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vol.41MANUEL ALVAR. 2024. El español en Argentina y Uruguay. Alcalá de Henares: Editorial Universidad de Alcalá, Heilderberg Centre for Ibero-American Studies (Universität Heilderbrg)-CILENGUA (Fundación San Millán de la Cogolla)-La Goleta Ediciones, 1490 pp. ISBN: 978-8-419-74539-2MIROSLAV VALEŠ. 2021. Diccionariu de A Fala: lagarteiru, mañegu, valverdeñu. Minde: Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social (CIDLeS), 461 pp. ISBN 978-989-97819-2-4 índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
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Lingüística

versión On-line ISSN 2079-312X

Lingüística vol.41  Montevideo  2025  Epub 06-Jun-2025

https://doi.org/10.5935/2079-312x.20250004 

Reseña

CRISTINA ALTMAN, JULIA LOURENÇO (eds.). 2023. Feminino em Historiografia Linguística. Campinas: Pontes editores, 310 pp. ISBN: 978-65-5637-780-3

1Centro Universitário Santa Cruz, Brasil, gissele.chapanski@unisantacruz.edu.br


Este livro, organizado por Cristina Altman e Júlia Lourenço, propõe-se a tratar do ‘feminino’, e não exatamente da ‘mulher’, na Historiografia Linguística. Embora aparentemente inócua, tal escolha vocabular revela muito do posicionamento da obra ante seu objeto de estudo. Mais que categoria ou critério simples, o gênero é compreendido aqui como fator macrocultural, dinâmico e complexo. A noção de feminino abarca não só a pluralidade de mulheres possíveis sob as diversas variantes (geográficas, cronológicas, socioculturais, econômicas), como o amplo espectro de visões e expectativas sobre o papel da mulher dentro e fora do circuito intelectual vinculado aos estudos linguísticos. Desde o título, portanto, o que à primeira vista soa apenas como uma postura abrangente e democratizante das editoras é, na verdade, opção metodológica condizente tanto com a práxis historiográfica em si como com a natureza do tema e o estado da arte das suas investigações.

Tópicos migrados diretamente das pautas político-estruturais contemporâneas para o bojo dos sistemas científicos costumam suscitar uma série de questionamentos epistêmicos e revisões estruturais. Afinal, equalizar tensões entre perspectivas mais engajadas, que tendem a flexibilizar paradigmas científicos vigentes em nome do valor social, e o rigor metodológico inerente a esses modelos, pautados por imparcialidade, exaustividade e objetividade, ainda é um desafio. Há que encontrar caminhos capazes de conciliar compromisso ético e higidez de métodos e resultados, sem incorrer em anacronismos acríticos ou enviesamentos interpretativos.

O estudo das manifestações femininas na historiografia do pensamento metalinguístico confronta-se com essa questão. Diante dela, Altman e Lourenço defendem que as intersecções entre categorias internas e externas a áreas e práticas científicas podem colaborar para a composição de quadros epistemológicos mais completos. Longe de comprometer a objetividade da produção científica, incorporar a atividade intelectual feminina às práticas investigativas da Historiografia linguística aumentaria o poder de descrição e interpretação da área (p.14). Optam, assim, por compor um volume panorâmico e plural, afinado tanto às epistemologias feministas, como à perspectiva historiográfica clássica.

Da metrópole ao interior, do público ao privado, da instituição à informalidade, são várias as facetas do contexto ibero-americano dos dois últimos séculos mobilizadas ao longo dos oito capítulos do livro. A mesma multiplicidade será verificada nas fontes e métodos de abordagem empregados. Além de subsidiar uma análise crítica da presença intelectual feminina em produções metalinguísticas, esse posicionamento editorial constitui importante chave hermenêutica para compreensão do estatuto da própria disciplina ante esse difícil objeto: é, pois, a um só tempo aparato historiográfico e meta-historiográfico.

O Feminino em Historiografia Linguística não conta com programa de investigação dominante, nem mesmo orientação teórica compartilhada pelos autores dos capítulos. Pelo contrário: o traçado de um perfil disciplinar complexo é justamente uma das linhas de força da obra. Abordagens majoritariamente descritivas do contexto (Capítulo 2 e 4) são justapostas às focadas nas relações intertextuais e no trânsito de conceitos metalinguísticos entre autores masculinos, do cânone, e autoras mulheres (capítulos 1 e 3); trabalhos analíticos empenhados em destacar aspectos metaprocessuais da pesquisa (capítulo 5) surgem ao lado de relatos de iniciativas voltadas à constituição e acessibilização de corpora (capítulo 7). Das metodologias mais declaradamente comprometidas com a demonstração de seus modelos teóricos (capítulos 1 e 5, por exemplo) às mais narrativas e percepcionais (capítulos 6 e 8), todas têm lugar no volume.

Nesse mesmo sentido, a peculiaridade do objeto de investigação (o pensamento metalinguístico feminino) motiva reflexões sobre a fonte historiográfica que serão recorrentes ao longo da obra. A lacuna, mencionada direta ou indiretamente, por todos os textos – e paratextos- compilados, será mais de uma vez endereçada não como índice da inexistência de manifestações femininas nos estudos linguísticos, mas como a ausência de seu registro. Inevitável ponderar, a partir desse quadro, as relações entre a fonte e o fato em historiografia. O acesso a documentos e registros, sua cristalização sob um cânone institucionalizado, as relações envolvidas em sua composição são também fatores colocados em evidência nesse processo.

Essa gama de reflexões fundamentais ao trabalho historiográfico surge, no entanto, embalada por uma atmosfera marcadamente heurística. Embora aponte uma necessidade real de revisão metodológica ante a natureza desse objeto, a perspectiva da “descoberta das fontes” pode acabar imbuindo os estudos da área de um inescapável dever de resgate da memória das mulheres linguistas. Retirar da obscuridade nomes e obras e buscar traços da atuação feminina em documentos alternativos (cartas, cadernos) e tradições indiretas (menções e testemunhos) serão práticas inerentes ao estudo de um objeto que não foi alvo do interesse direto - nem, portanto, dos procedimentos de preservação – dos sistemas intelectuais anteriores. Algum grau de descoberta e instauração de fato lhes caberá, inevitavelmente. Ao passo, porém, que assumir isso representa uma atitude crítica e pertinente, cristalizar a lacuna como motivação central ou exclusiva para os trabalhos da área pode acomodá-los sob o estigma do nicho, ou ainda do “acessório”, consolidando justamente o que se visava a combater.

Ainda que se coloque sob uma perspectiva crítica desde o princípio, ao encampar a tônica do resgate e do pioneirismo como constante, o livro, sem dúvida, remete legitimamente ao estado da arte na disciplina, mas não deixa de ecoar a tendência mundial de atribuir a esses estudos um certo heroísmo. O perigo aí é o de acabar identificando-os discursivamente com características mais românticas do que analíticas. Caberá, porém, aos desdobramentos das pesquisas dizer se os movimentos atuais se consolidarão como retrato contingencial e sintomático do estágio das investigações sobre o tema, ou mera alavanca discursiva.

Invisibilização (Zamorano Aguilar e Toscano y Garcia), negligência (Fontes & Coelho), esquecimento e silenciamento (Motta et alii)- os nomes dados ao processo que resultou na ausência de registros da atuação feminina no âmbito da Linguística são vários. Seus usos denotam diferentes graus de engajamento sociopolítico com a questão, algo que pode ser extremamente profícuo se implicado nas ações do presente da ciência. Nesse sentido, o capítulo de Zamorano Aguilar, primeiro da sequência, abre o livro com um posicionamento relevante: sendo a Historiografia Linguística uma disciplina relativamente jovem, como e por que razão ainda perpetuaria o hábito antigo de ignorar a presença feminina em seus levantamentos e listas de estudiosos da linguagem? É importante que justamente essa questão abra o livro, reverberando a natureza crítica sob a qual se constitui o volume, já manifesta na Apresentação.

O ponto comum expresso no título dos capítulos As mulheres nos estudos linguísticos brasileiros (1890-1960): uma primeira aproximação, de Bruna Soares Polachini e Bento Vidal Neto, e Acerca de los apuntes gramaticales (1916) de Eudomilia Gallardo Schenke: uma primeira aproximación, de Soledad Chávez Fajardo, é o caráter pioneiro que assumem. O pioneirismo, por sua vez, é uma das tópicas da área, motivada inicialmente pelo ineditismo na exploração de obras e autoras (elas mesmas precursoras em seus estudos). No entanto, ambas as “primeiras aproximações” aqui não recorrem a ele como expediente discursivo vazio, na medida em que legitimam seu posicionamento estabelecendo relações efetivas com o campo de pesquisa. Polachini e Vidal Neto demonstram sua inserção em uma cadeia científica que se faz da integração de iniciativas pontuais. Seu capítulo é produto da confluência de pesquisas anteriores desenvolvidas por ambos individualmente, cujo caráter inédito se estabelece na continuidade, mais que na simples disrupção. Fajardo chega a lançar uma agenda de pesquisa onde apresenta tópicos e problemas, derivados de seu levantamento inicial, a serem desdobrados por iniciativas ulteriores. No mesmo sentido, Guilermo Toscano y Garcia declara o ineditismo de seu levantamento, sem, contudo, deixar de destacar a possibilidade de descoberta de fontes complementares às que traz à luz. O tom de que se revestem esses trabalhos é antes o da permanente incipiência sob a qual se admite qualquer pesquisa que de fato se reconheça como parte de um universo científico em constante desdobramento. Uma vez posicionado no tempo e no espaço de uma rede de investigações onde dados, modelos e interpretações estão concatenados, o pioneirismo transcende o mero elã discursivo para assumir seu papel como motor científico.

Em um campo historiográfico ainda em consolidação, a preocupação com o processo e o estabelecimento de redes, métodos e materiais é fundamental. Na base dessa cadeia, estão as fontes. É possível afirmar, inclusive, que essas sejam uma das linhas dominantes do livro a ponto de nortear sua segmentação em seções. As duas primeiras tratam de matéria tipicamente metalinguística, embora distinguam-se por um critério linguístico: I. Gramáticas do espanhol: Peru, Colômbia, Chile e Argentina & 2. Gramáticas do Português: Portugal e Brasil). A terceira (III. Outras práticas de escrita: Brasil e Cuba), porém, destina-se às abordagens e ao tratamento de materiais não convencionais (cartas, testemunhos, relatos, cadernos de receitas).

Essa última merece particular atenção por destacar o caráter aberto e interdisciplinar da Historiografia Linguística, uma vez que reúne textos sobre interfaces capazes de revelar fontes alternativas às institucionais (onde a vacância do lugar das mulheres é notória). Meta-historiográfico e declaradamente “interseccional” (p.262), Vozes femininas na América portuguesa: um processo de edição filológica eletrônica, de Elisa Hardt Leitão Motta, Raquel de Paula Guets, Mariana Rodrigues de Vita, Maria Clara Paixão de Sousa, Vanessa Martins do Monte, apresenta os processos e motivações do Projeto M.A.P. – Mulheres na América Portuguesa, desenvolvido junto à Universidade de São Paulo. Idealizada por Sousa e Monte, coautoras do capítulo e professoras dessa Instituição, o objetivo central dessa iniciativa é a criação de um repositório de dados digital destinado a organizar e acessibilizar fontes capazes de suprir a ausência de registros e referências que redunda no silenciamento das vozes femininas do período colonial brasileiro. As fontes catalogadas pelo acervo escapam ao convencional e incluem o que, em outras plataformas, poderia ser considerado material fragmentário, ou indireto demais, como testemunhos e relatos.

A educação feminina e as práticas de escrita: a Escola Doméstica Joana d’ Arc em Ibicaraí, Bahia, de Annalena de Souza Guedes, Homero Gomes de Andrade, e Vozes femininas na guerra de Cuba. Cartas do século XIX, de Eva Bravo-García, não estariam, a princípio, dentro do escopo usual da historiografia. Isso, porém, deve-se menos ao seu conteúdo que à sua metodologia. Ainda que apresentem fontes históricas ao largo do cânone, sem dúvidas relevantes à historiografia do feminino, ambos os textos adotam um tom mais linear e narrativo, pontuado por leituras nem sempre acompanhadas de maiores empenhos analíticos ou mesmo por correlações explícitas com outras obras teóricas ou documentais. Esse procedimento pode ser inerente, em grande medida, a trabalhos como o de Bravo-Garcia, cuja natureza implica o fornecimento de um cabedal de fatos e acontecimentos linearmente dispostos a fim de habilitar o leitor a conceber o contexto cubano em que a escrita epistolar feminina abordada pela autora se dá. Já em Guedes e Gomes de Andrade, verifica-se uma tendência a mobilização de um viés interpretativo como argumento per se. Os autores afirmam, sem investir em maiores desdobramentos e justificativas, por exemplo, que o contexto educacional que dá origem ao caderno de receitas objeto de sua análise, apesar de remeter à realidade local, estaria eivado de prerrogativas eurocêntricas sob as quais se buscava “civilizar” as mulheres. A hermenêutica do leitor aí parece correr por conta dos conceitos difundidos no senso comum.

Embora essa perspectiva se coadune ao tom personalíssimo do trabalho, perfeitamente validado sob muitas modalidades de estudos históricos e discursivos, não estaria, em essência, alinhada aos princípios da Historiografia Linguística. Mais um índice da pluralidade que dá a tônica do volume.

A despeito desse caráter plural, é possível observar fatores de unificação do conjunto para além da via temática. A interdisciplinaridade com a Educação é um deles. No Prefácio que produz para esta edição, María Luisa Calero Vaquera coloca a “calculada tacañeria” empenhada na educação das meninas como matriz do contexto em que se estabelecerão as lacunas e desafios sobre o qual se debruça Historiografia Linguística do feminino hoje. Em contrapartida, Fajardos afirma que uma revolução educacional teria permitido a emergência de uma figura como Eudomilia Gallardo Schenke, gramática e professora engajada no processo de hispanização do Chile no contexto bilíngue e decentralizado de Orosco. Nessa interface, porém, nada é simples ou unívoco.

Num primeiro momento, a sobreposição dos papeis sociais de gênero à uma práxis acadêmica no âmbito dos estudos linguísticos resultou em estudiosas voltadas mais às perspectivas metodológicas que as propriamente teóricas. Isso pode ser compreendido como um reflexo do papel social, essencialmente estereotípico, atribuído às pioneiras dos estudos metalinguísticos. Sob a rígida égide da maternidade e das funções de cuidado, ao feminino caberia o ensino antes da teorização; a aplicação da teoria antes de sua formulação. Uma estereotipia na base da invisibilização da produção feminina, intimamente relacionada às dimensões socioeconômicas, visto que muitas vezes o magistério consistiu em única saída para as mulheres ante a precariedade financeira, conforme aponta Zamorano Aguiar.

Por outro lado, as linguistas educadoras, empenhadas na produção de gramáticas, cartilhas e demais conteúdos metalinguísticos com fins didáticos, não apenas dialogam com textos admitidamente teóricos participantes do cânone masculino apresentando racionalizações críticas sobre eles, conforme explicitam os textos de Zamorano Aguiar, Toscano y Garcia, Fajardo, Polachini e Vidal Neto. Mas se colocam na base do desenvolvimento de um paradigma teórico paralelo, de orientação aplicada, que inclusive será particularmente significativo para as pautas contemporâneas da Linguística – algo que os trabalhos desse volume permitem flagrar, e que poderá servir ao desenvolvimento de futuros estudos.

Mesmo o caso de Carolina Michaёlis de Vasconcelos, abordado em Vozes negligenciadas: a mulher e o estudo da Língua na tradição Portuguesa, de Susana Fontes e Sônia Coelho reflete esse contexto. Apesar de ter alcançado autonomia teórica reconhecida pelos nos circuitos acadêmicos (uma excepcionalidade ante as trajetórias das linguistas abordadas neste volume), a trajetória de Vasconcelos ainda se vincula intimamente ao contexto educacional. Suas interlocutoras, Ana Luíse Rodrigues de Freitas e Luise Ey, posicionam-se na confluência das atividades intelectuais admitidas como tipicamente femininas, dentre as quais se destaca novamente o ensino, seguido pela literatura. No mesmo sentido, Fontes e Coelho compõe o panorama português partindo da busca da mulher pela educação e ancorando-se na emblemática figura da primeira gramática da Língua Portuguesa, Francisca Chantal Álvares, que escreve para suas alunas no Mosteiro da Visitação, na Lisboa de 1786.

A aparente irreconciliabilidade entre os temos “feminino” e “Historiografia Linguística” apontada por Vaquera no Prefácio ao livro editado por Altman e Lourenço, instala-se num cenário complexo. Avaliar seus motivos, reflexos e sentidos será sempre uma ponderação processual, apta a considerar fatores múltiplos e heterogêneos sob uma postura crítica constante. O presente volume se propõe não apenas a realizar essa avaliação, mas sobretudo a instrumentalizá-la. Em um circuito epistemológico que ainda compreende o espectro do feminino sob a clave da falta e da excepcionalidade, o modelo historiográfico defendido por esta obra compreende a necessidade de se estabelecer bases para um estudo que, reconhecendo essa lacuna, habilite-se a transcendê-la. Nesse sentido, concretiza etapas significativas: abre espaço para a reformulação de um cânone afinado com expectativas do presente, que integre autoras mulheres e suas obras; reflete criticamente sobre as vias de interpretação da trajetória da intelectualidade feminina vertidas em lugares-comuns; problematiza tópicas da área, assim como o estatuto da fonte historiográfica diante de um objeto fragmentário e lacunar.

O Feminino na Historiografia Linguística: Américas reconhece sua realidade meta-historiograficamente como parte das dinâmicas científicas da área e fonte em si. Mais do que uma obra precursora, ou uma primeira compilação de olhares sobre o fazer metalinguístico feminino em contexto ibero-americano, trata-se de um movimento que desenha, sob a admissão das pluralidades, a tensão de fronteiras estabelecidas e a tônica do questionamento, um modelo de fazer historiográfico a se desdobrar.

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