Introdução
O contexto rural brasileiro é atravessado por múltiplas iniquidades sociais e sanitárias, expressas na precariedade dos serviços públicos, na escassez de recursos estruturais e humanos, bem como na vulnerabilidade socioeconômica de grande parte da população que habita essas regiões. A complexidade que envolve o espaço rural ultrapassa os limites geográficos e abarca modos de vida singulares, profundamente vinculados à terra, ao trabalho agrícola e às redes de sociabilidade locais. Nesse cenário, coexistem processos saúde-doença marcados por padrões endêmicos persistentes e por determinantes sociais que impactam negativamente a qualidade de vida, exigindo do sistema de saúde estratégias específicas e sensíveis à realidade local.1)(2
A atuação do enfermeiro nesses territórios demanda uma prática crítica, situada e adaptada às condições culturais, econômicas e simbólicas da população rural. O cuidado de enfermagem nesses espaços não pode se restringir a uma aplicação mecânica de protocolos, exigindo, ao contrário, escuta qualificada, compreensão ampliada das relações intersubjetivas e elaboração de planos de cuidado contextualizados. As práticas de saúde são constantemente atravessadas por imaginários sociais, valores comunitários e formas próprias de significado adoecimento, o corpo e o bem-estar. 3
Diante desse panorama, o estabelecimento de planos de cuidados bem delineados, viáveis e ancorados na realidade rural apresenta-se como uma estratégia central para qualificar o processo assistencial e, por conseguinte, promover melhorias nas condições de vida da população. Nesse sentido, o Processo de Enfermagem (PE) emerge como ferramenta estruturante da prática profissional, especialmente durante a consulta de enfermagem, possibilitando a organização sistemática dos cuidados prestados. O PE compreende cinco etapas interdependentes: avaliação de enfermagem, diagnóstico de enfermagem, planejamento de enfermagem, implementação de enfermagem e evolução, e contribui para uma atenção mais resolutiva, orientada por evidências clínicas e sensível às vulnerabilidades contextuais. 4),(5
Considerando a incorporação e implementação de planos de cuidado alicerçados no PE durante a assistência à população rural, um dos diagnósticos de enfermagem (DE) que podem surgir é o de Saúde Comunitária Deficiente, conceituado pela NANDA- Internacional como a existência de um ou mais fatores ou problemas de saúde que potencializam o risco de problemas de saúde vivenciados por determinada comunidade, ou impossibilitam o'seu bem-estar. Está associado aos fatores relacionados, entre eles: acesso inadequado aos prestadores de cuidados, insuficiência de recursos comunitários, insatisfação com os programas existentes, planos de avaliação ineficazes e apoio social limitado aos programas de saúde.6) Trata-se de um DE que exige um olhar ampliado, sensível às dinâmicas coletivas e às singularidades territoriais.
Nesse prisma, para além do raciocínio clínico, torna-se fundamental que o enfermeiro mobilize o raciocínio crítico, ancorado na escuta ativa e a análise das experiências sociais que moldam o modo como a comunidade vivencia o processo saúde-doença. Nesse horizonte, a fenomenologia social de Alfred Schütz oferece uma porte teórico-filosófico profícuo, ao compreender a ação social como situada em um mundo intersubjetivo, estruturado pelos motivos que orientam o agir humano. Schütz distingue
entre os motivos para (intenções projetadas para o futuro) e os motivos porque (experiências passadas que fundamentam o presente), elementos centrais para entender como os sujeitos significam e respondem aos desafios da vida cotidiana. 7
Partindo do pressuposto de que a fenomenologia social de Schütz pode ampliar a compreensão e a aplicabilidade do DE de Saúde Comunitária Deficiente no contexto rural, fortalecendo a atuação do enfermeiro e a potência transformadora do cuidado, este estudo tem como objetivo: refletir sobre o diagnóstico de enfermagem Saúde Comunitária Deficiente em meio rural à luz da filosofia dos motivos para e motivos porque.
Notas metodológicas
Trata-se de uma reflexão fundamentada no referencial da fenomenologia social de Alfred Schütz, com ênfase analítica nos motivos para e motivos porque que orientam as ações dos sujeitos no mundo da vida. O autor parte de uma crítica à fenomenologia transcendental de Edmund Husserl e dialoga com a sociologia compreensiva de Max Weber, propondo um modelo de análise voltado à intersubjetividade das experiências humanas. Para Schütz, o conhecimento se constitui a partir das experiências imediatas do sujeito ativo, situado e consciente, inserido em um mundo vivido compartilhado com outros. 7
O cotidiano, segundo Schütz, é compreendido como um mundo intersubjetivo culturalmente estruturado, no qual os sujeitos coexistem por meio de uma consciência socialmente enraizada, capaz de compreender e ser compreendida nas diversas formas de relação que permeiam a vida em sociedade. Essa intersubjetividade constitui a base da ação social e permite que o enfermeiro, enquanto agente inserido nesse mundo social, compreenda os sentidos atribuídos pelos indivíduos e comunidades às suas experiências de saúde, adoecimento e cuidado. 7
Ancorando-se nesse referencial, e articulando-o com vivências pessoais e profissionais no contexto da enfermagem rural, bem como com aportes da literatura especializada, a presente reflexão foi conduzida com o objetivo de compreender os motivos para e os motivos porque que perpassam a identificação do DE Saúde Comunitária Deficiente em territórios rurais.
Essa reflexão propõe um movimento metodológico que busca incorporar evidências qualitativas no raciocínio diagnóstico do enfermeiro, considerando que as vivências, enquanto experiências subjetivas dotadas de sentido, podem fundamentar práticas inovadoras e eticamente implicadas. Desse modo, pretende-se fortalecer a capacidade do enfermeiro de reconhecer não apenas dados objetivos, mas também os sentidos construídos coletivamente pela comunidade rural frente ao processo saúde-doença, contribuindo para a construção de intervenções de enfermagem mais contextualizadas, sensíveis e efetivas.
Para a apresentação dos resultados desta reflexão, foi construído o eixo temático: Os motivos para e porque na fenomenologia de Schütz como lente analítica para o Diagnóstico de Enfermagem Saúde Comunitária Deficiente em meio rural.
Desenvolvimento
Os motivos para e motivos porque na fenomenologia de Schütz com o lente analítica para o DE Saúde Comunitária Deficiente em meio rural
Na fenomenologia social de Alfred Schütz, a compreensão da ação requer o retorno à fonte originária da experiência: a vivência intencional da consciência. O mundo social, nesse referencial, não é uma realidade objetiva externa, mas constitui-se por meio da comunicação e da ação intersubjetiva entre sujeitos que compartilham significados. As experiências humanas não ocorrem de forma isolada, mas inseridas em campos de familiaridade e conhecimento, conformando um saber intersubjetivo e socializado. 7)(8
A situação biográfica de cada indivíduo, enquanto acúmulo de vivências, orienta os sentidos atribuídos às ações e os modos de inserção no espaço social. Para Schütz, os motivos para dizem respeito às intenções futuras que impulsionam a ação, enquanto os motivos porque remetem a experiências passadas que moldam o agir presente. Ambos operam de forma complementar na constituição do sentido subjetivo da conduta, revelando as razões que movem o sujeito em sua trajetória social. 9
O entendimento dos motivos porque é fundamental para a análise da ação, pois revela os marcos históricos que estruturam a personalidade, as escolhas e os padrões de comportamento do sujeito. Já os motivos que permitem acessar a intencionalidade orientada ao futuro, são expressos por meio das expectativas, desejos e interpretações que informam a tomada de decisão e o comportamento observado. 9)(10
No contexto do DE Saúde Comunitária Deficiente em áreas rurais, a incorporação da análise dos motivos na perspectiva schütziana possibilita uma leitura ampliada das dinâmicas locais. Tal abordagem auxilia não apenas na identificação de entraves à efetividade do cuidado, mas também na construção de intervenções culturalmente sintonizadas com a realidade vivida das famílias rurais.
Refletir sobre os motivos para e motivos porque à luz das experiências e compreensões da população rural permite romper com esquemas padronizados e fomentar modelos de cuidado coerentes com as particularidades socioculturais dos territórios. A efetividade das intervenções depende, em grande parte, da capacidade de apreender tais referências, que conformam a lógica do agir das comunidades.
As práticas de saúde, mesmo aquelas de risco, podem ser compreendidas pela noção de atitude natural, na qual os sujeitos tomam o mundo como dado e familiar. Crenças e práticas são transmitidas intergeracionalmente como padrões culturais, formando ciclos de reprodução de saberes, como evidenciado em estudos sobre o alcoolismo em contextos rurais. 11
A difusão desses padrões culturais é fortalecida pela experiência do encontro face a face, conforme conceituado por Schütz. Esse encontro permite o compartilhamento de um espaço-tempo comum, em que objetos e significados são socialmente construídos. O conhecimento, assim, não é apenas o conteúdo em si, mas também a forma como é adquirido e vivenciado coletivamente. 7)(11
Entre os motivos para relacionados ao DE, observa-se uma compreensão restrita da saúde como capacidade funcional, o que leva a uma busca tardia e reativa por cuidados, apenas quando o adoecimento compromete o trabalho. Essa lógica utilitarista dificulta a adesão a práticas preventivas e favorece o agravamento de condições que seriam inicialmente sensíveis à Atenção Primária.
A escassa antecipação de problemas de saúde e a baixa procura por serviços, sobretudo por parte dos homens, agravam a situação, exigindo, posteriormente, atendimentos de maior complexidade. Isso compromete o cuidado oportuno e sobrecarrega o sistema de saúde local, já fragilizado.
Os motivos para também se relacionam às limitações enfrentadas pelos próprios profissionais. O enfermeiro rural, muitas vezes o único profissional de saúde de nível superior presente na localidade, encontra barreiras estruturais e institucionais que dificultam a implementação do PE. A abordagem parcial dos problemas pelos programas de saúde é, inclusive, um dos fatores relacionados ao diagnóstico, conforme aponta a NANDA-I. 6
Em relação aos motivos porque, é necessário considerar os referenciais socioculturais que moldam o entendimento da população sobre o processo saúde-doença. Essas representações nem sempre dialogam com o conhecimento técnico-científico, podendo dificultar a adesão terapêutica e favorecer práticas potencialmente nocivas, como o uso de tabaco e excrementos de animais no tratamento de feridas, a introdução de alimentos sólidos na alimentação de recém-nascidos, ou a utilização de saliva humana após acidentes ofídicos como um método terapêutico para “neutralizar” venenos ou peçonhas.
Ainda que esse panorama histórico de referências se alicerce na cultura e na experiência da população rural, e que, em alguns casos, encontrem algumas ancoragens científicas (como no caso da imunidade de mucosa que poderia existir no exemplo da saliva supramencionado), eles contribuem para um déficit no nível de saúde da população. Cumpre-se dizer que essas representações não são elaboradas por ignorância, mas resultam, em última instância, da ausência de conhecimento preventivo em saúde. Reconhece-se a sua importância, pois são parte do imaginário social dos sujeitos. No entanto, não se deve negligenciar o seu potencial de causar malefícios, ou, ainda, de atrasar benefícios que poderiam ser atingidos com a adesão a medidas promocionais de saúde atentas à cultura contextual.
As crenças, sejam de natureza pessoal ou coletiva, podem ser benéficas ou prejudiciais. Compreendê-las em sua complexidade é fundamental para que o profissional de saúde atue como mediador e não como agente de apagamento cultural. O desafio consiste na reconstrução de saberes, aproveitando-os como subsunções no desenvolvimento de práticas de cuidado mais efetivas e respeitosas. 12
Destarte, os motivos para e motivos porque estão imbricados nas ações cotidianas das famílias rurais. Ignorar ais práticas é negligenciar o “mundo da vida cotidiana” (Lebenswelt), conceito central em Schütz, que se refere ao universo em que os sujeitos vivem, agem e atribuem significados. É neste mundo em que o cuidado é realizado e se torna possível. 7)(13
No manejo do DE em questão, o reconhecimento desses motivos é essencial para delinear intervenções que realmente respondam às necessidades da população. A atuação do enfermeiro rural exige, portanto, competência cultural e capacidade de diálogo, para que as práticas de cuidado sejam compreendidas, aceitas e multiplicadas pela própria comunidade. 3
A utilização de tecnologias leves, como o acolhimento, a escuta ativa e o diálogo, constitui, nessa perspectiva, em uma estratégia potente para engajar a população no cuidado com a saúde. Ao utilizar os termos e referenciais da própria comunidade, o enfermeiro rural fortalece o vínculo e favorece a adesão a práticas promotoras da saúde e preventivas de agravos, podendo suplantar questões relativas à saúde comunitária deficiente e, quiçá, identificar no seu processo de trabalho, a prevalência de Des de promoção da saúde, como Disposição para Autocuidado Melhorado, Disposição para Controle da Saúde Melhorado, entre outros.
Em suma, a fenomenologia social de Alfred Schütz, ao enfatizar os motivos para e motivos porque como elementos centrais na compreensão da ação humana, oferece um aporte teórico valioso para o aprimoramento do raciocínio clínico e crítico do enfermeiro. Esses conceitos possibilitam ao profissional deslocar-se além da simples objetividade da observação dos sinais e sintomas, permitindo uma imersão na experiência subjetiva e intersubjetiva dos sujeitos sob cuidado. O enfermeiro, dessa forma, é capacitado a interpretar as intenções futuras (motivos para) e as histórias pregressas (motivos porque) que orientam comportamentos e decisões dos indivíduos e comunidade, especialmente em contextos complexos como o rural. Essa compreensão ampliada promove uma avaliação mais profunda das necessidades, favorece o planejamento de intervenções contextualizadas e culturalmente sensíveis, e fortalece a capacidade crítica para questionar pressupostos e adaptar o cuidado diante das particularidades sociais e culturais. Destarte, a incorporação do referencial schütziano no PE potencializa não apenas a precisão diagnóstica, mas também o exercício reflexivo e ético do cuidado, contribuindo para a construção de práticas mais humanizadas, integradas e efetivas.
Este estudo, por sua natureza reflexiva, reconhece como limitação a possibilidade de julgamento subjetivo. Soma-se a isso a escassez de literatura nacional que articule a prática da enfermagem rural com referenciais filosóficos críticos, bem como a limitada valorização das evidências qualitativas no processo diagnóstico em enfermagem.
A NANDA-I, atenta à necessidade de fundamentação qualitativa de seus diagnósticos, tem incentivado estudos com enfoques interpretativos. 6 A fenomenologia social, nesse sentido, oferece subsídios valiosos para a construção diagnóstica e o planejamento de cuidados sensíveis ao contexto e à subjetividade dos sujeitos.
A aplicação da fenomenologia na prática clínica da enfermagem já apresenta resultados documentados, especialmente no cuidado a pacientes com esquizofrenia, paralisia cerebral e outras condições complexas. Esses exemplos reforçam a potência do referencial não apenas como abordagem teórica, mas como ferramenta prática de avaliação e intervenção. 14)(15
Por fim, destaca-se a relevância dos estudos qualitativos no aprimoramento do cuidado de enfermagem. A compreensão profunda das populações atendidas é condição indispensável para a construção de práticas efetivas. Intervir com êxito requer não apenas técnica, mas ore conhecimento do espaços imbólico e cultural onde as ações se inscrevem.
Considerações finais
Refletir acerca dos motivos para e motivos porque da fenomenologia social de Alfred Schütz contribuiu para compreender as relações causais envolvidas no diagnóstico de enfermagem Saúde Comunitária Deficiente em áreas rurais. Essa análise permitiu explorar diferentes nuances do fenômeno, revelando elementos cotidianos das interações entre o enfermeiro rural e sua clientela.
A incorporação desses motivos ao longo das etapas do PE pode favorecer melhorias nos padrões de saúde das populações rurais, ao possibilitar que o cuidado seja permeado pelas experiências cotidianas da comunidade. Destarte, evidencia-se a relevância do aporte fenomenológico como base filosófica que subsidia a atuação do enfermeiro rural, ampliando sua compreensão sobre os fenômenos de saúde vivenciados e permitindo o reconhecimento da clientela em sua totalidade, com todos os fatores sociais, históricos e culturais que compõem sua realidade.














