. Entra em cena aqui a ideia de análise em metodologia, uma vez que é possível parcializar os corpos e considerar apenas um dado isolado do mesmo.

Porém, nos laboratórios de psicologia, em seus primórdios, ocultar os sujeitos teve um caráter de proteção muito maior para o próprio pesquisador do que para os pesquisados. Vale lembrar que nas pesquisas iniciais, feitas por Wundt, os processos de introspecção eram produzidos por seus estudantes, treinados para relatar o que percebiam como sujeitos treinados (Despret, 2011a). Mesmo neste laboratório, o sigilo torna-se problemático porque não são quaisquer sujeitos que se submetem ao experimento e relatam suas experiências. Tais sujeitos estão longe de ser “ingênuos” no sentido que demos anteriormente. O pesquisador então, ao ocultar tais sujeitos, também deixa de fora do experimento o problema da expertise dos próprios pesquisados. Estes não são nem ingênuos e, de certa maneira, nem passíveis de serem esquecidos sem escamotear o problema do sigilo em pesquisa. Wundt toma uma decisão metodológica: apaga os rastros da constituição de seu experimento e o faz emergir como se este fosse possível ser feito em qualquer época e em qualquer lugar e com quaisquer sujeitos. Por isso, a escolha metodológica de Wundt reforça a importância do sigilo e oculta a coautoria dos estudantes-pesquisados na formulação de sua pesquisa. Portanto, priorizar as frequências estatísticas, mesmo numa pesquisa experimental, faz emergir uma dentre outras propostas de se pensar a pesquisa, ou seja, há uma escolha metodológica envolvida nesta proposta. Nela, os pesquisados são passivos, não possuem nenhuma agência, ou seja, não são agentes de questionamento ou mesmo de negociação daquilo que é dito sobre eles. A autoridade do pesquisador silencia os possíveis desvios da pesquisa fazendo com que o mesmo não corra riscos. Neste sentido, o dispositivo engessa os pesquisados numa única possibilidade de resposta e anula os impasses que possam tornar o experimento arriscado (Despret, 2011b).

Por outro lado, temos pesquisas em ciências humanas que não seguem este padrão experimental em que o que conta são as frequências estatísticas. Temos também a proposta de pesquisa em que o que consideramos é a maneira como os sujeitos se colocam numa situação específica em que o sigilo os protege e os faz falar de coisas que não seriam ditas em “qualquer lugar”. Estamos aqui falando dos dispositivos clínicos. Em tal dispositivo o sigilo tem uma especificidade: não expor as questões que emergem na clínica e lhe são particulares. Porém, há uma ambiguidade inerente a este dispositivo porque, desde Freud e até mesmo antes dele (Janet e Charcot, por exemplo), os casos clínicos deveriam ser divulgados como questões de pesquisa. Assim, da mesma maneira que as dores de estômago deveriam ser publicizadas para o avanço dos estudos nesta área, os estudos sobre o inconsciente, por exemplo, também deveriam seguir o mesmo caminho. Mas, se um estômago pode ser estudado sem sujeito, o inconsciente não.

Aqui nos deparamos com uma questão bastante espinhosa: o sigilo na clínica e a possibilidade de divulgação dos conhecimentos adquiridos neste espaço tão específico. Há aqui também uma aposta metodológica e um jogo de visibilidade e invisibilidade. Começaremos a discutir sobre este jogo. O que emerge na clínica psicológica supõe-se como algo interno, oculto, que diz respeito à interioridade (Despret, 2011a). Tal interioridade nos faz pensar que existem questões que são internas ao sujeito e dizem respeito ao espaço íntimo. Pressupõe-se que há algumas regiões interiores que não são acessíveis nem a nós mesmos, e que somente serão acessíveis se ditas num dispositivo intimista e privado, como o dispositivo clínico. Não se trata de negar a eficácia de tais dispositivos em nosso mundo, mas, de compreendê-los como inseridos num mundo em que se constrói a intimidade (Despret, 2011a). É necessário que haja uma distinção entre o público e o privado, e entre o que deve ser dito e vivido em ambos os espaços, para que tal dispositivo prolifere. Desta forma, o dispositivo faz emergir um jogo de visibilidade e invisibilidade que tensiona o sigilo. Ao mesmo tempo em que há a preservação do espaço interno, intimista, há a necessidade de divulgação do conhecimento gerado ali. Não se trata de um estômago, separado do corpo que o constitui, mas de um sujeito que pode, inclusive, ter seu estômago atingido pelo seu mal-estar. O sujeito emerge nesta tensão do corpo e não pode se ausentar dela. O dispositivo clínico produz, necessariamente, uma narrativa que compõe toda uma história de vida do sujeito narrado, não se descola dela. Portanto, falar dos sujeitos de pesquisa na clínica não pode abrir mão das conexões que fazem emergir este ou aquele sintoma clínico.

A aposta metodológica, neste caso, oculta o nome dos sujeitos em favor da intimidade. Mas, se não há nenhuma possibilidade de chamar a todas as pessoas de “sujeitos”, pura em simplesmente, por que então ainda mantemos certo grau de “individualização” ao nos remetermos às iniciais ou a nomes falsos? Sustentaremos este problema para argumentar que, propor nomes falsos ou iniciais também performam uma maneira de apresentar os sujeitos da pesquisa. Contar a pesquisa a partir destes sujeitos despersonalizados implica em produzir o que VincianeDespret (2011a) denomina de “efeito sem nome”, apagando os rastros da construção destes sujeitos, deixando suas histórias incompletas.

Contar as histórias a partir do recorte do pesquisador e da pesquisa produz uma maneira de constituir os sujeitos limitada ao dispositivo. Esta limitação deve ser considerada na construção do conhecimento e não anulada. Se perdemos a possibilidade de generalização com isso, ganhamos a potência da proliferação das histórias. Evitamos assim, os estereótipos, pois, como nos diz Chimamanda Adichie: “o problema dos estereótipos não são que eles são mentirosos, são que eles são incompletos” (Adichie, 2009) e por isso não comportam a dimensão de diversidade capaz de gerar novas e interessantes modulações. Como defendemos a construção de corpos e subjetividades nas nossas oficinas, acreditamos então que os nomes construídos nelas, em conjunto com todos aqueles que dela participam, pode ser uma aposta interessante.

No caso de nossa pesquisa, em particular, gostaríamos de refletir um pouco mais sobre o que seria exatamente apostar nesta proposta de pensar corpos e subjetividades como algo que se constrói a partir dos encontros que são produzidos. Por um lado, sabemos que os corpos são marcados, impressos e impressionados por aquilo que os constitui. Não há corpo etéreo, que não esteja encarnado, composto por tudo o que o afeta. Por outro lado, acreditamos que as oficinas também produzem efeitos e deslocam estes afetos, tendo a possibilidade de ressignificar sentidos. Nesta linha, os nomes se apresentam como um problema, na medida em que encarnam a permanência, a presença constante daquele que é nomeado. Neste sentido, os nomes nos parecem arbitrários, formais e dizem pouco sobre aqueles que nomeiam. Se alguém pronuncia: “Ana!” imediatamente a atenção de uma das pessoas que escreve este texto se aguça, é o meu nome, minha presença é convocada por ele. Mas também podemos derivar, de alguma maneira, com nossos nomes. Maria e não Maria Paula, é assim que nos referimos a outro de nossos autores, fazendo então com que o nome seja menos idêntico e mais fluido. Nos saber a partir de nossos nomes nos dá um ponto de partida que, talvez, nos aprisione nisso que denominamos acima de uma “história única”. Portanto, fazer os nomes vacilarem, produzir equívocos com os mesmos pode ser interessante.

Porém, sabemos que a força da identificação ainda permanece, pois, nomes, carteiras de identidade, passaportes, CPFs, profissões, endereços, identificação biométrica, apelam para a permanência e agem como estabilizadores, marcando e referenciando corpos e subjetividades, criando um conjunto de referências que tendem à unificação e engessamento. Vale notar que todas estas marcas têm algum sentido, performam relações e corpos. Mas, por outro lado, deixam de fora outras marcas, tais como o gênero, por exemplo. Mesmo que os nomes carreguem, em sua maioria, as marcas do gênero, não são suficientes para nos apresentar as diversas formas de nomear necessárias à composição dos corpos. Portanto, não se trata de simplificar o problema negando a identificação que os nomes convocam, mas sim, a possibilidade de construir um nome que faça sentido na composição dos afetos produzidos nas oficinas. Esta possibilidade também foi o nosso argumento para a produção dos nomes fictícios em nossas oficinas pois há sempre o impasse sobre a exposição dos nomes das pessoas pesquisadas, uma vez que estas se encontram numa relação assimétrica.

A exposição dos nomes pode ser vista como uma violência pelos sujeitos, quebrando uma relação de confiança estabelecida em nosso dispositivo. Por outro lado, ocultar os nomes, como nos diz Despret, também protege o pesquisador, já que este tem o poder de dizer aquilo que os sujeitos disseram, sem ser questionado pelos mesmos. Há uma assimetria dada nesta relação, como dissemos anteriormente: o que o pesquisador diz tem mais importância do que aquilo que o pesquisado fala. Um dos efeitos desta assimetria é que os nomes podem gerar mais identificação e não menos e este é um dos impasses ao qual nos deparamos em nossa pesquisa. O que escolhemos fazer com isso não seguiu nem o caminho da simples ocultação dos nomes, transformando as pessoas em iniciais ou ainda, simplesmente trocando de um nome para outro aleatoriamente; nem a colocação dos nomes dos sujeitos como “prova” de que estaríamos considerando que as pessoas que aparecem em nosso dispositivo são exatamente aquelas nomeadas, fazendo do nome uma armadilha de identificação única. Em outras palavras, buscamos construir uma maneira de nomear nossos sujeitos de forma coletiva, tendo em vista a construção daqueles atores naquele lugar, enfatizando que as histórias construídas ali também carregam a potência da ambiguidade, uma vez que são formas de identificação e, ao mesmo tempo, personificações localizadas no dispositivo que as fez emergir.

A partir de tal aposta, iremos, no decorrer do texto, apresentar alguns efeitos interessantes que a construção coletiva dos nomes fictícios produziu. Lembramos que, a cada oficina a construção dos nomes fictícios era negociada coletivamente.

Os Nomes Fictícios Performados nas Oficinas

Na feitura de nossos relatórios de pesquisa, os nomes fictícios produziram efeitos bastante interessantes e surpreendentes. Quando decidimos optar por esta escrita, ainda não tínhamos ideia dos efeitos que esta aposta poderia ter. Sabíamos, como dissemos acima, que esta maneira de construir os relatórios faz emergir um arranjo de atores no qual os nomes ganham um sentido próprio nas oficinas, mas não sabíamos, de antemão, os efeitos gerados por esta escolha. Na medida em que íamos construindo os relatórios, os afetos e corpos envolvidos nos dispositivos das oficinas iam ganhando contornos múltiplos, desenhando possibilidades de uma escrita afetada, encarnada e potente.

Devemos frisar que a escolha dos nomes fictícios ocorre nas próprias oficinas. Inicialmente, começávamos as oficinas apresentando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para que os participantes lessem e assinassem. Neste momento, o grupo ganhava um tom mais formal que, muitas vezes, marcava os encontros posteriores de maneira um pouco negativa. Como estávamos buscando compor com os alunos oficinas de sensibilização corporal, tínhamos sempre como norte a proposta de construir um espaço em que as palavras pudessem emergir sempre ligadas às oficinas, aos corpos e aos afetos que compunham as mesmas. A apresentação do TCLE e decorrente explicação sobre o sigilo da pesquisa sempre produziu um efeito de formalidade e gerava muitas racionalizações acerca do que aconteceria naquele espaço, dificultando o surgimento de outros afetos, que não este da racionalização. Dada essaquestão, buscamos trazer o problema dos nomes fictícios de maneira mais lúdica, a partir de desenhos produzidos pelos próprios participantes. Estes desenhos eram feitos no primeiro ou segundo encontro, gerando outros questionamentos, tais como, a continuidade dos participantes nas oficinas. Percebemos que a feitura dos nomes fictícios requeria mais tempo, mais vínculos entre os participantes. Com isso, a elaboração dos nomes fictícios foi sendo posta nos últimos encontros, o que gerava outro problema: alguns participantes saíam antes de ter seus nomes elaborados no grupo. Percebemos então que a própria construção dos nomes era um problema da pesquisa e deveria ser considerado como tal. Sustentamos então a feitura dos nomes no final das oficinas e, ao longo da elaboração dos relatórios, íamos lidando com as lacunas que isso gerava.

Neste ponto do texto, iremos trazer parte de um dos relatórios PIBIC de Iniciação Científica da pesquisa, escrito por duas coordenadoras de oficinas, para ilustrar os efeitos que a discussão dos nomes fictícios teve num determinado grupo. Optaremos por colocar as partes de relatório com espaçamento diferenciado e com a letra em itálico:

A primeira oficina desse semestre foi marcada por um nítido contraste de ritmos e marcada por uma fala de Fogueira que ressoou ao longo das supervisões como um fio condutor importante da disponibilidade do participante. Enquanto assinavam os termos as duas coordenadoras - no caso, eu e a outra coordenadora denominada aqui como Fifi Onda - falávamos da possibilidade de utilização de nomes fictícios. Fogueira deslocou a questão para uma perspectiva de usar os nomes reais como fictícios no Relatório. Ou seja, usarmos os nomes de cada participante como fictícios. A perspectiva de uma interpelação num primeiro momento nos surpreendeu. Ao longo da conversa a coordenadora Girassol colocou a ideia da potência da criação do nome, por conta da determinação do nome, algo que nos é dado e os participantes, ao questionarem se cada um não poderia decidir por si, acharam melhor construir esses nomes, fictícios ou reais-fictícios, ao longo do tempo das oficinas. As hesitações estavam claras em um grupo de pessoas que não se conheciam mas estavam desde o cumprimento construindo um tempo coletivo de grupo. O nosso manejo, enquanto coordenadoras, colocou um contorno ao colocar aos participantes durante os desenhos não um porquê, uma razão, justificativa por estarem ali, mas sim um deslocamento de outra ordem: como eles estavam chegando ali, ou seja, desconstruindo a ideia de causa-consequência-linear de história daquele grupo. Com essa desconstrução, busca-se fazer emergir as perguntas interessantes como a de Fogueira e possibilitar abertura de sentido para tal.

Percebemos neste trecho não apenas os efeitos dos nomes fictícios na feitura e no sentido do relatório, mas também a maneira como as pesquisadoras manejaram a forma como os participantes apareceriam nele. Nesta oficina especificamente, os nomes foram construídos no início, a partir de desenhos que davam significado ao que os participantes estavam sentindo ao chegar naquele espaço. Os nomes seguiram este caminho, gerando efeitos interessantes na composição deste grupo. Fifi Onda, Girassol, Fogueira, Dorotéia Ressonante, Dada Xavier, Rubi são nomes que dizem mais do que compõe os sentidos no grupo do que um nome que já vem pronto, de fora. A construção do nome também ganha um caráter performático compondo com os corpos e afetos gerados nas oficinas.

Os nomes feitos nas oficinas deixam de ser próprios e ganham uma dimensão de vínculo, tornam-se afetos, produzem corpos, como podemos ver também no trecho a seguir:

É interessante como os nomes fictícios surgiram por um processo que se dava ali naquele momento, e não através de uma “psicologização” dos desenhos ou das experiências. Em uma das oficinas do terceiro semestre, por exemplo, o desenho de um rio para falar de sua fluidez e de dança, remeteu Maria Fluida a tal nome, o qual foi prontamente apoiado pelo grupo; no desenho de Eschera havia cubos, em relevo pelo glitter dourado, os quais lembraram ao grupo obras do artista Escher, ao mesmo tempo em que gostaria que fosse um nome feminino - se encontrava envolvida por questões de gênero; e John Floyd, coordenador, cujo desenho de uma espécie de rosto de óculos colorido havia lembrado alguns participantes a banda Pink Floyd e o cantor John Lennon. Na outra oficina, Milton havia desenhado a capa de um disco do cantor Milton Nascimento; Pão de açúcar era de Minas Gerais e desenhara um sol, um símbolo da Psicologia, o Pão de Açúcar - falava um pouco da sua relação com a cidade para a qual veio estudar; e a coordenadora Colorida havia desenhado coisas variadas, de diversas cores. No quarto semestre, Girassol, Amendoeira e Onze-Horasbrotaram, cada uma, do tema grupal “plantas”. Em outra oficina, Estalinho havia desenhado, num desenho coletivo, alguns fogos de artifício, e foi lembrada como alguém leve - também fisicamente, lembrança de uma atividade de peso-e-contrapeso em uma das oficinas - e alegre, mas ao mesmo tempo, num sentido específico, expansiva; em seu desenho de apresentação, a figura humana no papel da coordenadora Dolores Leve, também apontada como uma pessoa leve, parecia estar levitando, e o aikido, arte marcial que pratica, lembrava dor... Dolores; a coordenadora Hannibal pegou emprestado o nome de seu cachorro, ou filho, do qual sempre falava nos encontros e que foi um dos protagonistas em seu desenho e relato de apresentação iniciais.

Os Aprendizados a Partir da Partilha dos Nomes

Os nomes fictícios, portanto, foram a nossa escolha para construir o trabalho de pesquisa em que cada elemento presente no dispositivo das oficinas conta para a construção das mesmas. Não tomamos os nomes como algo dado, mas transformamos a possibilidade de apresentar nossos pesquisados num problema da própria pesquisa. Isso fez com que este trabalho deslocasse a questão do sigilo e da exposição de nossos pesquisados, fazendo com que os nomes se tornassem algo performativo. O que emerge desta proposta é o fato de que os nomes também podem ser problemas de pesquisa. Se, por um lado, a exposição dos nomes fere o princípio terapêutico do sigilo e, por outro lado, a ocultação do nome dos sujeitos protege os pesquisadores, optamos em trazer elementos para a composição dos nomes que, ao mesmo tempo em que fazem sentido para aqueles que são nomeados, este sentido só pode ser compreendido no dispositivo do grupo, no encontro daquelas pessoas naquele espaço de criação de vínculos. O nome, portanto, não é nemsomente coletivo, por trazer os elementos que a própria pessoa disponibiliza, e nem éindividual, porque o nome só emerge da partilha dos afetos gerados pelo desenho e pela fala daquele que desenhou.

Referências

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Declaração do contributo dos autores: Todos os autores participaram de todo o processo de elaboração e escrita do texto. Os diários de campo utilizados no texto foram escritos por MPBR e BGM.

Recebido: 01 de Março de 2019; Aceito: 03 de Setembro de 2019

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