As pessoas estão inseridas em uma sociedade que incentiva o consumo e enaltece as aparências (Baudrillard, 1998). O ato de comprar, portanto, integra a vida moderna como uma forma de satisfazer necessidades, o que nem sempre está relacionado a aspectos negativos (Miller, 2012). Contudo, tal comportamento passa a merecer mais atenção quando começa a gerar prejuízos na vida do indivíduo, ao ponto de afetar o funcionamento social, profissional e familiar (Ridgway et al.,2008). Nesse contexto, a compulsão por compras emerge como um fenômeno complexo, que vai além do consumo por necessidade, sendo influenciada por múltiplos fatores individuais, sociais e culturais (Bauman, 2007; Castellanos et al., 2016; Harnish et al., 2019).
Dado o impacto desse comportamento na saúde mental e nas relações sociais, torna-se fundamental investigar como ele é compreendido e estudado no campo da psicologia social. Com esse propósito, o presente trabalho tem como objetivo realizar um levantamento das pesquisas sobre compra compulsiva (CC) na área da psicologia social (PS).
Historicamente, a investigação da CC possui dois marcos importantes. O primeiro ocorreu em 1914 quando o psiquiatra alemão Emile Kraepelin elaborou o termo oniomania (“onio” significa, em grego antigo, “para venda” e “mania” significa, “loucura”) para descrever o transtorno de compulsão por compras. O segundo se refere ao fato de que em 1994 foi proposto por McElroy e seus colaborados o primeiro critério diagnóstico da CC, que foi considerado um marco importante para a compreensão desta condição (Lejoyeux & Weinstein, 2013).
Mesmo com diversos avanços no campo de estudos sobre a temática, é possível observar uma grande variedade de termos utilizados para se referir ao fenômeno (e.g., compra compulsiva, compra excessiva, compra patológica, entre outros). No presente artigo os termos compra compulsiva e compra patológica são utilizados como sinônimos. Ademais, é importante ressaltar que ainda existe um debate na comunidade cientifica referente ao fato de a CC representar um transtorno de controle de impulso, obsessivo-compulsivo ou viciante (Aboujaoude, 2014; Piquet-Pessôa et al., 2014; Thomas et al., 2023). Atualmente, a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) no capítulo Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos, apenas cita adição por compras e não a incluí formalmente. Além disso, é essencial observar que o transtorno compulsivo de compras é considerado um transtorno mental CID-11 (assim como outros transtornos específicos de controle de impulsos, 6C7Y) (American Psychiatric Association, 2014).
Diante disso, é importante reconhecer a gravidade desse fenômeno, pois a CC possui uma prevalência de 5% na população geral e está presente em diferentes contextos culturais, podendo causar sofrimento e prejuízos na vida das pessoas (Black, 2012; Maraz et al., 2016). Portanto, reconhecer sua gravidade é relevante para garantir que os indivíduos afetados recebam o suporte e tratamento adequados para lidar com as consequências negativas que essa condição pode provocar em seu cotidiano (Koran et al., 2006; Müller et al., 2019). A CC também costuma estar associada com outros problemas psicológicos como a depressão, a ansiedade e o stress (Müller et al., 2011).
Quanto à definição, a adotada nesse artigo é a que compreende a CC como um vício. Andreassen (2014, p. 198) a definiu como: “estar excessivamente preocupado com as compras, impulsionado por uma motivação incontrolável de comprar, e investir tanto tempo e esforço nas compras que prejudica outras áreas importantes da vida”. A dependência em compras deve ser tratada como uma dependência comportamental, cujos critérios básicos são: saliência, modificação de humor, tolerância, abstinência, conflito, recaída e problemas resultantes (Andreassen et al., 2015). Ademais, o comprador compulsivo pode sentir uma grande angústia psicológica ao ter que lidar com a exposição constante a estímulos de consumo (e.g., propagandas), inabilidade de resistir aos impulsos de compra e sofrimento perante as perdas que o comprar compulsivo pode gerar (Méndez et al., 2022; Valence et al., 1988).
A problemática da CC na relação indivíduo-sociedade tem sido uma preocupação dos profissionais da área das ciências humanas e sociais (Donnelly et al., 2015; Mikołajczak-Degrauwe & Brengman, 2014; Sharif et al., 2022; Tarka & Harnish, 2021). A variedade de fatores presentes nesse fenômeno talvez seja uma indicação da importância de estudá-lo sob diferentes ângulos. Dito isto, o estudo da CC numa perspectiva psicológica, especialmente no campo da PS, pode ser considerado fundamental, uma vez que a valorização do consumismo na sociedade pode tornar pessoas psicologicamente vulneráveis mais propensas a comprar compulsivamente (Otero-López et al., 2023).
Desse modo, é essencial destacar que a PS estuda como as pessoas são influenciadas pelo ambiente social e como suas interações com os outros afetam seu comportamento (Oliveira et al., 2020). Diversos fatores sociais, como a pressão dos pares, a busca por emoções positivas, as normas sociais e o desejo de pertencimento a determinados grupos, podem desencadear comportamentos de CC (Hu & Liu, 2020; Thomas et al., 2023; Zheng et al., 2020a). Nesse contexto, as compras podem ser usadas como uma ferramenta para alinhar a autoimagem às expectativas ou padrões estabelecidos por grupos sociais desejados, reforçando a conexão entre consumo e identidade social (Ghiglino & Langtry, 2023).
Em vista disso, torna-se pertinente mapear e identificar os trabalhos que têm sido desenvolvidos até o momento sobre a CC na área da PS, para desse modo, se ter um panorama geral do que se está sendo pesquisado. Para isto, foi realizada uma revisão de espoco ao considerar a importância deste tipo de estudo para obtenção de um mapeamento rápido acerca de determinada temática (Pham et al., 2014).
A técnica de revisão de escopo tem a finalidade de mapear, sintetizar e disseminar, por meio de método rigoroso, transparente e replicável, evidências presentes na literatura sobre um determinado tema, possuindo natureza exploratória e descritiva (Peters et al., 2020). Destarte, o presente trabalho pretende responder à seguinte questão: ¿quais são as características dos estudos sobre compra compulsiva na área da psicologia social?
Método
A presente revisão de escopo buscou atender as diretrizes metodológicas desenvolvidas pela Joanna Briggs Institute (JBI; Aromataris & Munn, 2020) e o Checklist Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) (Tricco et al., 2018). A revisão foi cadastrada no Open Science Framework com identificação (https://doi.org/10.17605/OSF.IO/VEQXR) e seguiu as seguintes etapas: (1) elaborar a questão de pesquisa e definir os descritores, (2) identificar os estudos relevantes, (3) selecionar os estudos, (4) extrair os dados, (5) apresentar e discutir os resultados.
Estratégia de busca
A presente revisão buscou responder à questão “¿quais são as características dos estudos sobre compra compulsiva na área da psicologia social?”, elaborada com base no acrônimo PCC (população, conceito e contexto). A população consistiu em amostras de adolescentes e/ou adultos, o conceito se trata dos estudos sobre CC, e o contexto foi estabelecido como o campo da PS.
A partir dessa estratégia, foram definidos como descritores os termos “Compra Compulsiva”, Compulsive Buying, Compulsive Shopping, Pathological Buying, Pathological Shopping. Essa estratégia foi elaborada visando contemplar uma ampla literatura sobre o tema, de forma a não serem aplicados filtros de restrição nas bases, no qual as buscas foram realizadas a partir dos string ("Compra Compulsiva" OR “Compulsive Buying” OR “Compulsive Shopping” OR “Pathological Buying” OR “Pathological Shopping”).
É válido ressaltar que a estratégia de não aplicar filtros iniciais de restrição nas bases de dados foi adotada considerando que a maior parte das investigações sobre CC é realizada em áreas como administração, marketing e medicina, que utilizam abordagens e metodologias distintas para explorar o comportamento de consumo. Por exemplo, Santos et al. (2020) realizaram um estudo, examinando a influência do marketing digital no comportamento de compra e propondo uma agenda de pesquisa sobre o tema. Esse exemplo ilustra como outras áreas têm produzido conhecimentos significativos sobre a temática. No entanto, esta pesquisa foca exclusivamente nos trabalhos desenvolvidos na área da psicologia, especialmente na PS. Para minimizar a exclusão de estudos relevantes dentro desse recorte, optou-se por realizar inicialmente uma busca ampla, sem restrições, e, posteriormente, aplicar filtros de forma manual, por meio da leitura detalhada dos artigos e dos critérios de elegibilidade. Embora perdas sejam inevitáveis, essa abordagem visou garantir que os estudos selecionados fossem alinhados aos objetivos da pesquisa.
Critérios de elegibilidade
Os critérios de inclusão foram estabelecidos previamente, considerando estudos empíricos que abordassem exclusivamente a CC, indexados em bases de dados da psicologia, e que mensurassem algum construto da PS relacionado ao tema. Além disso, foram incluídos apenas artigos publicados em inglês, português ou espanhol. Foi essencial que todos os critérios de inclusão fossem atendidos em sua totalidade para que o estudo fosse selecionado. Por outro lado, os critérios de exclusão incluíram livros e capítulos de livros, revisões, teses, dissertações, estudos de validação de escalas, artigos que não fossem publicados no campo da psicologia e aqueles cujo texto completo não estivesse disponível.
Seleção dos estudos
Inicialmente, foram extraídos os metadados no formato RIS dos artigos rastreados nas seguintes bases e seus respectivos motores de busca, como PsycInfo e PsycArticles (PsycNET); SciELo (Web of Science); Pubmed (National Library of Medicine); LILACS e Index Psi através da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS). O acesso a todas as bases foi realizada a partir do Periódicos CAPES.
Todos os metadados foram exportados para o software Rayyan.ia no dia 10/11/2022 no qual foram removidos os estudos duplicados e foi implementado um processo de cegamento, no qual, inicialmente, cada juiz avaliou os artigos de forma independente, sem acesso às avaliações dos outros, garantindo imparcialidade. Após essa fase, o cegamento foi removido e, caso surgissem divergências, os juízes discutiam as diferenças e chegavam a um consenso. Quando isso não era possível, um terceiro juiz poderia ser consultado para resolver as discrepâncias.
Na primeira etapa de avaliação foram excluídos estudos através da leitura dos títulos e resumos, removendo todos aqueles que não estavam dentro do escopo desta revisão. Na segunda etapa, os estudos foram lidos na íntegra de forma a identificar aqueles que estavam totalmente disponíveis e que atendiam aos critérios de inclusão para elegibilidade dos estudos.
Extração e síntese dos dados
Para todos os estudos, dados sobre a publicação, a amostra, o objetivo, as medidas sobre CC e as medidas para avaliar outras variáveis foram extraídas. Os dados referentes às variáveis, às medidas, aos procedimentos e aos resultados serão apresentados em uma síntese qualitativa, adotando uma abordagem descritiva.
Resultados
Na busca inicial das bases de dados científicas, foram recuperados 3426 artigos, sendo: Scopus (n = 1162), PsycNET (n = 783), BVS (n = 170), Pubmed (n = 1285), SciElo (n = 26), dos quais 834 foram removidos por serem duplicados. Analisaram-se 2592 publicações pelo título e resumo, sendo eliminados 2000 estudos por não cumprirem os critérios de inclusão. Logo, 592 artigos foram avaliados na íntegra, no entanto, 24 foram excluídos por não estarem disponíveis para leitura. Dos 568 artigos restantes para serem avaliados na íntegra quanto à elegibilidade, foram excluídos 545, sendo: estudos teóricos (n = 27); estudos com dados insuficientes (n = 11); capítulos, livro, teses, dissertações (n = 14); não eram do campo da psicologia (n = 130); não atendiam aos critérios de inclusão (n = 363). Ao final, 23 artigos foram incluídos para a revisão (Figura 1). Ademais, um resumo das características gerais de interesse dos estudos incluídos é fornecido na Tabela 1 . . ..
As datas de publicação dos artigos incluídos na revisão ocorreram entre 2005 e 2022. Os anos com maior número de publicações foram 2015 (Donnelly et al., 2015; Harnish & Bridges, 2015; Spinella et al., 2015) e 2017 (Harnish et al., 2017; Islam et al., 2017; Sharif & Khanekharab, 2017), conforme mostrado na Figura 2.
Discussão
A presente revisão de escopo teve como objetivo realizar um levantamento das pesquisas sobre CC na área da PS. Ao revisar a literatura, constatou-se que os estudos sobre CC estão geralmente focados em adolescentes, jovens adultos e adultos, com ênfase nos jovens adultos universitários. Isso se deve à facilidade de acesso a esse público, já que os estudantes universitários são frequentemente considerados mais acessíveis para participar de pesquisa devido à sua concentração em um ambiente institucionalizado, o que facilita o recrutamento pelos pesquisadores (Cruces et al., 2015).
Além disso, a fase da vida dos jovens adultos é marcada por intensas mudanças nas esferas social, emocional e profissional. Durante esse período, eles tendem a experimentar novos produtos e marcas, têm maior acesso ao crédito e buscam aceitação social, frequentemente associada à conquista de status (Harnish et al., 2019). Esses fatores podem estar profundamente relacionados ao comportamento de CC, já que a busca por pertencimento social e reconhecimento pode impulsionar o consumo excessivo (Islam et al., 2017). Essas dinâmicas podem explicar a concentração de estudos em amostras de estudantes universitários, uma vez que esse grupo se encontra em uma fase particularmente suscetível a esses impulsos. Assim, o foco em jovens adultos pode ser justificado pela relevância dessa faixa etária na compreensão dos fatores que influenciam o comportamento de CC.
Ainda, observou-se que há uma discussão em relação ao gênero que apresenta maior propensão à CC. Por exemplo, os estudos de Dittmar (2005) e Müller et al., (2011) não encontraram diferenças significativas entre os gêneros, concluindo que tanto homens quanto mulheres podem ser compradores compulsivos. Em contrapartida, as pesquisas realizadas por Harnish et al. (2017) e Villardefrancos e Otero-López (2016) indicaram que as mulheres têm uma tendência maior a comprar de forma compulsiva. Portanto, pode-se presumir que é necessário examinar mais detalhadamente a influência do gênero na CC, a fim de compreender não apenas como ela é percebida entre os diferentes gêneros, mas também como explica esse comportamento.
Quanto aos instrumentos utilizados para medir a CC, foi observado o uso de sete medidas diferentes, entretanto as mais aplicadas foram: Compulsive Buying Scale (D’Astous et al., 1990), Compulsive Buying Scale (Faber & O’Guinn, 1992), Richmond Compulsive Buying Scale (Ridgway et al., 2008). No entanto, vale salientar que os diferentes instrumentos elaborados para medir a CC centram-se em aspectos/dimensões diferentes, assim, existem escalas com itens voltados ou para controle de impulso (D’Astous et al., 1990), ou para o obsessivo-compulsivo (Faber & O’Guinn, 1992) ou para ambos (controle de impulso e obsessivo-compulsivo; Ridgway et al., 2008) ou para vícios comportamentais (Andreassen, 2014).
Contudo, é relevante mencionar que os instrumentos supracitados como os mais utilizados, estão recebendo algumas críticas por serem considerados desatualizados, um exemplo é a escala elaborada por Faber e O’Guinn (1992), que tem como item “eu preenchi um cheque” e na sociedade moderna os compradores raramente utilizam cheques (Andreassen et al., 2015).
Ademais, com relação à nomenclatura das escalas, foi observado que existem instrumentos elaborados por autores diferentes, mas que possuem a mesma nomeação (e.g., Compulsive Buying Scale, elabora por Faber e O’Guinn (1992); Compulsive Buying Scale, elaborada por D’Astous et al. (1990). Assim como em diferentes estudos uma mesma medida elaborada pelo mesmo autor aparece com nomes diferentes. Por exemplo, a escala desenvolvida por Ridgway et al. (2008), que é denominada Richmond Compulsive Buying Scale no estudo de Harnish e Bridges (2015) e é chamada de Compulsive Buying Measure na pesquisa de Mikołajczak-Degrauwe e Brengman (2014). Essas divergências destacam a necessidade de estabelecer nomenclaturas padronizadas que permitam identificar e diferenciar as medidas, evitando possíveis confusões, e permitindo comparar melhor os resultados.
Em relação às variáveis que têm sido estudadas com a CC, é possível dividi-las em duas categorias: a) variáveis de diversas áreas, compostas por construtos relacionados ao marketing, à economia e à psicologia (e.g., gestão do dinheiro, influência da publicidade, autoestima, depressão, ansiedade e bem-estar subjetivo) e b) construtos da PS, composto por variáveis que mensuram algum construto da PS relacionada à CC (e.g., valores materialistas, crenças, atitudes, comparação social). Dentro do enquadramento da PS é possível observar que a temática mais abordada nos estudos é sobre os valores materialistas (e.g., Manolis & Roberts, 2012; Müller et al., 2011; Uzarska et al., 2021).
Dos 23 estudos incluídos e analisados na revisão, 16 abordaram os valores, uma possível explicação para isso é o fato de que os valores são critérios de orientação e guiam as ações humanas (Gouveia, 2016). Dessa forma, à medida que um indivíduo prioriza cada vez mais os valores materialistas, ele tende a ver o dinheiro, os bens materiais e o consumo como um indicador de sucesso e felicidade, assim, pessoas orientadas por valores materialistas tendem a ter uma maior propensão para a CC (Dittmar, 2005; Sharif et al., 2022).
Ao analisar os objetivos dos estudos selecionados, foi possível perceber que o foco das pesquisas estava voltado principalmente para (a) Investigar a relação da CC com variáveis psicológicas e sociais (e.g., Claes et al., 2010; García, 2007; Islam et al., 2018; Japutra & Song, 2020; Mikołajczak-Degrauwe & Brengman, 2014; Müller et al., 2011; Villardefrancos & Otero-López, 2016); (b) Verificar o papel mediador de variáveis psicológicas e sociais que levam a CC (e.g., Donnelly et al., 2015; Islam et al., 2017; Roberts et al., 2019; Sharif & Khanekharab 2017; Sharif et al., 2022; Zheng et al., 2020b); (c) Explorar a CC dentro do modelo de valores de Schwartz (Tarka & Harnish, 2021; Uzarska et al., 2021) e (d) Examinar variáveis psicológicas e sociais que predizem a CC (Dittmar, 2005; Harnish & Bridges, 2015; Harnish et al., 2019; Reeves et al., 2012). Pesquisas com esse tipo de foco fornecem informações importantes sobre as relações entre variáveis e o impacto delas na CC.
Além disso, é relevante salientar que os artigos analisados se dedicaram principalmente a estudos com uma abordagem quantitativa e transversal; sugerindo a necessidade de desenvolver estudos mais diversificados, a fim de obter um entendimento mais abrangente desse fenômeno. Métodos qualitativos e longitudinais podem ser utilizados como uma ferramenta para auxiliar na compreensão dos aspectos subjetivos e contextuais presentes na CC. Os estudos qualitativos possibilitam explorar as motivações, experiências e percepções dos compradores compulsivos e os estudos longitudinais permitem perceber as mudanças e continuidades no comportamento de CC (Dokumaci et al., 2021; Smith et al., 2018).
Nesse sentido, a literatura recente sobre CC inclui estudos qualitativos relevantes que, embora não publicados em revistas específicas de Psicologia, oferecem contribuições significativas para a compreensão desse fenômeno. Um exemplo é o estudo de Leal e Baldanza (2020), que analisou como os processos hipermidiáticos mediados por dispositivos móveis podem influenciar, positiva ou negativamente, o comportamento de CC. Esse achado evidencia como os estudos em PS podem ultrapassar os limites da própria área, conquistando espaço em periódicos de outras disciplinas e demonstrando sua relevância interdisciplinar.
No que se refere aos resultados dos estudos e as conclusões foi possível perceber que os indivíduos focados em si mesmos, que priorizam valores materialistas (Harnish, et al., 2019; Sharif et al., 2022; Xu, 2008), são orientados para o poder e a realização, buscando maior status social e aceitação (Harnish et al., 2019), além de frequentemente exibirem baixa autoestima e dificuldades na gestão de suas finanças (Roberts et al., 2019; Uzarska et al., 2021).
Também foi observado que aqueles que apresentam essas características tendem a se comparar com os outros, experimentam estados de ansiedade (Zheng et al., 2020b) e fazem uso excessivo de redes sociais (Sharif & Khanekharab, 2017). O comportamento de CC, nesses casos, frequentemente surge como um mecanismo para aliviar estados emocionais negativos e regular as emoções (Donnelly et al., 2015). De modo geral, esses dados fornecem direções para a compreensão do fenômeno da CC, permitindo a identificação de fatores de risco que contribuem para seu desenvolvimento.
Estudos recentes, como o de Bashar et al. (2023), sugerem que fatores culturais desempenham um papel crucial na formação de diversos aspectos do comportamento do consumidor, incluindo os comportamentos de compra por impulso e compulsivos. Nesse sentido, a cultura pode influenciar profundamente as motivações, valores e normas que guiam as decisões de compra, moldando, assim, o comportamento do consumidor de maneira significativa. Por exemplo, em sociedades que valorizam o materialismo e o status social, as pessoas podem ser mais propensas a adotar comportamentos de CC, a fim de atender às expectativas sociais ou demonstrar sucesso (Shammout et al., 2022).
Além disso, o marketing digital tem um impacto substancial no comportamento do consumidor. Ferramentas de mídias sociais, anúncios personalizados e outras estratégias digitais podem influenciar significativamente as decisões de compra, muitas vezes estimulando compras impulsivas ou compulsivas (Campelo & Vicente, 2023; Santos et al., 2023). Tais evidências reforçam a importância da PS na análise desse comportamento, ao explorar como dinâmicas interpessoais, culturais e tecnológicas podem influenciar as escolhas dos indivíduos. Esses achados também podem oferecer subsídios para reflexões sobre políticas públicas e intervenções práticas, com o objetivo de mitigar os impactos negativos desse comportamento.
Outro fator relevante a ser discutido é o crescimento do comércio eletrônico, que levou muitos consumidores a migrarem das compras em lojas físicas para as compras online (Smith et al., 2022). O aumento do uso da internet para realizar compras pode ser atribuído tanto à facilidade de acesso quanto ao período de pandemia, que forçou as pessoas a se adaptarem a novas dinâmicas de vida (Jones & Clark, 2021). Nesse contexto, o estudo de Müller et al. (2022) demonstrou que o comportamento de CC em plataformas digitais compartilha características semelhantes ao comportamento compulsivo em lojas físicas e também pode gerar prejuízos significativos para a vida dos indivíduos. Esse paralelo entre os dois contextos destaca a importância de um olhar mais atento sobre os impactos negativos que o comércio digital pode gerar na vida dos consumidores.
Ademais, com relação às limitações da presente pesquisa, é importante destacar que a busca por referências foi restrita a periódicos da área de Psicologia, o que pode ter excluído relevantes estudos publicados em outras áreas, como Psiquiatria. Além disso, a análise backward snowballing (análise das referências) não foi realizada, o que pode ter limitado a identificação de outros estudos significativos sobre o tema. Também é importante considerar as limitações do método utilizado na revisão de escopo. Embora esse método seja transparente, rigoroso e replicável, ele não tem como objetivo avaliar a qualidade das evidências produzidas pelos estudos analisados.
Conclusão
Diante do exposto, o objetivo do trabalho foi alcançado, uma vez que foi realizado o levantamento das pesquisas sobre CC na área da PS, podendo, portanto, conhecer as características dos estudos sobre CC que são desenvolvidos nesse campo. Espera-se que o conjunto de informações destacadas neste estudo sirva de base para os pesquisadores que pretendem trabalhar com o tema, auxiliando na construção de conhecimentos a respeito da CC e incentivando o desenvolvimento de novas pesquisas na área da PS.
Sugere-se a realização de uma revisão sistemática com o foco em avaliar a qualidade metodológica dos estudos sobre CC, bem como, a validação de um instrumento mais atualizado que mensure a CC, considerando também o comportamento de compra excessiva como um vício em termos de critérios básicos de dependência no contexto brasileiro.










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