Introdução
As alterações psicológicas ocorrem quando, ao envelhecer, o indivíduo precisa se reinventar a cada nova etapa do seu cotidiano. Enquanto as mudanças sociais são analisadas quando os relacionamentos sociais mudamem função do declínio da alta produtividade e, principalmente, do poder físico e econômico, sendo a alteração social mais observada em países de economia capitalista.1)
O envelhecimento é um processo contínuo, que ocorre desde o nascimento do ser humano, ficando mais evidente com o avançar da idade. Nesta perspectivao indivíduo é envolvido por mudanças em diversos fatores que interagem entre si, e inclui alterações biológicas, psicológicos e sociais.2
Os aspectos biopsicossociais e as singularidades de cada indivíduo estão diretamente relacionadosà capacidade do sujeito compreender o seu bem-estar físico, social, mental e espiritual em toda a sua vida. Além de estarem intrinsecamente ligados à garantia da autonomia a fim de suprir as necessidades, desejos e capacidades na sociedade.3
O padrão de vida, bem como as organizações de trabalho e da sociedade são situações que fogem do controle do sujeito, apesar de seremfatores reconhecidos por impactar diretamente a saúde deste grupo de pessoas. Odesequilíbrio em um deles, aliado à fragilidade emocional pode proporcionar o adoecimento, principalmente no ser idoso, por perceber que são mais vulneráveis a esta perda da homeostase.3
No Brasil, muitos idosos perderam os vínculos familiares e passaram a residir em Instituições de Longa Permanência (ILPI), de modo que o número destas instituições ultrapassou o dobro, entre os anos de 2010 e 2021, aumentando de 3.548 para 7.292 unidades. Contudo, o aumento na quantidade não está diretamente relacionado à melhora na qualidade da assistência a esse grupo. Ao contrário,é possível observar fragilidades organizacionais e operacionais nestas instituições que impactam no cuidado ofertado, como deslizes na promoção da funcionalidade, da liberdade e independência. Tais restrições assistenciais acarretam emprejuízos para a saúde mental e, em seguimento, para a qualidade de vida da pessoa idosa.4
A busca pela institucionalização pode ser oriunda da ausência de tempo e apoio do cuidador familiar, sejapelo nível de dependência da pessoa idosa ou pela situação clínica, pelas privações sociais e financeiras em decorrência da aposentadoria, ou ainda, como uma maneira de se ajustar-se à nova realidade repleta de contrariedades.4Por outro lado, o comprometimento cognitivo, dependência para a realização das atividades básicas de vida diária, alterações sociais ou até mesmo negligência ao próprio desejo do sujeito, tornam-se consequências relevantes do contexto de institucionalização.3) O perfil dos idososmoradores em instituições de longa permanência inclui a vulnerabilidade social, bem comoas alterações cognitivas e sintomas depressivos. As repercussões causadas pela fragilidade colaboram com o surgimento de sintomas depressivos, que podem levar o indivíduo à fragilização.5
Desse modo, faz-se necessário estimular a assimilação da própria autenticidade do sujeito institucionalizado, respeitando suas necessidades, realizando intervenções políticas e programas de saúde, impulsionando a percepção e interpretação das mudanças do processo de envelhecimento, questionamentos e/ ou descontentamentos, estabelecendo uma conversa e dando voz ativa ao mesmo.6
Neste contexto, emergiu um questionamento para nortear a pesquisa, a saber: o que versa a literatura sobre os aspectos biopsicossociais que repercutem na saúde mental da pessoa idosa institucionalizada?
A fim de responder à pergunta de pesquisa, o presente estudo tem como objetivo: conhecero que versa a literatura sobre os aspectos biopsicossociais que repercutem na saúde mental da pessoa idosa institucionalizada. A compreensão da condição da saúde mental dos idosos e seus fatores associados podem servir como subsídios para a elaboração e planejamento de novas políticas públicas voltadas para atenção que visem o envelhecimento saudável.4Essa pesquisa torna-se relevante, na medida em que poderácontribuir para a ampliação e difusão de conhecimento sobre aspectos que atravessam o contexto da pessoa idosa institucionalizada ao gerar evidências científicas que sensibilizem gestores e formuladores de políticas públicas.
O estudo poderá, ainda, fornecer subsídios para os profissionais que atuam com este público na medida em que fornecer elementos que otimizem o cuidado e a promoção da saúde mental de idosos institucionalizados.
Métodos
Trata-se de um estudo de revisão integrativa de literatura de abordagem qualitativa. A revisão integrativa de literatura é um método cuja finalidade é sintetizar resultados obtidos em pesquisas sobre um tema ou questão, de maneira sistemática, ordenada e abrangente. (6) Para elaboração das discussões teóricas da revisão de literatura foram seguidas algumas etapas. Na primeira etapa do estudo, elencou-se o tema e a questão derevisão. Para elaboração dessa pergunta, foi utilizada a estratégia PICo, a qual representa o acrônimo P - para Participante/População, I - para Fenômenos de Interesse e C- para o Contexto. A utilização desta estratégia em uma pesquisa de caráter qualitativo permite a construção de uma pergunta clara e significativa. (7
Nesse sentido, a pergunta de revisão: “O que versa a literatura sobre os aspectos biopsicossociais que repercutem na saúde mental da pessoa idosa institucionalizada?”, revela os elementos da estratégia PICo. Os Participantes, consiste em idosos institucionalizados; o segundo, fenômeno de Interesse, a saúde mental; e o terceiro elemento, o Contexto, ou seja, as repercussões biopsicossociais que repercutem na saúde mental da pessoa idosa institucionalizada. Uma vez decretada a pergunta de pesquisa, realizou-se a segunda etapa com a busca dos artigos no Scientific Eletronic Library (SciELO), Google Acadêmico e Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) em novembro de 2021. Para a estratégia de busca, utilizou-se os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). O algoritmo incluiu o uso dos descritores “Qualidade de Vida", "Saúde Mental”, “Idoso” e “Instituições de Longa Permanência”. Com a finalidade de restringir a pesquisa a estudos que contemplassem o objetivo proposto, os termos foram associados por operadores booleanos AND e OR. Para realizar a busca dos artigos, seguimos como critérios de inclusão: artigos originais ou de revisão de literatura e trabalhos de conclusão de curso completos publicados entre os anos de 2020 a 2021, na língua portuguesa, e que relatassem sobre os aspectos biopsicossociais que repercutem na saúde mental da pessoa institucionalizada. No que lhe concerne, os critérios de exclusão foram estudos editoriais; cartas ao editor; resumos; opiniões de especialistas; artigos que não abordem a temática.
Para melhor sistematizar o processo de seleção dos artigos,utilizou-se o fluxograma proposto pelo protocolo PRISMA, que consiste em um checklist para orientar os relatos de revisões sistemáticas.8 Embora, não seja específico para revisões integrativas, nesse estudo, o PRISMA auxiliou no planejamento e condução das etapas de rastreamento dos artigos selecionados. Conforme observado no fluxograma, representado pela figura1, encontramos 55 artigos nas três bases de dados. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, rastreamos 16 artigos. Destes, 12 artigos foram lidos na íntegra para categorização, síntese, interpretação e análise dos dados. Ao final, a amostra do estudo foi constituída com os04 artigos incluídos (figura 1). Na quarta etapa, elencamos as informações extraídas dos artigos publicados. Na quinta etapa da pesquisa, apresentamos os resultados alcançados após extração e interpretação das informações obtidas na etapa anterior do estudo. Por fim, na sexta etapa, foi efetuada a síntese do conhecimento extraído sobre os aspectos biopsicossociais que repercutem na saúde mental da pessoa idosa institucionalizada.
Resultados
A mostra da revisão integrativa foi composta de 4 estudos. Verificaram-se que os resultados, em sua totalidade, foram publicados em idioma português e desenvolvidos em diferentes países.
O eixo temático repercussões biopsicossociais que repercutem na saúde mental da pessoa idosa institucionalizada foi construído a partir das produções científicasque evidenciam a relação da instituição com transtornos psíquicos moderados.
No Quadro 1 apresentado a seguir, pode-se verificar a síntese dos artigos incluídos neste estudo e as variáveis: título, autores, ano de publicação, objetivos, tipo de estudo e o resumo/resultados abordados por cada artigo.
Discussão
Nesta revisão, o acúmulo de estudos desenvolvidos no ano 2020- 2021 evidenciou o crescente interesse dos pesquisadores em buscar explicações sobre os reflexos biopsicossociaisna saúde mental de idosos institucionalizados. Na análise primária para a construção dos resultados, foi notório que os estudos buscaram elucidar as repercussões da institucionalização no cotidiano de idosos, desde seus sintomas, diagnóstico, qualidade de vida, impacto na saúde física, mental e social.
Desta forma a discussão foi dividida em dois eixos temáticos: sofrimento psíquico associados aos idosos institucionalizados, aspectos biopsicossociais e sofrimento mental.
Sofrimento psíquico associados aos idosos institucionalizados
De acordo com os estudos avaliados, os idosos institucionalizadostende ater uma maior predisposição a desenvolver algum tipo de sofrimento mental.2Segundo os autores, a grande maioria apresenta transtorno depressivo, umdos sofrimentos psíquicos que mais afetam os idosos institucionalizados, aumentando as possibilidades de apresentar incapacidades funcionais.Diferente da tristeza, a depressão é uma doença que modifica fisiologicamente oindivíduodeprimido. Essa doença é caracteriza pela sinúmeras alterações psicopatológicas que surgem, podendo distinguir-se em relação à sintomatologia, gravidade, curso e prognóstico.9
Nessa perspectiva, é preciso atentarpara fatores que podem se intensificara depressão, sem o tratamento adequado, pode evoluir para uma possível demência ou Doença de Alzheimer. É importante ressaltar que a depressão e a doença de Alzheimer são condições distintas, embora possam estar inter-relacionadas em alguns casos. (9Entre esses fatores pode-se destacar: a separação com o seu núcleo familiar, seus entes queridos e do ambiente familiar, a necessidade de interação com outras pessoas, criação de vínculos e até mesmo se ver na dependência de outras pessoas para atenderem às suas necessidades básicas de autocuidado, isolamento social e sentimento de abandono.9Outro fator relevante a ser considerado é a necessidade de atenção e cuidado à saúde física dos idosos institucionalizados, uma vez que a presença de doenças crônicas e a fragilidade física podem favorecer a ocorrência de distúrbios psicológicos e comportamentais. Dessa forma, a atuação de profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros e fisioterapeutas, é fundamental para garantir a saúde integral dos idosos institucionalizados, promovendo sua qualidade de vida e bem-estar emocional.
Aspectos biopsicossociais e sofrimento mental
Em conformidade com os estudos analisados foi possível compreender que o sofrimento mental está atrelado à interação dos fatores biológicos do sujeito com o ambiente em que se vive, bem como com suasrelações socioculturais.1Segundo esses autores o processo de envelhecimento pode ser compreendido como normal e anormal, sendo considerado como normalidade os processos irreversíveis, progressivo e universo, não modificável. Já o anormal está relacionado aos comportamentos do sujeito em relação a simesmo, aos outros e a sociedade em geral. As influências dos aspectos intrínsecos, extrínsecos, exposição dos fatores ambientais, estilo de vida entre outros, com destaque à genética como um fator responsável pela longevidade dos indivíduos.1) Embora se compreenda que nesta etapa da vida muitos indivíduos apresentam sofrimentos mentais, o que chega a ser consideradauma condição natural, de modo geral, esses agravos, incluem estados depressivos, a demência ou os quadros psicóticos que tem um início tardio.2
De acordo com os dados epidemiológicos de uma pesquisa desenvolvida, a mostra total foi de 90 pacientes, 60 não institucionalizados atendidos ambulatorial menteno CEMEC e 30 institucionalizados na ILPILarda Providência. Os resultados dos estudos obtiveram uma nota média do MEEM de 20,4 no grupo de indivíduos não institucionalizados a média foi de 22,11 contrapondo 17,03 no grupo dos institucionalizados.10) Constatou-se que a institucionalização contribui para o declínio da capacidade cognitiva (DCC) e que a falta de autonomia, gerada pela própria ILPI ao fornecero que idoso precisa (alimentação, higiene ambiental e pessoal), acaba gerando um comprometimento da sua capacidade funcional, saúde mentale do envelhecimento saudável. Considerando que esses fatores tendem a ter uma grande repercussão na saúde mental desses indivíduos, é importante destacar que muitos não se ocupam com atividades de rotina para estimular a mente e que a visita dos familiares são poucas, o que acaba por comprometer ainda mais a saúde mental dos idosos.2
Conclusão
Em suma, esse estudo sobre os aspectos biopsicossociais que repercutem na saúde mental de idosos institucionalizados vem trazer a importância de um olhar integral sobre a idade avançada. Os dados obtidos na literatura apontam tanto para a relevância de fatores biológicos, quanto para os aspectos psicológicos e sociais, os quais juntos podem influenciar tanto positiva quanto negativamente na saúde mental dos idosos institucionalizados.
A abordagem biopsicossocial é importante para elucidar que a saúde mental do idoso institucionalizado não é apenas resultado de alterações biológicas típicas do envelhecimento, mas sim de uma complexa interação entre fatores físicos, emocionais e sociais. Muitas vezes, as políticas públicas e práticas institucionais ainda falham em oferecer suporte integral e humanizado, focando mais na sobrevida física do que na qualidade de vida mental e emocional. Portanto, pensar criticamente sobre esses aspectos significa reconhecer a necessidade urgente de políticas públicas mais robustas e fiscalizadas, além de estratégias multidisciplinares que incluam estimulação cognitiva, fortalecimento de vínculos afetivos, escuta qualificada e protagonismo do idoso dentro do espaço institucional. É notável a importância das relações interpessoais como fator que influencia diretamente na qualidade de vida dos idosos institucionalizados, bem como a necessidade de um olhar mais atento e cuidadoso para questões relacionadas à depressão, ansiedade e outras patologias mentais que podem afetar este segmento populacional.
Por fim, espera-se que este estudo possa contribuir para a compreensão mais ampla e consciente sobre os fatores que influenciam na saúde mental dos idosos institucionalizados, bem como para a implementação de medidas que possam promover um ambiente mais acolhedor e favorável a um envelhecimento saudável e satisfatório.
















